Discurso único

Jean, do BBBSim, o autor desse blog está acompanhando o Big Brother Brasil 5. E os fatos recentes são um bom tema para reflexão.

Ontem foi o “paredão” entre a adolescente Juliana e o professor universitário Jean, gay assumido. Enquanto a primeira foi indicada por uma desavença pessoal com a líder Natália, Jean o foi por uma expressiva votação (6 votos) comandada por uma conspiração armada pelo trio de “machões” da casa, Paulo André (P.A.), Alan e Rogério.

Quando revelados os indicados, Pedro Bial perguntou ao estupefato professor a que ele atribuía tantos votos numa primeira semana de programa, e ele respondeu que podia ser “talvez por eu ser gay” — o que foi não só uma revelação como uma acusação aos que o indicaram.

Foi a primeira vez em que um gay assumido participou de um paredão. Os homossexuais que participaram de edições anteriores (André Gabeh e Cristiano) nunca tocaram no assunto, e Cristiano chegou a negar que fosse gay. Jean, formado e com pós-graduação, é de longe o mais culto participante de qualquer das edições; conquistou a simpatia de muita gente dentro da casa e evitou brigas. Juliana, com seus piercings, tatuagens, cabelo pintado e jeito desbocado, também conquistou muita simpatia, mas desagradou uma parte dos espectadores ao aderir à conspiração do trio liderado por P.A.

Segundo Bial, Jean chegou a estar com 70% de votos contrários, mas se recuperou e ganhou por pequena margem (1%). Ele foi, com certeza, ajudado pela edição tendenciosa em seu favor, tanto do programa de segunda quanto do de terça feira. Os motivos da Globo ainda não ficaram claros: talvez Jean tenha mais condições de montar uma contra-estratégia (o que tornaria o jogo mais interessante para o público), ou então isso é resultado do enfoque da emissora em “ações afirmativas” para os homossexuais, como por exemplo no célebre casal lésbico da novela das 8.

O fato é que Jean ganhou, e o povão discutiu apaixonadamente a novidade. O que se nota, ao ouvir as conversas das pessoas no dia-a-dia e os fóruns da internet, não é apenas a previsível homofobia de uma parte do público, mas um discurso único, monolítico, dos que queriam que ele saísse do BBB.

Afinal, Jean é um candidato forte: esforçado, ajuda a todos, não se envolve em brigas, e tem uma conversa cativante, apesar de um certo ranço “politicamente correto”. Tem ascendência sobre várias garotas mas não armou estratégias pra votar em grupo. Como criticar alguém assim? Para uma parte do público, é simples: ele tentou se fazer de coitadinho, atribuindo aos votantes um preconceito que não existia, pois os conspiradores votaram nele por ser um candidato forte, e não por ser gay. Esse argumento foi repetido de forma insistente, quase como um mantra, por dezenas de pessoas em vários fóruns que visitei.

Eu e meus amigos da comunidade Olavo de Carvalho nos Odeia, do Orkut, já estamos mais do que acostumados a discursos falsários, martelados incessantemente pelo vetusto articulista do Globo e seus devotos. Governo Lula é comunista? Mas como, se vem aplicando a mesma receita do PSDB? Ah, mas “o Foro de São Paulo é uma organização comunista”… como se a participação do PT em uma mesa de debates sem nenhuma importância fosse definir as linhas do governo…

E não sai muito daí — se não é “Foro de São Paulo”, é “dinheiro público para o MST”, é “Conselho Federal de Jornalismo”, e por aí vai. Mentiras ou irrelevâncias repetidas ad infinitum, até que pareçam verdades, à maneira de Goebbels.

A mesma coisa se pode dizer do “caso Jean”. O argumento é mentiroso, por dois motivos: (a) Jean não insistiu na questão do preconceito. A frase citada mais acima foi uma reação emocional à enorme quantidade de votos que recebeu, e foi Bial, na verdade, que o pressionou para que ele dissesse a palavra “preconceito”. Quando foi pedir votos ao público, mais tarde, não tocou no assunto. (b) é verdade que P.A. e os demais não falaram nisso quando combinaram o voto, e disseram apenas que ele era “manipulador”, um “jogador forte”; pensavam que Jean também estava montando uma panelinha. Mas é evidente a homofobia pelo menos no núcleo masculino: a Globo mostrou cenas de preconceito velado, quando por exemplo Rogério fez uma chacota, chamando-o de “Jeanna Jones”, e depois P.A. recusou-se a vestir um chapéu, ao saber que era o que tinha sido usado por Jean.

Se tiverem paciência, dêem uma olhada na comunidade BBB do Orkut (que eu chamo de “o país dos sem noção”). O que mais se vê são pessoas dizendo “não gosto de gays, mas não é por isso que quero que o Jean saia”. Putz. Se os próprios homofóbicos não admitem que querem tirar Jean por sua orientação sexual, o que eles queriam? Que os conspiradores dissessem “é, foi por isso mesmo”? Ninguém quer assumir a pecha de preconceituoso, mas o preconceito existe, está fora de dúvida.

A saída então é repetir, repetir, repetir, o mesmo argumento, o mesmo discurso, dez, vinte, infinitas vezes. É uma estratégia familiar pra vocês, não? E muito adequada pra quem não consegue fazer muito esforço para pensar…

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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