Superstars DJs, let it go!

O ótimo blog português Sound + Vision repercutiu uma matéria publicada no Village Voice, a respeito de personalidades da música que viraram DJs, entre eles, Jarvis Cocker (Pulp), Martin Gore (Depeche Mode) e Peter Hook (New Order). Segundo o texto, “os promotores de noites dançantes perceberam que as multidões não queriam mais doses intermináveis de batida instrumental, mas antes canções”.

Pra quem não sabe, Belém é uma das capitais mundiais do psy trance, uma variação do techno extremamente pesada e repetitiva. Os principais DJs de psy do mundo já vieram tocar aqui, e o público lota qualquer evento do tipo. Por outro lado, há uma queixa recorrente do público não-iniciado: de que gostam de sair pra dançar, gostam de música eletrônica, mas não conseguem dançar horas seguidas aquela batida repetitiva.

O texto prossegue: “a velha guarda DJ responde, apontando sobretudo as deficiências técnicas dos músicos/DJs que não sabem acertar batidas”, referindo-se àquelas técnicas de mixagem onde as músicas se encaixam umas nas outras, sem interrupção.

Isso me lembra de uma polêmica boba a respeito de discotacagem com discos de vinil, que saiu uma vez na revista Beatz. Top DJs tendem a se levar a sério demais, e nessa matéria diziam que não podiam ser respeitados os DJs que tocavam com CDs, porque “era muito fácil” e isso era “uma agressão à cultura do DJ”.

Realmente, é legal ver o cara fazendo piruetas com os vinis, como por exemplo o DJ Marky, exímio na técnica. Mas daí a enaltecer a técnica acima da sensibilidade vai uma grande distância. O que interessa, no fundo, é música boa rolando na caixa.

DJ Dolores, um dos melhores da cena brasileira, disse isso com todas as letras nesse texto lindo: qualquer um pode ser DJ.

“A arte de tocar um disco, seguido de outro, se possível mixando, para não perder a batida, aparentemente é bem simples. E, na verdade, é mesmo. Qualquer um pode levar suas faixas favoritas, seja num suporte de vinil, em CD ou mp3 e animar a multidão. Numa das melhores festas em que já fui nessa longa vida boêmia, os DJs usavam apenas fitas cassetes. Foi em Havana, Cuba, lugar carente de tecnologia e farto de criatividade”.

Eu sou um DJ amador que já deu em longínquas eras todos os seus vinis de presente para os amigos. Já vi DJs profissionais esvaziarem uma pista tocando a mesma batida repetitiva durante uma hora inteira. Já vi caras assim me perguntando que músicas eu estava tocando, sendo que eram de bandas incensadas no mundo indie. O problema é que eles sabem tudo do estilo que tocam, mas muito pouco do resto.

Não sei acertar batidas direito, mas procuro seguir à risca o mais importante, o princípio de que o DJ não é senhor da platéia, mas seu servo. Não vou tocar música que não gosto, mas não vou obrigar o público a escutar o que eu estou a fim naquele momento. A reação da pista é que determina se um estilo continua ou dá lugar a outro. Se a pista esvazia e o DJ continua colocando as mesmas músicas, é porque ele se acha mais importante que o público.

Eu ponho música pra ver todo mundo dançando. Ajudar a fazer as pessoas felizes me realiza, e a dança nos leva a conexões misteriosas. Engavetei o texto dos melhores discos de 2005, mas esse trecho, sobre o espetacular disco de Madonna, explica bem o que penso:

“O mundo segue sua rotina e popstars tornam-se mais relevantes nas revistas que em nossas vidas. A número um deles abre sua casa para os fotógrafos e os convence de que é só isso, uma mãe de família com um marido também famoso. Ao mesmo tempo, tranca-se em estúdio com o melhor DJ do mundo para ao final mostrar que seu negócio ainda é música. Volta às origens, ao propor que se coma esse biscoito fino no lugar certo. Música serve pra várias coisas, mas na pista sua função é mais nobre. Nós queremos nos perder, nos esquecer de nós mesmos e chegar a algum tipo de comunhão com a natureza, ou com Deus, o que for. Não precisa globo espelhado nem estrobo; bastam movimentos que nos retirem do normal. Isso não é tão diferente de um monge cantando mantras ao infinito, ou de um penitente surrando a si mesmo. Madonna, em sua melhor coleção de canções em muitos anos, confessa que viveu”.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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