Democracia racial? Fala sério.

A Pesquisa Mensal de Emprego sobre Cor ou Raça, divulgada hoje pelo IBGE, é um tapa na cara dos néscios que insistem em dizer que no Brasil não existe preconceito de cor.

O discurso é bem conhecido: “o problema dos negros é que são pobres e têm pouca escolaridade, e não o preconceito”. O diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, afirma peremptoriamente, no título de seu livro, que não somos racistas.

Matéria sobre o assunto levada ao ar hoje pelo Jornal Nacional (que é editado por um subordinado de Kamel, William Bonner) reverberou o discurso, dizendo que o problema dos negros é a falta de escolaridade e/ou qualificação. Um rapaz negro aparece na fila do sistema de empregos, lamentando-se de que tenta um emprego de serralheiro, mas não consegue porque não é qualificado. Em seguida, uma moça negra com nível superior é mostrada dirigindo equipes numa empresa privada, dizendo que nunca sofreu preconceito.

O problema é que isso é exatamente o contrário do que a pesquisa do IBGE mostra.

É verdade que os negros e pardos têm uma escolaridade mais baixa que os brancos. Estes têm em média 8,7 anos de estudos, enquanto entre negros e pardos a média é de 7,1 anos. A questão parece simples: aumente-se a escolaridade dos negros e resolveremos a problema, certo?

Errado. É claro que negros e pardos com escolaridade maior têm melhor renda que aqueles com poucos anos de estudo. Mas, em relação aos brancos, a diferença salarial aumenta à medida em que sobe o nível de escolaridade.

Os brancos ganham melhor que os negros em todas as faixas, mas entre os trabalhadores menos qualificados (menos de um ano de estudo) a diferença é relativamente pequena: brancos recebem em média 469 reais, negros e pardos 409 — apenas 12,7% a menos.

Já na faixa mais alta (11 anos ou mais de estudos), a média salarial dos negros é de 899 reais, e a dos brancos de 1.728 — diferença de assombrosos 47,94%.

Um negro que tenha uma escolaridade média (8 a 10 anos) ganha em torno de 556 reais, e se resolve fazer um curso superior, recebe um acréscimo de apenas 61% em sua renda. Um branco na mesma situação, partindo de um salário de 691 reais, tem um ganho de 149%.

Ou seja, os negros e pardos que chegam ao nível mais alto de qualificação têm ainda mais dificuldade de se afirmarem profissionalmente perante os brancos.

O IBGE declara que não tem como afirmar que essa diferença se deva ao racismo, mas dá pra fazer o tico e o teco conversarem e chegar a uma conclusão, não?

Lembro de ter lido há cerca de dois anos uma carta numa seção da revista Você S/A, voltada para executivos e aspirantes às carreiras corporativas, onde um empregado negro se queixava de que era muito difícil conseguir promoções e benefícios, mesmo quando demonstrava mais competência que seus colegas. O colunista, que com certeza conhece a fundo o mercado, não só não duvidou nadinha da história como disse que o racismo no mundo profissional é um problema de difícil solução. A Você S/A não passa nem perto de ser esquerdista ou coisa que o valha.

O que eu me pergunto é: até quando vamos cultivar essas histórias da carochinha, de que o problema dos negros é apenas serem pobres ou ignorantes? Até quando vamos alimentar esse mito da democracia racial?

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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Uma resposta para Democracia racial? Fala sério.

  1. Gerson Silva disse:

    Olá Marcus, Sou professor de história da Rede Pública do Estado do Pará. Já ouvimos falar que idéias têm força, e quando bem usadas elas têm o poder de revirar meio mundo. Marcus a sua última pergunta que concluiu o texto pode ter uma resposta exatamente nessa constatação. A idéia de democracia racila no Brasil, podria fazer parte do censo comum muitos anos antes de Gilberto Freire consolidá-la sistematicamente em sua obra “Casa Grande e Senzala”. O que o todo poderoso do Jornalismo da Rede Globo fez, foi tentar dar uma nova roupagem a essa idéia, coisa de intelectual que quer aparecer. É indubitável como vc comprovou no seu texto, que existe preconceito racial no Brasil e negar isso é burrice. Não culpemos Freire, ele inclusive deu um ponta pé inicial, em nosso país, nos estudos acadêmicos sobre escravidão que se desenvolveram e serviram para mostrar essa história de desigualdades, estudos dos quais surgiram linhas de pesquisas sobre escravidão e o próprio racismo. Preconceito de toda natureza existe em qualquer parte do mundo, então vejamos o sentido dessa palavra tão propalada por muita gente que as vezes é confundido com discriminação, (o ato de discriminar e consequência do preconceito). O conceito pré estabelecido de uma idéia, de um comportamento ou de uma prática sempre é errado. Errado porque as pessoas julgam e condenam antecipadamente aquilo que elas não conhecem, quando fazem isso é sempore baseado naquilo que elas ouviram dizer, e nunca procuram saber por que se pratica, se comporta ou se tem determinda idéia. Os erros consequentes desses julgamentos são os mais absurdos possíveis. Conceber uma pessoa superior por causa da cor da pele é uma idéia errada porque sabemos que não existem seres humanos inferiores ou superiores. A própria ciência comprovou que os diversos povos tem a contstituição genética idêntica, o que os coloca em igualdade de condições de desenvolvimento de capacidades físicas e intelectuais. Então se o preconceito têm uma causa de falta de conhecimento podemos dizer que vamos continuar ouvindo afirmações erradas como a de que não existe racismo no Brasil enquanto o ato de educar não for realmente valorizado nesse país, porque preconceito é consequência da ignorância. Últimamente, por força dos movimentos negros e apoio de outros movimentos sociais, tivemos a aprovação da lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história da África e cultura aficana em nosso país, perguntas como a tua podem remeter diretamente a essa história e discutí-la, o primeiro passo para se acabar com os preconceitos existentes sobre essa história ignorada.

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