Um país dividido

Uma amiga me pediu para fazer uma análise da vitória de Bush nas eleições americanas. Confesso que não tenho nada de novo a dizer, então publico trechos selecionados das melhores análises que li.

Não se contentem com eles, cliquem nos links e leiam os textos completos.

Rafael Galvão, em texto escrito antes da eleição:

“Até as eleições de 2000 havia apenas a rivalidade normal entre republicanos e democratas. Admitia-se a diferença ideológica porque ela não era mais importante que o business as usual. O que quer dizer que você podia ser democrata, mas se um republicano ganhasse, tudo bem, a vida é assim mesmo. (…) Mas nesses últimos dois anos Bush conseguiu o privilégio de deixar os Estados Unidos tão ou mais divididos quanto nos anos 60. Provavelmente mais, mais até que durante a época do New Deal. Em termos de divisão, só perde para os Estados Unidos que precederam a Guerra de Secessão. E a isso soma-se o ter justificado o anti-americanismo latente em todo o mundo, tornando a vida de seus cidadãos muito mais difícil”.

Nemo Nox explica algumas peculiaridades “semânticas”:

“O cenário político estadunidense é tão inclinado para a direita que até a nomenclatura engana. Os chamados ‘conservadores’ são na verdade reacionários, pois não pretendem conservar coisa alguma, pelo contrário, querem voltar a valores do passado. Já os chamados ‘liberais’ são na verdade conservadores, tentando manter, com algumas melhoras, o status quo. Grupos mais progressistas ou mais liberais nem entram na corrida eleitoral e são freqüentemente acusados de extremismo pelos extremistas do outro extremo”.

Nuno Guerreiro, cidadão português morando nos EUA, faz uma análise precisa da estratégia republicana:

“A estratégia da campanha de reeleição de George W. Bush foi traçada ao milímetro por Karl Rove (…), [que] acreditava que Bush só podia ganhar se a base ultraconservadora do partido – composta majoritariamente por cristãos evangélicos – fosse votar. E para isso era necessário motivá-los. Ainda antes da campanha começar, Bush faria isso mesmo ao propor uma emenda constitucional para proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sabendo de antemão que tal nunca passaria no Senado devido ao complexo processo de revisão constitucional. Mas não era uma emenda na Constituição que ele pretendia – Bush falava ao eleitorado ultraconservador. Mostrava-se como seu defensor. Como o defensor dos ‘valores morais tradicionais’.

(…) George W. Bush é uma figura polarizadora. Os ódios que gera à esquerda levaram um grande número de novos eleitores às urnas. Os democratas acreditavam que esta afluência recorde seria suficiente para o derrotar. Mas a estratégia de Rove, ao apelar aos medos mais recônditos da ‘América profunda’ (…), não só anulou a pretensa vantagem do Partido Democrata como a suplantou em estados chave, como a Florida e o Ohio. (…) Quando interrogados sobre a sua principal preocupação actual, a fatia maior do eleitorado respondeu serem os ‘valores morais’. Não o terrorismo, nem o Iraque, nem sequer a economia ou o desemprego. Os ‘valores morais’.”

Leila Couceiro, brasileira, também morando nos EUA, conta um episódio pessoal para falar de uma outra América:

“A América não é só os brancos obesos do Texas ou da Flórida, os racistas saudosos dos anos 50 ou ignorantes que só assistem à Fox News. Tem muita gente preocupada e sensível com o que acontece no mundo, gente querendo preservar o meio ambiente e preocupada em alimentar seus filhos com alimentos frescos e livres de agrotóxicos, gente que não discrimina quem usa tatuagem, piercing, ou casa com pessoas de diferentes raças ou do mesmo sexo. Essas pessoas, que não têm medo de mostrar o que são, de viver livremente, de lutar para melhorar a sociedade, são e sempre foram a vanguarda responsável pelas revoluções culturais que mudaram o país e todo o mundo ocidental para melhor”.

Ricky Goodwin, cidadão norte-americano, analisa o mapa eleitoral:

“A divisão entre estados democratas e republicanas (…) é exatamente a mesma da Guerra Civil Americana entre 1860 e 1865. Os estados da União (cuja cor era o azul) são estes pintados em azul no mapa eleitoral. Os Confederados e seus aliados são estes agora republicanos. A União de Lincoln (que era inclusive republicano) era estes estados no Norte e das costas Leste e Oeste. (…) São dois países profundamente cindidos e com enormes diferenças entre si. Deveriam ter se separado naquela época. Mantidos à força, conseguiram conviver em alguns momentos (principalmente durante as grandes e algumas pequenas guerras), mas podem estar se acentuando disparidades inconciliáveis”.

Alexandre Cruz Almeida faz previsões sombrias para os próximos quatro anos:

“Bush assumiu o primeiro mandato se dizendo ‘o presidente da integração’. Deu no que deu. Agora, tem otimistas dizendo que no segundo mandato ele vai ser mais contemporizador, que vai buscar mais apoio, que vai lavar as mãos antes das refeições, essas besteiras. Acordem, Pollyanas! Tradicionalmente, no primeiro mandato, os presidentes governam pensando na reeleição; no segundo, na História. Bush nunca mais vai ser Presidente. Não vai haver reeleição pra ele. Agora é a hora em que ele vai colocar em prática, de verdade, sem freios, seu projeto pessoal para os Estados Unidos e para o mundo”.

Por fim, Pedro Doria, que vê problemas para o presidente reeleito:

“Nos próximos quatro anos, George W. Bush terá pelo menos um problema grande: o Iraque. As coisas vão piorar – vêm piorando paulatinamente – e seu governo não tem qualquer credibilidade no Oriente Médio. A tendência vem sendo de incremento da resistência no país. Os EUA precisarão de mais soldados – mas o que ocorre é que os países aliados estão cada vez mais pressionados internamente para retirar as parcas tropas que têm. O resultado: já que o exército norte-americano está no limite, precisará instituir alguma forma de alistamento obrigatório.

Acontece que uma das principais promessas de Bush durante a corrida eleitoral é a de que não haverá alistamento obrigatório. Como resolver o imbróglio do Iraque sem mais soldados será um desafio talvez insolúvel. Perante um alistamento obrigatório, aí sim, o Iraque pode virar um Vietnã – periga 2008, ano da próxima eleição, virar uma reprise de 1968, com os jovens na rua protestando. Mas estas são conjecturas”.

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