Entrada com o pé esquerdo

Entre os vídeos institucionais apresentados na abertura do Festival de Belém, havia um da revista IstoÉ Gente. Talvez apropriado para o que foi a abertura: mais que um evento cultural, uma ocasião social para ver e ser visto. O Cine Estação lotou, com filas imensas à porta. Contando atrasos, discursos quilométricos e poses para fotos estilo “festa de quinze anos”, o público só pôde assistir a Dezembro, o curta metragem que abriu o festival, quase uma hora e meia após o horário marcado.

Aliás, por que será que, em eventos de cinema, ninguém fala de cinema, mas apenas de mercado, distribuição, patrocínio? Lembro de uma entrevista de Pedro Almodóvar no Roda Viva, onde o único cineasta presente na banca só fazia perguntas sobre isso. O único que realmente perguntava sobre cinema era o Leon Cakoff, tanto que Almodóvar foi ficando impaciente e a partir de certa hora só queria responder às perguntas dele.

Pois bem: Dezembro, do paraense Fernando Segtowick, abriu (em estréia nacional) o festival, e, metaforicamente, quase o fechou também. A decepção com o filme foi geral, menos para aqueles que já conheciam o igualmente fraco Dias, filme de estréia do diretor.

“Dias” desperdiçava Sandra Barsotti para contar três histórias se cruzando num acidente de trânsito. Dito assim, parece os filmes de Alejandro Iñárritu (e foi feito antes deles). Mas as histórias da mulher deprimida com seu casamento (Barsotti), da adolescente grávida abandonada pelo namorado, e outra que não lembro agora, não criavam qualquer empatia com o espectador, e se juntavam de forma arbitrária e sem sentido. O filme não saiu do zero a zero, a não ser pela bela trilha sonora da banda Epadu.

Em “Dezembro” a fórmula se repete, com a diferença que agora são umas cinco histórias diferentes se atropelando em doze minutos. Algumas cenas apresentadas logo no início, umas sobre as outras, como a mulher grávida acariciando meigamente o barrigão, e o gângster falando agressivamente ao celular, sentado ao lado de uma piscina de uma pseudo-mansão, já mostram o que podemos esperar.

O filme é pessimamente sonorizado, e não se entende nada do que os atores falam; nenhum ator, aliás, se destaca; os cortes são abruptos; a história nunca fica inteligível, e tem mais um desfecho arbitrário unindo os diversos personagens, sem que se saiba direito por quê. Houve os aplausos protocolares, claro; parece que o filme foi parcialmente financiado pela Petrobrás; e mais não digo, pois o leitor já deve ter sentido o drama.

* * * * *

Após, foi apresentado um trailer de seis minutos do longa metragem Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, que contará a história da Guerrilha do Araguaia, tentativa do Partido Comunista do Brasil de, no auge da ditadura militar, montar uma célula guerrilheira no sul do Pará.

O filme foi integralmente rodado em cidades próximas a Belém, tem Norton Nascimento no papel principal e vários atores paraenses como coadjuvantes. O próprio diretor veio a Belém para apresentar o trailer, e informou que o filme já está pronto e deve estrear por volta de setembro em circuito nacional.

O trailer impressiona pelo tom épico imprimido às cenas. A geografia particular da região ribeirinha da Amazônia parece ser apresentada de uma forma criativa, e as atuações em geral são promissoras.

O que me deixou ligeiramente incomodado foi a possibilidade do filme apresentar uma visão redentora e ufanista do movimento guerrilheiro — um dos maiores equívocos da esquerda brasileira. Em uma cena vibrante, presente no trailer, uma personagem feminina faz, numa festinha na mata, um apaixonado discurso prevendo a vitória da revolução socialista no Brasil.

Tendo em vista o trágico resultado da guerrilha, só posso entender isso como uma ironia. Ou não? O diretor diz que tentou evitar “o risco de produzir uma ‘versão oficial’ da história, seja pela ótica do Partido Comunista do Brasil, seja pela das Forças Armadas”. Mas no site oficial o filme é apresentado como “um filme de amor ao Brasil”. A conferir.

Após o trailer houve ainda a projeção do longa Contra Todos, de Roberto Moreira. Porém, os atrasos superpostos e o adiantado da hora geraram uma debandada de boa parte do público. Como também tive que ir, fico devendo essa parte do relato (me falaram muito bem do filme, depois).

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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