É a música, estúpido

Paulo C. Barreto publicou em seu blog uma análise sobre programas de P2P, começando com uma advertência:

É claro que sei que você, ilustre leitor, só usa programas/serviços peer-to-peer para caçar e redistribuir programas livres/open source/freeware, os ebooks que você mesmo escreveu e as músicas que Lobão liberou há anos e anos. Dessa forma, já experimentou as grandes redes de troca-troca…

Hehehehehe.

Pode parecer incrível para muita gente, mas houve uma época em que não existiam programas de troca de arquivos. É isso mesmo! Para baixar músicas (com as conexões da época, impossível pensar em filmes), devíamos navegar por sites de MP3 que disponibilizavam sempre os mesmos links — quase sempre de bandas que estavam no playlist atual da MTV. Mas existiam exceções, pois podíamos armazenar nossos próprios arquivos MP3 em servidores gratuitos sem limite de armazenagem. Sim, não pense que é mentira! A bolha não tinha estourado, a RIAA não tinha se descabelado, e ainda era possível fazer uma piratariazinha inocente e jogar a conta para as pontocom.

Todo esse nariz de cera é desculpa para postar um texto meu antigo, que foi publicado em 1999 em meu próprio site de MP3. Com um pedantismo um tanto ignóbil, eu não me limitava a disponibilizar as músicas — tinha que escrever um texto “profundo” sobre a música ou artista em questão. Em meu favor, pode-se dizer que não existiam esses ótimos sites sobre cultura pop de hoje, e parecia inovador um site de MP3 que não tivesse “apenas” MP3.

O artigo abaixo é resultado de minha surpresa frente à magnífica cover de “Samba Makossa”, de Chico Science, gravada pelo Planet Hemp. É arrogante, desinformado e meio tolo. Mas veio de meu amor genuíno pela música. Um James Carville pop me mandaria esquecer da política: “é a música, estúpido”…

Planet Hemp – Samba Makossa

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(clique no botão de play para ouvir)

Esta música foi lançada originalmente no primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos”. Após a morte de Chico, o Planet Hemp fez essa cover, apresentada pela primeira vez no Heineken Concerts de 1997, em um show onde Liminha foi anfitrião e convidou vários artistas produzidos por ele. A versão saiu depois não em disco do Planet, mas em “CSNZ”, primeiro disco da Nação Zumbi sem seu líder.

Em sua curta carreira, Chico Science apontou caminhos interessantes para o rock brasileiro, e também tocou em alguns nervos expostos do imaginário nacional, ao chutar para o alto a idéia de “nação cordial” destinada a um “futuro radioso” no panorama mundial.

A sua temática é outra: um país afundado até os joelhos na lama, lutando ingloriamente por uma identidade própria, e também com cada um lutando por sua sobrevivência a qualquer preço, num caldo de cultura parecido com o mangue tão falado.

Ao recusar as parabólicas convencionais e preferir enterrar a sua na lama, Chico estava dando uma pista que o identifica com a antropofagia de Oswald de Andrade: não podemos recusar o que vem de fora, mas não podemos aceitar do jeito que vem, que isso ainda vai nos matar. Pode ser um pouco confuso, e a crítica ao Manifesto Antropofágico já foi feita por gente bem melhor do que eu. Mas, sem dúvida, nosso estado de nação periféria e ao mesmo tempo aspirante a colosso da humanidade torna difícil qualquer tentativa cartesiana de interpretar este país.

* * * * * * * *

O Brasil é um lugar absurdo. Onde Sérgios Nayas podem ficar passeando à vontade na ponte aérea Rio / Miami, mas o Planet Hemp pode ser preso por dizer que fuma maconha. O Brasil é um país mestiço em que parte da elite se imagina branca e européia. E o Brasil também é um país “europeu” que quer ser eternamente visto como aquele primo exótico, pouco sério, habitado pelos “mulatos inzoneiros” imortalizados por Ari Barroso.

Jorge Luís Borges, argentino mas britânico de coração, disse certa vez que a América Latina não existe. O Brasil é parte da América Latina e… desculpem, mas o Brasil também não existe. É uma ficção, criada justamente para que não nos tornemos uma nação de verdade. Para justificar um passado de opressão e alienação. Somos um povo “alegre” porque nos esquecemos dos motivos para sermos tristes…

O cantor Nick Cave, australiano de nascimento, morou alguns meses no Brasil e disse que não entendia como as pessoas fingiam tanto ser alegres. Perguntavam para ele “como alguém tão triste podia viver no Brasil”, e ele ria, respondendo que o Brasil era o país mais triste que ele tinha conhecido!

* * * * * * * *

Chico Science não era realmente um grande compositor, mas tinha a percepção exata do zeitgeist tupiniquim, uma visão adiantada sobre o que, enfim, esse país precisa. Não de uma “carnavalização” eterna, uma “jorgeamadização” de sua cultura, mas da percepção direta de seu espírito trágico, de sua história de pilhagem e destruição, e de suas (outras) possibilidades enquanto nação jovem e pobre.

Vejam essa bela música: o malungo que pega a bronca por ter chegado atrasado à roda de samba não tem nada a ver com o mulato inzoneiro daquela outra (“Aquarela do Brasil”). Ser do samba não é um traço de cordialidade ou alegria… na verdade, tocar o pandeiro é manter-se inteiro, como diz a letra. Manter-se sendo o que é, sob pena de morrer, ou pior, se desgraçar. Só assim é possível entender o samba e toda a resistência dos negros para manter suas raízes, apesar da repressão dos brancos.

Chico queria pensar essas coisas todas (assim como seu ex-companheiro Otto, que “pensa muito, todos os dias”), e até por isso não tinha nem uma banda, mas uma nação. E não qualquer nação, mas a Nação Zumbi, signo dessa tal história de pilhagens, mistureba de sons só possível com um olhar antropofágico, e além do mais, a melhor seção rítmica do planeta.

Quando ouvi pela primeira vez a versão do Planet, na TV Cultura, tive a mesma sensação que me assaltou quando ouvi Marisa Monte cantando “Comida” dos Titãs. A sensação de existir um mundo dentro da música brasileira que eu não conheço, que às vezes só vem à tona quando um artista generoso nos dá uma nova visão sobre uma canção.

Assim como “Comida” se transmutou, de “brincadeira pop com poesia concreta”, em verdadeiro hino, na versão jazz-maracatu de Marisa, “Samba Makossa”, que ficava meio perdida entre as pérolas da Nação Zumbi, se afirmou agora o que verdadeiramente é: um clássico da música brasileira. E com direito a trechos do “Monólogo ao Pé de Ouvido”, o manifesto dos novos tempos que estavam por vir.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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