O furacão e a insensatez

Minha desatenção para o noticiário é enorme, e se não houvesse dois blogueiros amigos meus que moram em New Orleans, talvez eu não desse atenção à tragédia do furacão Katrina. Mas os relatos do Alex, a situação aflitiva que ele viveu por ter deixado seu cachorrinho Oliver em casa, e o trabalho extraordinário do Idelber, cujo blog serviu como “centro de informações” do pessoal da Universidade de Tulane, mudaram totalmente a questão. Fiquei aflito acompanhando as notícias, e a angústia foi grande no dia em que soubemos do rompimento dos diques e da inundação de toda a cidade.

O debate sobre as responsabilidades pela tragédia espelha a profunda cisão partidária nos EUA. Eu tendo a desconfiar da idéia de que era tão fácil assim prever o rompimento dos diques — por mais que isso tenha sido alertado por uma agência há anos atrás. Não confio muito em responsabilizações “retroativas”. Mas parece evidente que, num país rico como aquele, os principais afetados pela tragédia foram os pobres, que não tiveram condições — financeiras, mesmo — de atender à ordem de evacuação. O Estado poderia ter atuado para tirá-los de lá, e não o fez. Isso é uma tragédia dentro da tragédia.

Mas existem outras tragédias pelo caminho. Uma delas é a tragédia moral de utilizar um acontecimento desses numa guerra suja ideológica, culpando as vítimas pelo seu infortúnio, como o fez o colunista Olavo de Carvalho em um texto inacreditável publicado no jornal Diário do Comércio.

Vão lá e leiam o artigo. Não existe uma linha que não seja constituída de mentiras, distorções vergonhosas e ódio. Eu poderia aqui refutar muitas coisas, como a história de apenas 25 países terem oferecido ajuda aos EUA (foram mais de 70) ou que o oferecimento de petróleo pela Venezuela foi um ato de zombaria (vários países ofereceram petróleo refinado, pois 20% da capacidade de refino dos EUA está comprometida). Mas quem acompanha o noticiário já sabe disso. Olavo sabe disso, e falseou de propósito.

O que me deixou mais indignado foi o tom nitidamente racista, anti-imigração e de ódio contra a população atingida. Depois de nos “informar”, a respeito do povo da Louisiana, que “milhões de desempregados obesos, brindados pela previdência social até com vouchers do MacDonald’s, passam as tardes em cadeiras de balanço, nas varandas de suas casas em ruínas, curtindo uma ociosidade deprimente e sem esperança”, ele conclui que a culpa por terem sido atingidos pela tragédia é deles mesmos, pois “a cinco milhas da zona que viria a ser atingida, há terra seca, moradias, aeroporto, serviços públicos. A população teve dois dias para salvar a vida. Bastava andar cinco milhas. Ninguém andou”. Evidentemente, essa terra da salvação a três horas de caminhada só existe nos sonhos do colunista.

Eu achava, sinceramente, que Olavo de Carvalho era apenas um maluco, alguém que tomou muitas drogas quando era astrólogo, nos anos 70, e nunca mais recuperou a sanidade. Mas ninguém comete maluquices em quantidade exponencial assim. Alguém maluco a esse ponto não conseguiria escrever duas frases coerentes. O que temos é um mentiroso profissional, alguém especializado em repetir falsidades até que pareçam incorporadas à realidade.

A Leila escreveu uma carta aberta ao Smart Shade of Blue parabenizando-o por desmascarar as besteiras ditas pelos blogueiros de direita aqui no Brasil. Ela diz não ter “estômago para fazer o blog watch dessa gente”. Não por acaso a mesma coisa acontece comigo. Pois eu percebo que muito do animus desse pessoal vem diretamente de suas leituras de Olavo de Carvalho — o mais mentiroso, torpe e desonesto colunista de jornal do país.

Bem, existem blogueiros de direita que eu leio e respeito, como o Paulo, o David e o Fileleno, do extinto Alexandrinas. Em relação à maioria dos demais: eu nunca faria o que o Smart e o Ismael fazem, ou seja, comentar as sandices deles. Mas, já que o Jorge Nobre (de quem eu nem sabia a existência até uma semana atrás) diz que eu me recuso a polemizar, eu explico o porquê.

a) não interessa a mim quantos livros tenham lido ou escrito, quantas línguas falem, quão bem escrevam: se tomam como referência um mentiroso nojento como Olavo, não têm qualquer autoridade moral. Sim, estou falando dos Wunderblogs também, entre outros. Eles podem tentar negar que se baseiam no onagro carioca, mas eu li as entrevistas de lançamento do livro-coletânea, viu? Daniel Pellizzari foi o único que negou categoricamente a filiação.

b) os blogueiros de direita são, na maioria, cristãos, mas demonstram atitudes muito pouco pias nos debates do dia-a-dia. Alexandre Soares Silva disse que o Katrina é uma “suburbanada”, e gostaria muito de ler o diário de alguém de New Orleans que nem tocasse na questão do furacão — alguém para quem o voar de uma borboleta fosse mais importante que a morte de milhares de pessoas. O mesmo Alexandre perguntou uma vez se não era cruel imaginar Jesus Cristo como alguém bom, mas totalmente enganado sobre o fato de ser filho de Deus. Para A.S.S., é mais importante ter piedade de alguém que nem sabemos se existiu de verdade do que de milhares de pessoas que existem.

c) a direita internética acha que “ninguém é de direita”, pois a verdadeira direita, o verdadeiro e bom liberalismo e/ou conservadorismo, só existe na cabeça dos iluminados que ainda não se sujaram na lama da política. Por outro lado, qualquer pessoa que defenda distribuição de renda ou um papel para o Estado na economia é considerado responsável pelos crimes de Stálin, pelos milhões de mortos do comunismo, etc — a ponto do já referido Jorge Nobre dizer que sente “prazer” com o “sofrimento físico e moral de um esquerdista” preso numa cela de um país comunista.

d) alguns direitistas demonstram um ódio imenso às pessoas de quem divergem — chegando às raias do irracional. Um deles, o qual não recordo, disse que teria coisas “úteis” a fazer com “um cano” quando encontrasse uma determinada moça adepta do MST. A proposta nada sutil de estupro foi considerada por ele, numa caixa de comentários do Smart, como apenas “uma piada”, e ele não entendeu por que isso poderia ofender as mulheres em geral… Comentários tipo “fulano merece um soco” ou “eu daria um tiro em beltrano” abundam nos blogs de direita.

e) os ataques pessoais por motivos fúteis são muito comuns. Houve um comentador numa caixa dos Wunderblogs que divergiu de alguma coisa que era dito lá, e o fato dele se chamar “Iraque de Tal” foi motivo de galhofa de toda a panelinha de lá. É isso mesmo — o nome que a mãe do rapaz deu pra ele foi argumento de discussão.

f) em termos de “debate político” a maioria da direita internética é uma negação, pelo simples fato de que eles n
o fazem debate político
. Como consideram que 99% da humanidade é constituída de néscios, e que qualquer pessoa que divirja deles é um idiota ou um mentiroso, sabem que suas idéias malucas a respeito de Estado mínimo nunca serão aplicadas, nem aqui nem em lugar nenhum. Então a melhor saída é fazer gozação de tudo, considerar o Brasil um país 100% ridículo, deplorar por não terem vivido em outra época, etc. Eu pergunto: qual é a utilidade de polemizar com essas caras? Nenhuma. Eles não têm absolutamente nada a dizer para ninguém, a não ser a eles mesmos.

Em resumo: eu não quero saber desses caras porque eles são uns insensatos a quem ninguém leva a sério. E não se amplifica a voz da insensatez.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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Uma resposta para O furacão e a insensatez

  1. Nildson de Avila disse:

    Concordo que debater com insensato é não chegar a lugar nenhum, mas discordo do preconceito de atribuir as técnicas reprováveis acima somente à Direita.

    Já sofri este tipo de técnica em debates com Esquerdistas..

    O que temos em comum nos dois tipo de “debatedores” radicais é a falta de disposição para uma conversa democrática e séria, e isto não é típico de somente uma ideologia não..

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