The end is the beginning is the end

A última sessão do Cinema Olímpia foi uma noite especial. O cinema lotou, como esperado, e uma parte pequena mas expressiva do público aderiu à idéia do traje de gala. Eu achei isso muito legal. Um amigo disse que no trabalho dele todo mundo estava comentando, “olha, tem que ir de terno”. Marketing viral é isso aí. Uma idéia que saiu dessa cabecinha solitária há menos de uma semana foi comentada por muita gente que eu nunca vi na vida.

Fico devendo as fotos, que publicarei hoje ou nos próximos dias. Eu estava tão atarefado que não articulei com meus amigos fotógrafos, que foram pra lá sem o equipamento. Mas muita gente conhecida fotografou, e estou entrando em contato pra pegar as imagens. De qualquer forma, a idéia dos trajes deu um colorido especial, tanto que as várias equipes de TV procuravam justamente os que estavam vestidos a caráter pra entrevistar. Eu dei tanta entrevista que fico feliz por terem acabado meus quinze segundos de fama: daqui a pouco eu ia ficar que nem aqueles políticos que quando alguém abre a geladeira, pensam que holofote de TV e começam a deitar falação…

O tom geral não era de despedida, mas de mobilização para evitar o fechamento definitivo do cinema. Qualquer coisa que fosse dita sobre o assunto seria aplaudida, e o fato é que a direção local da ABDeC — Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas — se excedeu na tentativa de liderar a mobilização.

Antes da sessão começar, um de seus representantes fez um longuíssimo discurso, que parecia horário eleitoral gratuito, apresentando uma “proposta concreta” que, de tão detalhada, dizia até em que horário deveriam ser as sessões do “novo” Olímpia. Parecia até que eles já tinham dinheiro, que a sobrevivência do cinema já estava assegurada, e que eles estavam numa reunião de trabalho. Em resumo: sacal. Pela proposta, parecia que o Olímpia seria a solução para todos os problemas culturais do Estado.

Aí tivemos o Syriana, que merece um post só para ele. Que belíssimo filme! Um filme político clássico, sem qualquer tipo de melodrama, e que dá uma visão abrangente da complexidade da situação no Oriente Médio. O final é impactante, e todos conhecemos aquela sensação prazerosa de ver passarem os créditos enquanto refletimos sobre o que acabamos de ver, né?

…mas nesse caso não tivemos esse prazer, pois o mesmo diretor mala da ABDeC surgiu de novo, pediu pra cortar o som e deu duas informações: (a) que o MinC já tinha se manifestado disposto a ajudar; (b) que o prefeito de Belém, Duciomar Costa, havia aparecido há pouco no hall de entrada e dado seu apoio à reabertura do Olímpia.

Primeiro: todo mundo sabe que o MinC não tem dinheiro pra nada, muito menos pra reconstruir um cinema particular quase centenário. Esse tipo de falsa esperança que a ABDeC deu aos espectadores parece demais com conversa politiqueira.

Segundo: é verdade que Duciomar se comprometeu a reabrir o cinema. Mas é algo pra se ouvir com a devida desconfiança, afinal Dudu (como é conhecido aqui em Belém) não liga a mínima para a cultura, e nunca foi visto em qualquer evento cultural na cidade. Sua realização nessa área é zero, e é claríssimo que sua ida ao cinema foi um gesto dos mais oportunistas, uma vez que sua gestão é catastrófica e a mobilização em torno do Olímpia lhe deu uma mídia a que ele não fazia jus.

Dudu tem se dedicado a destruir várias realizações da gestão petista que o antecedeu, entre elas o belíssimo projeto Sementes do Amanhã, que retirou as crianças que catavam lixo no Lixão do Aurá e deu-lhes escola e dignidade. Também foram para o vinagre a bolsa-escola municipal, a Escola Circo, o Banco do Povo e qualquer coisa que lembrasse o PT. Só o fim da bolsa-escola gerou uma economia de milhões por mês, e como a prefeitura não fez obra nenhuma em seu primeiro ano, dá pra imaginar pra onde está indo o dinheiro…

Eu acho meio absurdo que ONGs teoricamente progressistas estejam ajudando esse pulha a posar de mecenas das artes. Pode ser radicalismo de minha parte, mas se o Olímpia for reaberto com dinheiro da prefeitura, eu vou olhar pra ele e lembrar que isso é dinheiro roubado das crianças. Uma sala de cinema não é tão importante assim. Eu até prefiro que ela fique só na minha memória, pois senão ela volta para as minhas lembranças da pior forma possível.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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