Potência wannabe

A Leila citou as palavras de um desolado colega equatoriano a respeito da crise no Equador. E eu gostaria de chamar a atenção para um aspecto da decisão do Brasil em conceder asilo ao presidente deposto, Lucio Gutiérrez.

Apesar de correta do ponto de vista legal, a decisão enfureceu os manifestantes contrários ao ex-presidente, que cercaram a embaixada brasileira (onde ele e sua família estão abrigados) para exigir sua entrega às autoridades.

Não sou contrário a uma maior agressividade na política externa do governo. Acho a maioria das críticas a ela pueris, pois, apesar das limitações, tem dado resultados. Não tenho dúvidas de que a pressão do Brasil foi fundamental para Hugo Chávez aceitar o referendo sobre sua permanência no poder, e que uma recusa poderia levar a Venezuela a uma guerra civil.

Mas acho que há alguns exageros, e não entendi até hoje essa obsessão por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nunca me explicaram direito, afinal, por que o Brasil precisa desse posto.

O que eu lembro de ter lido (e infelizmente não recordo quem escreveu) foi uma reflexão até certo ponto ingênua, mas válida, tipo: “os membros permanentes do conselho são aqueles países que todo mundo odeia, que têm suas bandeiras queimadas em praças públicas, e que sofrem atentados terroristas. É isso que o Brasil quer para si?”

À luz do que acontece em Quito, é coisa pra se pensar. Os manifestantes que cercam a embaixada portam cartazes com dizeres como: “que vergonha Brasil, dar asilo a um criminoso”. As paredes do prédio foram pichadas e tomates podres jogados pra dentro. Apareceu até uma bandeira brasileira riscada com um X.

A decisão, repito, foi correta. Mas essa ânsia de protagonismo do atual governo, essas fumaças de potência wannabe, só tendem a aumentar as suspeitas dos vizinhos a respeito de um “imperialismo regional”.

Muitos haitianos estão impacientes com a situação de caos que se arrasta no país, e podem enxergar o Brasil como responsável por isso. A Colômbia desconfia das intenções de Lula. Um clima de antipatia geral pode se instalar, e então eu pergunto: é isso que o Brasil quer para si?

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Sobre Marcus Pessoa

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