Dormindo com o inimigo

Lula e Evo MoralesEstou acompanhando os desdobramentos da decisão boliviana de nacionalizar suas reservas de gás, e pretendia escrever algo quando o panorama estivesse mais claro. No entanto, a reunião de ontem entre os presidentes do Brasil, Argentina, Bolívia e Venezuela foi algo tão esdrúxulo que eu não podia ficar calado.

Deixa eu ver se entendi. A Bolívia deu uma punhalada nas costas da Petrobrás, que tem sido nos últimos 10 anos parceira do governo boliviano, e não uma mera multinacional sanguessuga com tantas outras. A Petrobrás, percebendo que pagar 82% (!) de impostos para ter o direito de explorar as reservas não se sustenta economicamente, anuncia o cancelamento de quaisquer novos investimentos. Aí o nosso presidente vem e desautoriza a empresa, dizendo que “vai continuar investindo na Bolívia dependendo do acordo que tiver”.

Lula se porta como um jogador de pôquer que mostre suas cartas antes de começarem as apostas. É claro que existe a possibilidade de um acordo menos anti-econômico para a Petrobrás e que permita algum tipo de continuidade da parceria. Mas também é evidente que ele só será firmado se as concessões se derem durante a negociação, e não antes dela começar. Ninguém senta numa mesa de negociação pra trocar afagos, e chutes na canela por baixo da mesa são quase inevitáveis. O Brasil está recebendo canelada atrás de canelada e o Nosso Guia finge que não vê.

Infelizmente Lula está dando razão a parte das críticas da oposição em relação à política externa. O apoio do Brasil à emergência de um autêntico líder popular e indígena na Bolívia não impediu que o país seja hoje tratado como uma potência imperialista — isso depois de perdoar parte da dívida boliviana.

Muita gente fala à boca pequena e ainda não saiu com todas as letras nos jornais, mas parece evidente que a nacionalização, tal como se deu, é menos o cumprimento de promessas de campanha e mais uma estratégia milimetricamente planejada não em La Paz, mas a partir de Caracas. Não gosto de parecer paranóico ou alimentar teorias da conspiração, mas aposto que o timing dos fatos foi discutido na reunião que tiveram Evo Morales, Hugo Chávez e Fidel Castro poucos dias antes daquele Primeiro de Maio.

Um passa-fora na Petrobrás depreciará seus ativos na Bolívia a tal ponto que será muito barato para a PDVSA, estatal venezuelana, assumir os negócios no futuro, quando o ato de nacionalização se revelar a furada que é. Ontem mesmo já foram publicados releases daquela estatal, dizendo que apoiará a verticalização da produção de hidrocarbonetos no país de Evo. Hugo Chávez está em guerra fria com Lula pela liderança continental, e tanto faz para ele apoiar um autêntico líder popular (Morales) ou um aventureiro proto-fascista (Olanta Humalla, no Peru) para ampliar o raio de ação de sua empulhação “bolivariana”.

Não acredito que o Itamaraty ainda não tenha feito essas análises e alertado o presidente. Se Lula ainda prossegue com os afagos de praxe naqueles que tramam contra os interesses do Brasil, ou está sendo muito burro, ou acha que essa imagem de líder progressista internacional vá lhe trazer algum dividendo eleitoral (o que é burrice também, aliás).

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Sobre Marcus Pessoa

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