A última sessão de cinema

Quando eu estava escrevendo esse post sobre o fim do Cinema Olímpia, bateu um aperto no coração. Lembrei do quanto o cinema é importante na minha vida, e de quanto ir ao cinema é ainda hoje pra mim um ritual.

Quando o outro cinema citado no post, o Palácio, foi vendido para a Igreja Universal, só ficamos sabendo disso quando ele já estava desativado. Com o Olímpia é diferente: ele tem data e hora marcada para fechar: amanhã, dia 16, às 8:40 da noite, com Syriana, filme que pode dar o Oscar de ator coadjuvante a George Clooney.

Naquela madrugada insone em que estava escrevendo o post, lembrei do clássico filme de Peter Bogdanovich, e também do glamour que cercava as premières do Olímpia nos tempos áureos. Tempos que não vivemos; mas é isso mesmo, existe entre os belemenses uma nostalgia arraigada de um tempo que não se viveu, e que está eternizado em livros de fotos sobre a época da borracha.

Não há, em termos práticos, a menor possibilidade de salvar o Olímpia, então por que não lhe dar, pelo menos, uma despedida digna de sua história? Comecei a ligar para os amigos e propor que fôssemos à última sessão como se fazia antigamente nas premières, com roupa de festa: traje passeio para os homens e vestidos longos para as mulheres. Perguntei se a idéia era muito maluca, e acharam que não.

Resultado: criamos uma comunidade no Orkut e o assunto está sendo publicado todos os dias na imprensa daqui. Nem todo mundo tem esse tipo de roupa, mas nesse caso vai valer o improviso: um xale, um chapéu, um blazer mais incrementado, qualquer coisa vai valer para a homenagem.

A minha idéia é fingir. Fingir que estamos num mundo onde o cinema ainda faz diferença na vida da pessoas, e não é apenas uma diversão ligeira num final de tarde no shopping. Fingir que ainda existe respeito à história das coisas e das pessoas. O fingimento é o que nos resta agora, e quem faz um filme finge que a realidade é mais colorida do que vemos com nossos olhos cansados.

Como dizia Fassbinder: o amor é mais frio que a morte, e o cinema é mais quente que a vida.

Cinema Olympia
(Caetano Veloso)

Interpretação: Elis Regina

Não quero mais essas tardes mornais, normais
Não quero mais videotape, mormaço, março, abril
Eu quero pulgas mil na geral, eu quero a geral
Eu quero ouvir gargalhada geral
Quero um lugar para mim, pra mim e pra você
Na matinê do cinema Olympia, do cinema Olympia

Tom Mix, Buck Jones, tela e palco
Sorvetes e vedetes, sustos e coladas
Espartilhos, pernas e gatilhos
Atilhos, gargalhada geral
Do meio-dia até o anoitecer
Na matinê do cinema Olympia, do cinema Olympia

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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