Telê

Telê SantanaMesmo quando a gente se prepara para o que vai acontecer, não adianta, na hora H é como se tivesse sabido na mesma hora. Não pensei que a morte do Telê fosse me afetar tanto. Um feriado triste, sem dúvida.

Se eu pudesse resumir, diria que aquela seleção brasileira de 1982 foi a minha primeira experiência consciente com a beleza em estado puro. Eu tinha 13 anos. Não faltavam na estante romances e livros de pintura; escutava sempre os discos da mamãe; mas sentir prazer com essas coisas era algo natural, como andar. Eu nunca tinha pensado: “isso é belo, isso faz o mundo se tornar melhor”. A beleza imaterial dos passes de Sócrates, Zico e Falcão me fez pela primeira vez refletir sobre isso.

Telê Santana era um gigante como não existem mais no futebol. Olha o clichê aí, não resisto. Um ser humano completo, dentro e fora do campo.

Sobre a tristeza daquela derrota, falo dela nas citações abaixo, mas o que vai ficar é a lembrança de alguém que desafiou a decadência do futebol e a crença vulgar de que o que vale é o resultado, e não o deslumbramento. Porra, sem esse deslumbramento ninguém ia querer ver futebol! O ato de torcer por este ou aquele time é posterior a esse momento mágico.

Comentário meu no Leite de Pato:

Eu era bem novo nessa copa de 82, e foi a primeira que acompanhei inteirinha. Eu tinha a absoluta certeza que o Brasil ia ser campeão, e não consegui continuar a ver o jogo com a Itália depois do terceiro gol de Paolo Rossi. Parecia um pesadelo. Fui para o quarto angustiado, ouvindo a gritaria do pessoal e tentando rezar e pedir apenas que se fizesse justiça. No último minuto alguém jogou uma bola na trave da Itália, parece. Meu coração quase parou. Quando ouvi que não tinha sido gol, comecei a chorar. De verdade.

Perdi minha inocência nesse dia. A gente fica meio perdido quando, na única coisa importante no mundo em que nosso país é incontestavelmente o melhor, a sorte é tão traiçoeira, e os deuses tão caprichosos. Mas, enquanto você, eu e nós outros estivermos vivos, ninguém vai esquecer que aquele time foi um dos maiores times da história do futebol.

Comentário no Tordesilhas.net:

Em 1997 fiz uma viagem por Portugal e Espanha, e fiquei hospedado duas semanas em Barcelona, na casa de uma amiga. Fizemos juntos muitos passeios, e até fomos ao Camp Nou ver Barcelona x Atlético de Bilbao (2 x 0, com gol de Ronaldo e assistência de Giovanni). Um dia estávamos passeando de táxi e passamos em frente a um estádio pequeno, bem menor que o Camp Nou. Eu perguntei a ela que lugar era aquele, e ela respondeu: “é o estádio do Espanyol, o Sarriá“.

Eu não tinha me lembrado que estava na mesma cidade onde a tragédia aconteceu. Essa visão fortuita foi suficiente pra estragar aquele meu dia…

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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