Trintão sem noção

A música tem saído direto pelas caixas de som, em 100% do tempo livre aqui em casa. Curar o tédio, mano, porque, se até conhecer uma nova cidade não me arrancou do marasmo, e ainda não chegou aquela última semana do ano onde as pessoas saem às ruas, eu tenho que ter certeza, que nem na música da Cássia, que ainda tenho um coração.

Como todo indie metido, estou fazendo minha lista de melhores discos do ano (tem post ainda esse mês). Não é arquivismo estéril não: apenas estou a fim de escutar o que está sendo feito agora, nesse exato momento.

O mundo não é um lugar acolhedor. Nossos heróis sempre morrem de overdorse. Os artistas que me ensinaram, nos anos 80, que a música é um lugar estranho e desafiador, estão quase todos inativos ou irrelevantes. Ouvir o que os mais novos estão fazendo, sorrir com aquela sacada genial, fruto de uma nova época, de menos preconceitos, mais fusões e menos certezas, é uma forma de saber que o mundo ainda está vivo, que nós ainda estamos vivos. O irônico é que os melhores de agora são os que revisitam a revolução chamada pós-punk e new wave, daquela década maldita.

Ponho os olhos na minha lista e percebo que quase toda ela é de bandas que eu não conhecia há um ano atrás. E assim foi ano passado. E no anterior. Se eu fosse em shows dessas bandas, encontraria jovens que poderiam ser meus filhos.

Síndrome de Peter Pan? Não, brother, embora pudesse ser! Existem coisas inevitáveis no mundo adulto: trabalhar como um mouro, ver o tempo livre escorrer pelos dedos, encontrar menos as pessoas que realmente importam, fazer escolhas por pura falta de grana. Já paguei minha cota, sacou? E não pretendo embarcar nessa onda sinistra que é um subproduto disso, viver na nostalgia de um tempo supostamente melhor, onde éramos mais jovens e mais inocentes. Comprar os discos novos de Cure, New Order e Depeche Mode, medíocres até dizer chega, é simbolicamente ficar preso a esse passado

Faço a barba e me olho no espelho. Sou um homem de trinta e seis anos, mas aparento (juram) uns dez a menos. Moro com minha mãe, que me ajudou a agüentar a barra do fim do meu casamento. Se meu filho não nasceu, eu ainda sou o filho. Danço sozinho no quarto as músicas novas da Madonna, e saio para as boates de rock sem hora pra voltar.

Meu primeiro terapeuta, um almofadinha de honorários caríssimos, disse que eu tinha que sair da fantasia de ser criança e virar adulto. É claro que eu o demiti na hora. Não que essa inconstância me faça feliz; é apenas o jeito que eu sou. Se eu deixar de ser assim, se eu deixar de sonhar quimeras acordado, se eu assumir uma postura desconfiada em relação às pessoas, se eu não ficar dizendo na lata e sem tato aquilo que estou pensando, então eu deixo de ser eu mesmo, e passo a ser outra pessoa.

Vixe, tô digressionando terrivelmente. Mas a questão é simples: eu me recuso a acreditar que já vi tudo, e que não vou me surpreender na próxima esquina. Eu não sei ser blasé. Eu sou o ator daquela peça que, no meio do espetáculo, esqueceu o texto, não tem onde se enterrar e precisa improvisar do jeito que der pra platéia ficar feliz.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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