O Netscape morreu, viva o Netscape

R.I.P.(Senta que lá vem história).

Rewind

Eu não aprendi a digitar. Eu aprendi a datilografar, numa máquina de escrever Olivetti, pesadona, manual, quando tinha uns treze anos. As teclas não tinham as letras impressas, mas apenas cores que indicavam qual o dedo certo para pressioná-las. Fiquei tão bem acostumado com esse arranjo que até hoje sou bem rápido digitando, com todos os dedos e sem olhar para o teclado.

(Grandes coisas…) De qualquer forma, meu presente de aniversário mais bacana dessa época foi uma máquina Remington portátil, também manual, onde escrevinhei minhas primeiras bobagens adolescentes e comecei a pescar um dinheirinho pra ir ao cinema e comprar chocolates. O único “problema” era testemunhar a burrice abissal de alguns estudantes que me pagavam pra datilografar seus trabalhos.

No meu primeiro emprego de verdade, anos depois, eu usei pela primeira vez um computador: com MS-DOS instalado e um programinha maravilhoso, o Word para DOS 4.0. Mil teclas de atalho a decorar, e que prazer poder mexer, copiar e colar à vontade. Ver o trabalho saindo numa barulhenta impressora matricial era ótimo, imagine então quando formatei um livro inteiro para aquela estrondosa novidade, chamada impressora a laser. Eu sentia o objeto livro deixando de ser um tipo de monolito fabricado em lugares longínquos.

Máquina de escreverAlguns meses depois, num novo emprego, me deparei assustado com aquele mundo de ícones, barras e listas pulantes: o sensacional Windows 3.1. Que espanto! OK, eu não via muita serventia naquelas mil bobagenzinhas do Gerenciador de Programas, e ficava brincando horas e horas trocando o papel de parede ou os sons do sistema. Mas havia o WordPerfect 5.1 instalado, me mostrando na tela um retrato fiel do que eu veria no papel. A tela branquinha era um ambiente acolhedor.

É claro que eu não podia continuar um informata part-time. Eu comprei um computador 486 (o must da época) e coloquei em seguida um modem (que, por incrível que pareça, era um acessório raro nos micros caseiros). A marca era US Robotics e ele alcançava a estonteante velocidade de 14,4 kbps.

Netrópolis

Por volta de 93 ou 94 eu já tinha lido num caderno Mais da Folha de S. Paulo sobre aquela fascinante novidade: a internet. A matéria cunhava o termo “netrópolis” (que não pegou, é claro) para designar aquela comunidade de gente trocando idéias e fazendo seu trabalho através de uma enorme rede de computadores.

Naquela época a net não ia muito além da Usenet (os grupos de discussão) e dos repositórios de arquivos da comunidade acadêmica (Gopher, se não me engano; sou péssimo com termos técnicos). A web gráfica e colorida que vemos hoje não existia, ou era muito restrita, e o grande público nada sabia sobre isso. Mas o autor da matéria falou sobre gente em várias partes do mundo discutindo, por exemplo, a obra de Gilles Deleuze. Eu não tinha a menor idéia de quem fosse esse cara, só sabia que era alguém cabeçudo que inspirava discussões inflamadas e até “golpes de estado” virtuais, entre os que se digladiavam sobre sua obra.

Aquilo era demais pra mim. A compra do computador foi diretamente ligada à vontade de penetrar nesse mundo estranho do qual só ouvira falar. Mas o que havia na época, aqui no Brasil, era uma outra estrutura, bastante simpática: os BBS’s (bulletin boad systems), pequenas comunidades geralmente restritas à cidade onde se situavam. Os 14,4 kbps do modem eram mais do que suficientes para trocar mensagens com outros camaradinhas e baixar alguns programas com o inovador conceito de shareware (inovador pelo menos pra mim, um leigo total nesses assuntos).

O BBS que eu freqüentava, alguns meses depois, finalmente começou a explorar o acesso à internet, que engatinhava no país. Que eu me lembre, o único jornal online era uma edição bem pobrezinha do Jornal do Brasil. O técnico foi à minha casa instalar o Trumpet Winsock e aquele que se tornou a minha janela para o mundo virtual durante muito tempo: o Netscape Navigator (versão 1.2).

Eu sei que é idiota confessar isso, mas eu nunca, nunca esqueci o frêmito de excitação e prazer que senti quando pela primeira vez, conectado à net, eu vi o clássico ícone com a letra “N” mover-se, simulando uma chuva de meteoritos.

War!

O resto da história é bem conhecido. A Microsoft colocou os pés pelas mãos com a primeira versão do Windows 95, que praticamente ignorava a importância da nascente world wide web “de massas”. Eu comprei uma caixinha azul daquelas, achando que estaria totalmente preparado para navegar, e só depois fui saber que eu tinha que comprar um outro pacote (o Plus!, alguém lembra dele?) pra ganhar um navegador mixuruca que era apenas uma cópia do defasado Mosaic.

Ah, é? Então f***-se, fico com meu querido Netscape mesmo. Passei incólume pela “guerra dos browsers”, firme e forte com a janelinha da letra N balançante. Mas o fato é que o tio Bill aprendeu, lutou com todas as suas armas e ganhou a guerra. Quando saiu a versão 5.0 do Internet Explorer eu entreguei os pontos: era um ótimo programa, bem levinho, e realmente mais avançado que o Netscape Communicator 4.0 (apesar de este nunca ter deixado de ser mais elegante, mais fácil e mais prático de usar).

A Netscape Corporation estava morrendo por asfixia, mas antes de seu estertor ainda teve um belo canto de cisne: abriu o código-fonte de sua jóia da coroa, e chamou a comunidade do software livre para tentar fazer seu navegador voltar aos dias de glória. Um longo caminho, que começou lento e atrapalhado…

Um dinossauro na sala de jantar

O nome da criança que nasceu me pareceu muito tosco: Mozilla (isso lá é nome de programa?). Os primeiros releases pareciam mais destinados a tornar o sistema uma tartaruga do que propriamente navegar pela web. Triste fim de uma boa idéia, eu pensava.

Hoje sabemos que não era bem assim. Depois de muitos atrasos, o Mozilla se tornou um projeto viável, e hoje vemos um autêntico e honesto hype em torno do Firefox, a mais bem acabada cria dessa comunidade.

Por uma peculiaridade de nascimento, o projeto Mozilla ficou umbilicalmente ligado à falida Netscape (que depois foi comprada pela America Online). A licença de uso do programa (NPL) é diferente da licença de software livre padrão (a GPL; não me peça para explicar, ia dar muito trabalho). Com ela, a AOL continua tendo a liberdade de usar as criações da comunidade em programas de código fechado e com finalidades comerciais. Foi um preço a pagar para o projeto ir adiante. De qualquer forma, mesmo que a empresa rompesse o acordo (e ela tem o direito legal de fazê-lo), as criações do Mozilla ainda continuariam livres e abertas para quem quiser colaborar.

As primeiras versões do Netscape nesse esquema tinham muitas falhas e eram bem pesadas. Não me entusiasmei pelos Netscapes 6 e 7, e não só eu: pouquíssima gente os utiliza, e a maioria, imagino, está entre os clientes do provedor e portal homônimos.

Mas o lançamento do Firefox e sua rápida disseminação não podiam passar despercebidos. Há poucas semanas a AOL anunciou que criaria uma versão do velho navegador baseada no perfil esbelto, enxuto e amigável da raposa de fogo. O protótipo da referida versão já está disponível para um seleto grupo de testadores registrados na empresa.

O impossível aconteceu

Barra de tarefas do novo Netscape

É aí que a porca torce o rabo. O futuro Netscape 8 mantém muitas das características vencedoras do Firefox, mas tem pendurados em sua confusa interface um monte de badulaques comerciais voltados aos clientes da empresa. Previsão do tempo, notícias sobre finanças, um monte de canais pré-configurados, etc: coisas que talvez interessem a uma pequena minoria dos que querem apenas um bom navegador para ver sites.

O ótimo blog MozillaZine fez uma análise inicial da nova versão, e revelou em detalhes a principal novidade, que eu considero um crime contra a história da web: o programa agora permite substituir o “motor” Gecko, coração do projeto Mozilla, pelo Trident, motor do (respire fundo) Microsoft Internet Explorer.

O Gecko é o responsável pela “renderização” do Mozilla / Firefox, ou seja, a arrumação dos elementos da página web (texto, links, imagens, bordas, scripts, etc). É um software obediente aos padrões, aos códigos abertos com os quais a web nasceu. Como é multiplataforma, permite a visualização da página exatamente do mesmo jeito, tanto no Windows como no Linux ou no MacOS da Apple.

Já o Internet Explorer… bem, eu já disse em outro post por que a Microsoft é uma influência nefasta para a internet. O situação atual é simples: a AOL, dona do Netscape, está fazendo o pior inimigo de seu velho navegador se alojar em suas próprias entranhas.

Você consegue imaginar, por exemplo, a Alemanha derrotada em 1945 adotando a Marselhesa ou o Star Spangled Banner como hino nacional? É mais ou menos isso que está acontecendo. Numa analogia rápida, podemos comparar à estratégia absurda do Partido Democrata norte-americano, que após perder de lavada para Bush, analisa a idéia de se tornar ainda mais parecido com seu adversário (conforme bem analisou o Nemo Nox).

O que temos então é um Netscape onde bate um coração made by Microsoft. Embora não seja a configuração padrão, não é uma previsão irreal imaginar que muitos usuários acomodados prefiram ver os sites “bonitinhos”, tais como foram criados por webmasters preguiçosos que não conhecem outro navegador que não o Internet Explorer.

Uma das “novidades” do Netscape 8 é um recurso do IE: os “modos de segurança”, e adivinhem qual o único renderizador disponível para o modo “baixa segurança”? Ganha uma cópia pirata do MS-DOS quem acertar. Como fuzilou o autor do artigo do MozillaZine: “the idea of Security Modes is laughable: Netscape Browser should always be secure. The decision to offer Internet Explorer’s Trident as an alternative rendering engine, while pragmatic, is an insult to the heritage of Netscape and may set the cause of standart evangelisms back years”.

Conclusão óbvia: o Netscape morreu. Essa decisão absurda, a se confirmar, retira toda a mística do velho navegador, e enterra sua marca de vez. O Firefox e demais criações do projeto Mozilla surgem, olímpicos, como a única alternativa para quem não quer ver a web como propriedade de uma só empresa.

Outras opções

Sim, eu sei que existem ótimos navegadores além do IE e do Firefox. O Safari é também um programa moderno, cheio de recursos e obediente aos padrões web. Baseado no Konqueror (para Linux), tem apenas uma “falha”: é uma criação da Apple exclusiva para os usuários do Macintosh.

O Opera também se mostra um programa robusto e, como o Firefox, é multiplataforma. A sua “falha” é outra: não é gratuito, mas adware. Se você não quiser um banner permanente de propaganda enfeiando a interface, tem que pagar uma licença.

Já o Maxthon… são risíveis os seus defensores, se é que alguém se importa com eles. Ele adiciona uma série de valiosos recursos ao IE, mas continua umbilicalmente ligado ao navegador da Microsoft, com todas as suas falhas de segurança e interpretações tortas dos códigos da web. É apenas uma pele de anjinho que recobre o Leviatã. É risível ver que um monte de recursos necessários e até indispensáveis a uma boa navegação (bloqueio de scripts maliciosos, por exemplo) são oferecidos por uma empresa minúscula, enquanto as centenas de talentosos programadores da Microsoft não parecem ter sido utilizados para adicionar esses mesmos recursos ao navegador “oficial”.

Entendam: o Mozilla não é apenas um projeto de engenharia de software. É um projeto político, também. Os programas acima citados podem ser ótimos, mas se não houver uma adesão maciça a eles (e não há, e não haverá), fica intocado o poder da Microsoft de determinar de que forma nós vamos nos relacionar com a web. Uma das crias bastardas disso é o constrangedor recurso do Opera, que permite fazê-lo se “disfarçar” de IE, para entrar em sites onde o webmaster obriga que se use o programa da Microsoft.

É por isso que a comunidade Mozilla não se mexe apenas para criar bons programas, mas também para disseminá-los entre milhões de usuários. É isso que motiva, por exemplo, uma idéia meio tola, as MozParties, festinhas de geeks capazes de ir a um barzinho ou a uma boate apenas para comemorar o lançamento de um programa de computador!

É por isso que eu uso o Firefox. Eu quero ajudar a redescobrir a internet.

O Netscape morreu. Rei morto, rei posto. Nem uma lágrima será derramada pelo mais sensível dos geeks…

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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2 respostas para O Netscape morreu, viva o Netscape

  1. Luciano disse:

    Que maravilha de artigo, bem redigido, supimpa!! No meio de tanta bobagem na internet me senti num oasis lendo suas experiências. Parabéns! Desculpe o comentário um tanto quanto atrasado (só 4 aninhos).

  2. ATRAZADO MAIS EM TEMPO! disse:

    COMO O AUTOR DO ARTIGO EU TB INICIEI PELO NETSCAPE E SEMPRE SENTI FALTO DO NAVEGADOR QUANDO ME SENTI OBRIGADO A UTILIZAR O IE. NÃO GOSTO DE ME SENTIR MASSA DE MANOBRA DA MICROSOFT E VOU MUDAR MEU NAVEGADOR PARA O MOZILLA FIREFOX. VC ME CONVENCEU AMIGO.
    PAU NO BILL.

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