Debaixo da pele

Neil e BrianMeu amigo filme*log é um rato de sala de cinema, daqueles que entra em imersão na Mostra de São Paulo. Entre os filmes que destacou este ano, além do festejado Good Night and Good Luck, de George Clooney, está esse pequeno filme independente americano, Mysterious Skin.

O tema é indigesto: Neil e Brian são dois rapazes que mal se conhecem, mas têm suas vidas unidas por um episódio da infância, quando foram abusados pelo treinador do time de beisebol da escola. Enquanto Brian bloqueia sua lembrança do fato, Neil, que se descobre homossexual, cria em sua mente um quadro risonho das semanas em que “namorou” com seu abusador.

O filme é corajoso quando aborda a pedofilia numa pespectiva não-histérica. Ao invés de uma mera denúncia, vemos uma história complexa de como o abuso pode transformar a vida de alguém.

Não poderiam existir jovens mais diferentes do que estes: Brian é frágil, amamãezado, não bebe, não namora, e transforma seu trauma numa bizarra história de abdução por alienígenas. Neil cai na vida cedo, torna-se michê e deseja encontrar um homem que o “ame” tanto quanto o treinador. Em comum, a dificuldade de superar o episódio, e os destinos cruzados pela obsessão de Brian em encontrar Neil, que poderá ajudar a explicar seus pesadelos e desmaios.

É um filme muito tocante, com personagens excepcionalmente bem construídos, e não tem aqueles truquezinhos de roteiro, sabe? Aquela história toda amarradinha, onde cada frase proferida vai explicar algo mais tarde? Há apenas a vida seguindo, com a parcimônia natural do mundo real, onde as coisas se resolvem as poucos, e não ficamos ansiosos pelo desfecho — e não há reviravoltas, tragédias inverossímeis, nem falsa redenção.

De quantos filmes recentes isso pode ser dito? E que nos emocionem, também? Consigo lembrar, agora, apenas de Thirteen, que por coincidência também fala de sexo e adolescência nos EUA de hoje. O cinema está numa fase estranha — mesmo os filmes “alternativos” parecem às vezes apenas um jogo de adivinhação.

A destacar, também, o restante do elenco, uniformemente bom; a eloqüente variação cromática entre os dois pólos do filme; e a trilha sonora do cocteau twin Robin Guthrie, temperada com faixas de algumas de minhas bandas preferidas (Slowdive, os próprios Cocteau Twins, Sigur Rós).

Há que se avisar que não é um filme pra qualquer público. A atmosfera cândida das cenas de pedofilia pode chocar; há cenas de sexo (não explícito) bem pouco ortodoxas, e também uma seqüência muito crua de violência física e psicológica. O filme provavelmente será rotulado de “filme gay”, o que é uma pena, pois passa longe dos clichês.

Só houve lançamento em DVD nos Estados Unidos, mas quem tem conexão rápida e um cliente BitTorrent pode baixar o arquivo de ótima qualidade que está circulando na net, aqui ou aqui. Se você prefere eMule, o link é esse. Legendas aqui (em português lusitano).

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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