Declaração de voto

(este artigo é dedicado à Mary)

[atualizado] Senti-me na obrigação de declarar meu voto para a reeleição de nosso eneadáctilo presidente. No momento em que a lambança de Berzoini e cia. abre nova temporada de martelagem da idéia mentirosa de que “este é o governo mais corrupto da história”, é preciso tomar partido. E não é, claro, pelo armagedon prometido pelo Mingau de Chuchu.

Lula não é nem de longe o presidente dos meus sonhos. Já demonstrou que não tem lá muito espírito republicano, e agora deu pra investir numa imagem de “pai dos pobres” que é uma caricatura de Getúlio. E ele não é Getúlio, que com todos os seus defeitos mudou a cara do país. Lula é uma decepção, afinal, como ele mesmo disse, “não tinha direito de errar”, e errou, muito.

Mas eu rejeito a lógica binária, o preto no branco. A decepção é grande porque esperávamos muito dele. No entanto, o governo é de razoável pra bom, dá pra passar de ano, embora talvez fique de recuperação (segundo turno). Preciso citar os dados? Crescimento de emprego e renda, principalmente dos mais pobres, diminuição drástica da miséria absoluta, inclusão de milhares de jovens de baixa renda no ensino superior, competente gestão macroeconômica (diminuição do crescimento da dívida, recorde na balança comercial), combate implacável à corrupção.

“Combate à corrupção, como assim?” Bem, já falei o que penso do mensalão neste artigo no Bombordo. É um escândalo localizado, cujo montante desviado é pequeno comparado aos demais, e que pela posição proeminente dos petistas envolvidos tomou uma dimensão que não tem, e não reflete a posição institucional do governo.

A corrupção existe em qualquer governo do mundo, e reconhecer isso não é capitular à sua existência. O Estado brasileiro é uma máquina imensa, tem muitos operadores de baixo escalão, e a corrupção é endêmica há muito tempo.

O principal é saber se o governo toma providências contra ela. E sobre isso, posso citar a carta branca que Paulo Lacerda ganhou para que a Polícia Federal investigasse todo e qualquer esquema de corrupção no governo, mesmo envolvendo aliados do presidente. O atual Procurador-Geral da República tem uma atuação independente, não é um engavetador-geral como Geraldo Brindeiro, indicado por Fernando Henrique. E posso também falar do ótimo trabalho de Waldir Pires na Controladoria Geral da União, que investiu na transparência dos gastos governamentais.

Então, antes de virem com patacoadas do estilo “os lulistas desculpam a corrupção”, leiam estes argumentos, tá? Eu sei que a novela dos escândalos na TV é palpitante, mas também é pulp fiction da pior qualidade. Não é por aí que vai se entender o Brasil.

O que eu vejo, agora, é que muitos amigos progressistas ou de esquerda, que iam votar nulo ou em Cristovam Buarque, estão reavaliando suas posições e devem votar no molusco mesmo. Eu também já flertei com ambos os votos, e sei que Cristovam é uma pessoa de bem, mas é muito fácil pra nós, intelectualóides em escritórios refrigerados, dizer “não vou me misturar com isso”, criticar Paulo Betti e cia., e na prática abdicar de ter voz ativa nos destinos do país. Sim, porque votar nulo ou em Cristovam é deixar de votar no menos pior e permitir que o muito pior vença.

Essa eleição tem um caráter plebiscitário e a direita já percebeu isso, seu discurso é “Alckmin ou o caos”. E o plebiscito nem é sobre o governo Lula, mas sobre concepções diferentes de governar.

Ignorem as teorias conspiratórias sobre Opus Dei e etc e se concentrem no principal, o que efetivamente Alckmin faria se fosse eleito. Os sinais são claros: desmonte do Estado (“forte ajuste fiscal”), criminalização dos movimentos sociais, fascismo penal (“leis mais duras”), subserviência aos interesses dos Estados Unidos (“acordos bilaterais”), e uma gestão macroeconômica entregue na mão dos tecnocratas que quebraram o Brasil no governo Fernando Henrique. Dêem como certas, reformas previdenciária e trabalhista duríssimas, menor combate à miséria, volta da penúria nos orçamentos nas universidades federais, etc. Alckmin é a direita da direita.

Por isso, achei que deveria me posicionar assim, publicamente, sob o risco de ser carimbado de “petista” (o que deixei de ser há mais de dez anos, quando me desfiliei). O mundo está em transformação, e o Muro de Berlim caiu sobre um monte de certezas que tínhamos. Mas eu não fiz como certos porra-loucas que passaram da ultra-esquerda para a ultra-direita, sem escalas. Eu ainda acho que o país tem jeito, e não é com o Plano Armagedon que lhe é apresentado pela oposição.

PS: sobre o fascismo penal, leiam este este artigo de André Kenji, sobre o tenebroso Secretário de Segurança Pública de São Paulo

PS 2: após o “debate” da Rede Globo, fico cada vez mais convencido de que votar em Cristovam Buarque é votar em Geraldo Alckmin, não há diferença alguma. O senador do PDT foi de uma sabujice incrível, praticamente fazendo jogo de equipe com o ex-governador tucano. Aparentemente, ele está cavando uma vaga de ministro numa possível equipe do Chuchu.

Não tenho como dizer o mesmo de Heloísa Helena, que, apesar de toda a deficiência de seu programa, mostrou-se igualmente crítica ao PT e ao PSDB. Só me resta respeitar a sua candidatura, apesar de, em outros momentos, ela ter dado a impressão de mimetizar o discurso pseudo-moralista da oposição de direita.

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Sobre Marcus Pessoa

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