O Iraque não precisa de liberdade

Maitê ProençaO título é uma provocação e não, a foto da Maitê aí ao lado não é uma imagem sem nexo; explico mais embaixo.

Tem sido muito criticada uma passagem do Farenheit 9/11, de Michael Moore, onde ele mostra uma vida calma, “comum”, no Iraque pré-invasão americana, e depois o inferno que o país se tornou. Sofista! Manipulador! “Até parece que o Iraque era um paraíso com Saddam”… isso tem sido dito sem muitas variações por todo lado.

Não há a menor dúvida de que Saddam Hussein era um ditador sanguinário, que exterminava oponentes e tinha ambições imperialistas regionais. Não há a menor dúvida de que ele já teve um arsenal de armas químicas e planos de montar uma bomba atômica.

Mas também se sabe que o arsenal não existe mais, ou melhor, já não existia antes da investida norte-americana sobre o país. Esse fato poderia ter sido verificado antes da guerra, se o governo Bush tivesse dado tempo à equipe de Hans Blix. E também se tem certeza absoluta (sempre se teve, na verdade) que Saddam não tem qualquer relação com a Al-Qaeda.

Como Bush e os republicanos não têm mais como sustentar que Saddam era uma ameaça real para os Estados Unidos, partiram para outro discurso: que estavam levando a liberdade a um povo espezinhado por um ditador.

À parte o fato óbvio de que outros povos árabes, também espezinhados por ditadores, não têm recebido esse fervor libertário dos Estados Unidos (pois os tiranos em questão são seus aliados), fica uma pergunta que não quer calar: o que é pior, a santa paz celestial das ditaduras ou o caos de uma guerra civil fraticida, resultado direto de uma invasão militar justificada pela tal liberdade?

“Esse cara está abusando do relativismo moral”, deve estar pensando você. Para me socorrer é que cito a atriz Maitê Proença. Sim, ela tem se mostrado uma excelente colunista na revista Época, e nesta semana publicou um ótimo artigo, que já começa direto ao ponto:

A humanidade ama a ordem. Os americanos acham que o amor é pela democracia, mas não é. O homem prefere uma ditadura organizada à democracia baderneira.

Eu me lembro de receber, em 1983, um panfleto entregue por um militante estudantil na porta da minha escola, onde estava escrito que o Brasil era uma ditadura militar, que esmagava as aspirações populares e coisa e tal. Eu tinha 14 anos e olhei para o rapaz como se ele fosse maluco. Afinal, que raio de regime ditatorial era esse, que estava fazendo tanto mal, se a minha vida, e a de todo mundo que eu conhecia, era absolutamente normal, sem sobressaltos, sem nenhuma interferência maligna desse governo tão criticado?

Obviamente eu não tinha qualquer consciência política. Eu não percebia a manipulação da televisão em favor do governo, por exemplo.

Mas o fato é que as atrocidades da ditadura não chegaram até a porta da minha casa. E havia uma situação econômica razoável: minha mãe teve seu primeiro emprego de professora (aos 17 anos) ganhando seis salários mínimos, que era o salário normal de um professor iniciante. Dá pra ficar dizendo que o governo estava prejudicando alguém? O fato é que a vida estava boa para a gente.

Penso nos iraquianos lavando seus carros com gasolina, de tão barata que ela é num país tão rico em petróleo. Penso em milhões de iraquianos indo à escola, trabalhando, indo ao mercado, fazendo suas orações. O governo não era do Taleban, não obrigava as pessoas a seguirem regras fundamentalistas absurdas. Alguns desses milhões provavelmente desejavam que houvesse liberdade, mas, será que se dissessem a estes que o preço seria não-sei-quantos-anos de guerra civil, após uma invasão estrangeira, eles iriam achar isso (liberdade) tão importante? Pois, para os Marcus e Marias lá do Iraque, a vida estava boa.

Sim, ela ficou pior depois das sanções oriundas da primeira Guerra do Golfo, e isso se deu quando Saddam adicionou uma boa porção de caos à situação do Oriente Médio, com a invasão do Kuwait. O caos atrapalha a vida das pessoas, impede-as de trabalhar direito, impede-as de levar sua vidinha.

E tem sido isso que a doutrina Bush tem levado a um monte de lugares do planeta: caos. Uma confusão, gerada pelo embate de fundamentalismos, onde estar do lado certo parece mais importante do que fazer a coisa certa. Pois a coisa certa, nesse caso, não é impor seus valores, mas diminuir as tensões que provocam guerras, que provocam o caos que ninguém gosta. Mas o governo Bush tem adicionado mais pressão a uma panela que já está em ponto máximo, tanto na Palestina como na Venezuela, no Haiti, no mundo árabe inteiro, etc, etc, etc…

Então eu explico o título provocativo: não, é óbvio que eu não acho a liberdade uma coisa de somenos importância. Eu sou um libertário radical, mas a questão é: como chegar a essa liberdade? Muita gente bem melhor que eu já disse isso, mas o fato é que a liberdade não nos é dada de mão beijada, ela é conquistada. Você, que talvez não estivesse satisfeito com a ditadura militar brasileira, gostaria de ter seu governo derrubado por uma potência estrangeira, com milhares de mortos no processo, para que se restabelecesse a democracia? Eu não gostaria.

O Iraque precisa de liberdade, sim, é óbvio. O homem precisa de liberdade, mas, sou eu que vou impor a ele? Sou eu quem vai libertá-lo? Não, é ele que vai se libertar, se assim o desejar. A construção da democracia é um processo complexo, algo que nós, brasileiros, já deveríamos saber de cor e salteado, pois estamos vivendo um processo de construção da democracia riquíssimo nos últimos vinte anos.

O irônico da situação é que, no principal país do Oriente Médio onde está se dando um processo semelhante, seu governo está sendo apontado por Bush e companhia como integrante de um “eixo do mal”. Sim, o Irã.

O Irã não tem ligações com a Al-Qaeda, não tem patrocinado investidas terroristas contra o ocidente, e tem vivido um processo fascinante de embate político entre conservadores e progressistas, dentro dos estritos parâmetros de uma sociedade profundamente islâmica. Depois de duas ditaduras (uma laica e outra religiosa), o Irã já é uma potência econômica regional e periga se tornar nos próximos anos uma grande democracia de massas. E o que Bush faz? Ameaças de levar para lá o caos que levou ao Iraque.

Para responder antecipadamente a qualquer acusação de relativismo moral, me socorro de novo em trechos do artigo de Maitê Proença, onde ela, ao mesmo tempo em que analisa serenamente a preferência da humanidade pela ordem, demonstra uma preocupação ética compartilhável por qualquer um:

A Alemanha de Hitler é dos exemplos mais funestos desta preferência pela ordem. Hoje não gostam de falar nisso, mas na época, enquanto os métodos do ditador ordenavam e revigoravam uma economia despedaçada, trazendo tranqüilidade para a maior parte da população, os alemães acolheram seu nazi-líder de braços abertos.

Quando um grupo terrorista ataca uma escola matando crianças indefesas, o mundo se enche de repulsa, porque fica difícil imaginar o que está por vir nesse cenário de horrores.

Quando aconteceu, sem nenhum aviso, o ataque à base americana de Pearl Harbour, onde civis escutavam rádio e faziam churrascos com suas famílias, aquilo foi uma perfídia japonesa, nos moldes do terrorismo, que o mundo não perdoou.

Acrescento eu: o mesmo pode ser dito do ataque de 11 de setembro. A França, hoje tão execrada, estampou em manchetes: “somos todos americanos”, oferecendo sua solidariedade à nação agredida covardemente; e não foi diferente entre as pessoas comuns de todo o mundo. Em menos de um ano e meio essa solidariedade já tinha se esvaído…

Nossa musa bi-semanal arremata, reclamando uma legitimidade ética com a qual o governo americano não parece preocupado hoje:

Uma nação como os EUA, quando mente, mata, humilha e desrespeita a ética internacional em favor de interesses particulares, dá margem para o crime organizado, no mundo todo, autorizar-se a subir degraus na escala de crueldades. Se a meca da moralidade age de maneira espúria, ao terrorismo, que precisa escandalizar para chamar a atenção, sobram as portas do inferno.

E quem achar que esse texto é anti-americano, que vá ver se eu estou na esquina.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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