Oscar

(tá, fico devendo para os próximos dias a ridícula retrospectiva musical de 2005, totalmente extemporânea; como eu tô ficando fanático em baixar filme no computador, vou fazer um “breve” comentário sobre alguns dos indicados ao Oscar)

TransamericaTransamerica

Dizem que Reese Whiterspoon vai tirar de Felicity Huffman o Oscar de melhor atriz, o que será uma grande injustiça. A estrela de Desperate Housewives está perfeita como o transexual Stanley / Sabrina, às vésperas de sua cirurgia. A gente olha e jura que é um homem, frágil e atrapalhado.

Mas não é apenas a parte “técnica” de sua interpretação que vale. O filme é uma coisa linda, um road movie mostrando a lenta aproximação desse homem / mulher com o filho que não conhecia (Kevin Zegers, também excelente). Há um equilíbrio admirável entre drama e comédia, e ficamos com a certeza de que as “novas” sexualidades são um manancial de histórias ainda não contadas, tão interessantes quanto as convencionais.

Brokeback Mountain

Falar demais sobre ele seria chover no molhado. Quero apenas acrescentar que li o conto de Annie Proulx que deu origem ao filme e fiquei surpreso com a extrema fidelidade ao relato original — algo pelo qual a autora agradeceu à produção, aliás. E é isso mesmo, não tem magiquinha de roteiro, é apenas uma história sofrida e torturada. Não é história de amor, é história dos obstáculos a um amor.

Brokeback MountainMas eu não canso de admirar a toupeirice de certas pessoas. Tá, não vou querer unanimidade sobre o filme, mas tem gente dizendo que “é um bom filme, mas não é tudo isso que estão dizendo”. Ah, vá catar coquinho! Levar em conta o que os outros estão dizendo na hora de julgar uma obra é o fim da picada.

Outros viram “frieza”, falta de emoção, de motivação nos personagens. Quá quá quá! Tem mais emoção represada em cada olhar de Ennis Del Mar do que nas obras completas da maioria dos autores desses filmes melosos. Em resumo, uma masterpiece, um filme histórico por ter feito gente comum pensar sobre quem sempre foi objeto de seu desprezo, e que deixa falando sozinhos os reaças-moderninhos capazes de dizer que “os gays já conseguiram o que querem”.

Boa Noite e Boa Sorte

Vocês lembram de Kingdom of Heaven, né? (que aqui ganhou o medonho nome de “Cruzada”) O filme é assim-assim, mas desde o início percebe-se que é um filme de época direcionado explicitamente para comentar o momento atual.

O filme novo de George Clooney é a mesma coisa, e quem disser isso como se tivesse descoberto a pólvora é um tolo — é algo óbvio. É preciso explicar as similaridades entre a época das perseguições do senador Joseph McCarthy com o ataque atual aos direitos civis, Patriotic Act e tal? Assim como naquela época, quem se coloca contra esse estado de coisas é tachado de subversivo, perigoso, etc. Tem gente chamando o Partido Democrata e a so called liberal media de esquerda!

Bem, só a voz de David Strathairn já valia um Oscar. Não sei se o discurso marcante de Edward Murrow ficaria tão bem sem essa voz profunda de locutor de rádio. O filme é lindamente fotografado, roupinhas e cenários impecáveis, jazz de primeira na trilha. Levaria fácil o Oscar de melhor filme, se não tivesse uns certos pastores de Wyoming no caminho…

Capote

Philip Seymour Hoffman vai ganhar o Oscar de melhor ator por esse filme, o que eu acho um exagero. Ele é um ator excepcional, mas nesse papel não mostra grande coisa a não ser uma dicção irritante de criancinha afeminada. O Truman Capote de Bennett Miller é uma esfinge, um personagem que não diz a que veio, e só sabemos dele quando este verbaliza o que sente.

O filme é extremamente convencional e meio chato. Tá, a história é cheia de lacunas porque o que interessa é a relação entre Capote e Perry Smith, um dos assassinos retratados em sua obra-prima A Sangue Frio. Aí vamos ver a relação entre os dois e… vemos mais um monte de lacunas. Qual o interesse do escritor? Apenas arrancar do assassino uma explicação vazia para o crime, terminar o livro e pronto? Capote diz em certo momento que a investigação mudou seu modo de pensar, e que seu livro vai mudar o modo de pensar da América. Não vemos nada disso na tela.

King Kong e AnnKing Kong

O épico de Peter Jackson chegou a ser cogitado para uma indicação aos Oscars principais (pelo menos a de diretor), mas ficou mesmo só nos prêmios técnicos. Uma pena, pois ele é apenas na superfície um “blockbuster de ação apoiado em efeitos especiais”.

Tem algumas cenas inverossímeis, e é esse o principal objeto das críticas. A fuga dos brontosauros! A luta com os tiranossauros! O ataque dos insetos! Ai meu saquinho. Essa parte é fraca mesmo, e daí? É apenas uma piscadela do ex-gorducho para as platéias adolescentes: “eu deixo a bunda de vocês colada três horas na cadeira, mas tem um tempinho procês se divertirem, tá”?

O filme é mais do que isso, claro. Jackson transformou uma historinha de filme B numa grande tragédia moderna. O que faltou completamente ao Senhor dos Anéis — ritmo, conseqüência, objetividade — sobrou em King Kong. Sim, um ritmo lento, como convém a uma ópera, pois é isso que o filme é. Não dá pra encadear o clima de uma tragédia correndo contra o relógio.

Nenhuma das versões anteriores captou de forma tão clara a nobreza e a solidão de Kong. Nunca houve uma Ann como essa, que realmente entende o que ele sente. Que se recusa a fazer parte de sua degradação. Quando Kong sobe no Empire State, está dizendo: “vejam como eu estou no topo do mundo. Estou no topo do seu mundo. Eu posso. Eu sou o maior”. Seria Kong a ponte entre o animal e o übermensch? Pelo menos ele subiu com bravura na corda estendida sobre o abismo.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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