O papa inquisidor

Bento XVI

Não sou católico, mas o fui até uma determinada fase da juventude, e continuo tendo uma ligação emocional com a Igreja. Moro na cidade sede da maior festa religiosa do mundo cristão (o Círio de Nazaré) e me enterneço com a fé do povo simples daqui.

Em momentos de sofrimento espiritual, entrar numa igreja e assistir a uma missa me deu um pouco de paz interior. Em uma dessas vezes, era uma “missa dos mortos”, e a lembrança da pessoa incrível que era meu pai me fez derramar algumas lágrimas que eu tentei esconder. Um rapaz que eu não conhecia chegou perto de mim e disse apenas: “Jesus te ama”, afastando-se em seguida.

Essa é uma coisa que eu gosto na Igreja Católica: a mensagem é compassiva, não impositiva. A missa é um tipo de longa canção entoada, um ritual de afirmação da fé sem os gritos e a ênfase caricata de outras religiões. Na homilia, não vejo padres falando de culpa, danação eterna, repreendendo os fiéis; os vejo se atendo ao principal da mensagem de Jesus — o amor.

Estaria mentindo o católico que dissesse que os lindos rituais e o simbolismo marcante da Igreja não têm influência em sua fé. Eles criam um ambiente aconchegante para o exercício da crença. Por outro lado, são rituais antigos, que talvez não tenham se adaptado ao pisca-pisca alucinado de referências da pós-modernidade. Em parte por isso, as igrejas evangélicas e os setores da renovação carismática têm feito sucesso entre os jovens — esses mesmos que não lêem livros, não passam dois minutos sem zapear na TV e escrevem axxim.

Exatamente pelo fato da Igreja Católica ter sido sempre ciosa do aspecto simbólico e “antiquado” de suas ações e rituais (o que justifica, em pleno século XXI, a notícia do novo papa ser dada por uma chaminé?), é que considero imperdoável a eleição de Joseph Ratzinger como novo papa.

Entendam, é muito fácil e banal dizer que Bento XVI é um “papa conservador”. João Paulo II também era, mas tinha nuances — todos temos. Ele reabilitou Galileu, desculpou-se por crimes da Igreja (massacre de índios, escravidão de negros, perseguição de judeus), rejeitou o criacionismo, e promoveu um diálogo inédito com as igrejas católicas ortodoxas, com o judaísmo e o islamismo. Eu não gostei nadinha da abulia em relação à epidemia de AIDS na África, mas admito que incentivar a camisinha significaria reescrever toda a doutrina da Igreja, o que não é tarefa para apenas um papa.

Com Bento XVI é diferente. Ele não é apenas conservador, mas o representante do lado mais intolerante da Igreja. Foi obra dele, mais do que de João Paulo, a perseguição sem tréguas à Teologia da Libertação, o que praticamente jogou fora o bebê junto com a água do banho. No afã de condenar o marxismo aplicado à religião, fortaleceu uma ultradireita raivosa que condena toda e qualquer ação da Igreja em favor dos mais pobres. Jesus disse que “nem de pão vive o homem”, o que não quer dizer que o homem não precise de pão — ele precisa, tanto quanto da palavra de Deus.

Não seria errado comparar as igrejas a “empresas” que “vendem” dois produtos: amor e culpa. Bento XVI é o mercador da culpa e da condenação, como qualquer pastor neopentecostal raivoso. Sua homilia na missa de início do conclave é sintomática: cita diversas vezes a “vingança de Deus”. Sai o Deus amoroso propagado por Jesus, volta o Deus vingativo e cruel do Antigo Testamento. Falar em uma “ditadura do relativismo”, condenar a dúvida humana que “não reconhece nada como definitivo” é um violento ataque ao espírito iluminista, como pouco tem se visto. Uma volta à Contra-Reforma.

O que dizer de alguém que chefiou durante anos a Inquisição? Sim, pois como explicou Leonardo Boff (seu ex-aluno) numa entrevista à revista Caros Amigos, não existem diferenças substanciais entre os processos instaurados pela atual Congregação para a Doutrina da Fé e a perseguição do Santo Ofício — a mesma presunção de culpa até prova em contrário, como disse o próprio Ratzinger: “o fato de convocarmos um teólogo aqui já é uma condenação implícita”.

É irônico que, depois do primeiro papa que conviveu diretamente com judeus na juventude (tendo perdido vários amigos com a invasão alemã na Polônia), seja escolhido alguém que desfilou, mesmo inocentemente, nas fileiras da juventude hitlerista. Esse simbolismo é forte demais para ignorar.

Um inquisidor não serve para ser papa. Alguém que passou as últimas décadas perseguindo “hereges” não tem uma visão pastoral, não tem palavras amorosas o suficiente para encantar os fiéis. A intolerência não funciona contra o secularismo: pelo contrário, o secularismo é uma reação a ela.

Longe de defender que a Igreja tenha um papel preponderante na vida humana, acho, ao contrário, muito bom que o “rebanho” esteja deixando de ser rebanho e pensando por conta própria. Mas me deixa triste que a influência mais útil que a Igreja pode ter no mundo moderno — a pregação do amor e da justiça — fique em segundo plano em nome de uma ortodoxia que pensa o mundo cristão como um clubinho fechado onde todos dizem “amém”. O mundo, queira a Igreja ou não, é muito mais do que isso.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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