Bambi

Estava semana passada no trabalho e minha mãe liga, pedindo que eu fosse comprar um presente pra minha prima caçula, que fazia sete anos naquele dia. Fui numa loja, o tempo era escasso, e pensei: “como é que vou escolher entre esse monte de brinquedos e livros infantis?” Por sorte lembrei que ela adora ver filmes em DVD, e tinha vários clássicos Disney à disposição.

Acabei levando Aristogatas, mas apenas porque estava caríssima a edição especial, em DVD duplo, de Bambi. Pensei nesse filme de novo, ao escrever sobre as emoções no escurinho do Olímpia e devido ao lançamento de Bambi 2 — continuação totalmente desnecessária e que não pretendo conferir. Li algumas críticas sobre a seqüência, e fiquei sabendo que muita gente concorda que o filme original é o melhor desenho animado de todos os tempos.

Eu não vi muitos filmes de Disney na infância, talvez porque não houvesse muitos relançamentos naquela época. Fui ver Bambi já adulto, nas tradicionais sessões matinais de um cinema aqui em Belém. Apesar da cópia em mau estado e da algazarra das crianças na platéia, fiquei muito tocado, principalmente pela maneira dura e sem artifícios que a vida dos personagens era mostrada: a mãe de Bambi tentando arrancar cascas de árvore para comer no inverno, por exemplo. Eu não tinha a menor idéia de que o filme fosse tão “adulto”.

Um pouco depois vem a cena mais chocante de toda a obra de Walt Disney: a morte da mãe de Bambi. Todas as crianças presentes na sala abrem um berreiro ensurdecedor. Eu não sabia se ria (pelo inusitado da cena) ou chorava junto com elas. A choradeira era geral, mas entre elas havia um menino de uns oito anos que berrava muito mais alto que os outros: “a mãe do Bambi, a mãe do Bambi!”

Aos poucos foram se acalmando, e o filme seguiu. Mas esse garotinho em especial não se conformou: continuou soluçando o filme inteiro, e de vez em quando gemia, choroso: “a mãe do Bambi, a mãe do Bambi…”

Pensando bem, talvez seja um pouco cruel dar uma cópia desse filme pra uma criança. Estamos ensinando as vicissitudes da vida pra quem talvez tenha o direito de conhecê-las apenas mais tarde. O conhecimento é o fogo que Prometeu deu aos homens, e a tristeza inerente à nossa espécie é a águia que nos rói o estômago todos os dias.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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