Yasser Arafat (1929 – 2004)

A morte do líder palestino Yasser Arafat, ocorrida essa madrugada, provocou em mim sentimentos contraditórios.

De um lado, eu pensava no líder militar e político incansável, que resistiu ao poder bélico de Israel, uniu o povo palestino na luta por liberdade, promoveu a implantação de um Estado laico em pleno Oriente Médio fustigado pelo fundamentalismo islâmico, amealhou apoios no mundo inteiro para a causa palestina, e que em certo momento depôs as armas para discutir a paz.

Por outro lado, como bem explica o Nuno Guerreiro, ele era “um ditador corrupto que acumulou uma fortuna incomensurável; que pagava uma mesada de 150 mil euros mensais à sua mulher, em Paris, ao mesmo tempo que o seu povo continuava a viver na miséria, em Gaza e na Cisjordânia; que usava os fundos que desviou para comprar influências e manter o poder; que fingiu querer a paz para a rejeitar repetidamente cada vez que ela se aproximava”.

(Parêntese: o blog do Nuno, Rua da Judiaria, é um dos melhores do mundo em língua portuguesa, e não pode faltar nos favoritos de ninguém. O autor se filia à centro-esquerda democrática e pacifista, quebrando o estereótipo, muito popular aqui no Brasil, de que os judeus apóiam em massa as barbaridades praticadas por Ariel Sharon e companhia).

Para além das falhas de caráter de Arafat, o que me deixou profundamente incomodado há algum tempo foi um fato que não foi suficientemente destrinchado pela imprensa brasileira: de que, após os acordos preliminares de Oslo, negociados entre Arafat e Ytzhak Rabin em 1993, e de várias marchas e contra-marchas no processo de paz, houve uma possibilidade real de um acordo definitivo entre os dois povos, patrocinado por Bill Clinton no histórico encontro de Camp David, em 2000. E o principal culpado pelo acordo não sair foi, adivinhem quem.

Israel ofereceu a possibilidade de um Estado palestino, o controle de 95% da Cisjordânia e de toda a Faixa de Gaza, e algo que parecia impensável àquela altura: uma administração semi-autônoma, palestina, sobre parte de Jerusalém Oriental. Arafat bateu o pé numa exigência, até certo ponto justa, mas que nunca seria aceita: o direito de retorno dos refugiados palestinos, expulsos do território israelense pelo exército do país em 1948, na primeira guerra entre Israel e os países árabes.

Existe um princípio não-escrito de acordos pós-guerra, que diz que não é possível se exigir que o panorama político-militar e territorial volte a ser como antes dela eclodir. A expulsão dos palestinos há quase meio século é um fato consumado, e imaginar que Israel aceitaria o retorno de milhões deles, alterando brutalmente a configuração demográfica do país, é apostar, na prática, no fracasso das negociações. Foi exatamente nisso que Arafat e os radicais da Autoridade Palestina apostaram.

Com isso, Arafat se “queimou” feio como interlocutor, perante os moderados e progressistas de Israel. A leniência da Autoridade Palestina perante os grupos terroristas que explodiam bombas contra civis de Israel só fez piorar as coisas. A espiral de violência se tornou incontrolável, e agora vai ser preciso recomeçar o processo de paz literalmente do zero.

Algumas pessoas já o desqualificam de pronto por ter se envolvido em atividades terroristas durante várias décadas. Eu não acho isso tão terrível assim; se ele tivesse realmente parado com elas para fazer a paz, poderia tornar-se uma figura respeitável como o senador argelino Saadi Yacef, que também promoveu o terrorismo (contra os colonizadores franceses na Argélia), mas depois integrou-se à vida política, tornando-se hoje um defensor da frágil democracia argelina contra o assédio do fundamentalismo islâmico. Mas Arafat não; ele teve mão de ferro suficiente para impedir qualquer liderança alternativa a ele mesmo, mas não a teve para reprimir as células terroristas de sua própria organização, a Fatah, mesmo depois de, teoricamente, abrir mão do terrorismo e do desejo de destruir Israel.

Aparentemente, a possível ascensão de Ahmed Korei e Mahmoud Abbas (conhecido com Abu Mazen) à liderança palestina pode ajudar a destravar o processo de paz. Ambos são políticos moderados e podem negociar com mais pragmatismo perante Sharon, que, de uma forma ou de outra, tem se mostrado preocupado com a manutenção do impasse. O Nuno defende que Sharon deixe o governo, para se começar um diálogo em bases totalmente novas. Mas isso são apenas conjecturas. A situação continua tão difícil como sempre esteve.

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Sobre Marcus Pessoa

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