Amizades virtuais e reais

Tenho uma grande amiga que mora em Barcelona. Chama-se Clara, é antropóloga e ficou alguns anos fazendo pesquisa aqui na Amazônia, antes de voltar pra sua cidade natal.

Quando viajei à Espanha, há algum tempo, fazia já quatro anos que não nos falávamos a não ser por cartas bem esporádicas. Ela veio me buscar no hotel e fomos pra uma daquelas lindas pracinhas medievais tomar umas “copas”. Em meia hora de papo, parecia que tínhamos nos visto na véspera, e não anos antes.

Nas amizades sólidas a afinidade resiste ao tempo. Por isso elas acontecem mais a partir da idade adulta, quando a personalidade está formada. Quantas vezes já não nos aconteceu de encontrar com amigos da adolescência e constatar que não existia mais afinidade, que todos estavam “mudados”?

Estou vivendo atualmente uma situação estranha. Faço parte há uns oito anos de um grupo de discussão de cinema, que começou ainda no tempo em que o uol.artes.cinema era acessível através de leitores de newsgroups (ou “grupos de notícias”, na péssima tradução do Outlook Express). Com um leitor de news é muito mais fácil acompanhar as discussões, e aqueles que realmente gostam de trocar idéias acabam participando mais. Forma-se uma panelinha.

Pois agora, depois de todos esses anos, estou deixando o grupo. O tempo que eu gastava nele não estava compensando, havia muitas discussões inúteis, o grupo não se renovou depois que deixou o UOL, etc.

O interessante é que nunca conheci pessoalmente nenhum dos integrantes. Mas posso considerar vários deles como amigos, pois há afinidade tanto de gostos quanto de opiniões. Já conversamos sobre problemas cotidianos, mágoas, dores de amor, sobre nossos empregos, sobre política, ética, etc. Oito anos é muita coisa, né? Mas não sei se a ponto de ser igualzinho a uma amizade “real”.

Não sou de trocar e-mails pessoais com meus amigos, a não ser que haja um motivo claro. Quase não uso MSN, ICQ, essas coisas, que me distraem do que estou fazendo. O newsgroup era o espaço por excelência pra essa prosa boa, mas existia gente lá que eu não gostava, e abobrinhas demais pra aturar.

Se fossem amigos em “carne e osso” eu ficaria tranqüilo, assim como sei que, quando voltar a Barcelona, minha amizade com Clara não terá se modificado. Mas eu fico pensando: será que apenas as mensagens trocadas geram calor, geram afeto suficiente que resista a um contato mais esporádico? Será que eles gostam o suficiente de blogs pra vir ler e comentar aqui? Tenho algo a dizer pra eles além do que conversávamos no grupo? Não sei.

Em minha panelinha atual (os blogueiros com quem troco idéias) já houve demonstrações de afeto e preocupação com o outro; já fiz vários amigos aqui. Mas é diferente, são vários os “centros”, ninguém precisa perder o contato com ninguém. A amizade não vai ser testada a esse nível.

Mas, e se um dia for? Os fios de cobre também transmitem calor humano, além de eletricidade? Não sei. Não sei se ligo o MSN e paro de pensar nessas coisas. Eu só não queria adicionar mais personagens à galeria de gente boa que conheci e que não sei mais onde estão.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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