As Filhas da Chiquita

As Filhas da Chiquita[atualizado] Meu irmão foi ver na edição paulista do festival Mix Brasil o documentário As Filhas da Chiquita, que fala sobre a tradicional Festa da Chiquita Bacana, citada no meu texto sobre o Círio de Nazaré.

A festa existe há mais de 20 anos e é um dos principais eventos do calendário profano do Círio. Como eu disse no texto, muito antes de existirem paradas gay, os homossexuais de Belém já tinham uma festa onde podiam se expressar. Mas ela não tem um caráter de gueto: é enorme, e vai todo tipo de gente.

Infelizmente o filme não tem mais exibições marcadas para São Paulo, mas vai passar no Rio (Centro Cultural Banco do Brasil, dias 21, 22 e 23 de novembro), em Niterói (Centro de Artes da UFF, dia 28) e em Brasília (CCBB, 1º de dezembro). O trailer pode ser visto aqui. Abaixo, a bonita resenha que o André me mandou.

Update: Priscilla Brasil, diretora do filme, nos honrou com sua presença na caixa de comentários, e informou que este ganhou dois prêmios no Mix Brasil: Melhor Filme pelo júri popular e Menção Honrosa pelo júri oficial.

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Foi interessante ter visto o filme na mesma sessão de A outra filha de Francisco, cultuada comédia thrash e paródia de “Os dois filhos de Francisco”. O curta-metragem, apesar de cult, tem uma realização totalmente amadora e um fiozinho de história, praticamente uma piada de duas linhas, o que nos dá uns 30 segundos de risadas e longos minutos de enfado.

Depois vem o documentário sobre a festa paraense, e logo na primeira cena se vê a diferença: é cinema de verdade, com uma autora (Priscilla Brasil) que domina claramente a linguagem audiovisual. O filme abre com belas cenas aéreas do Círio, e uma trilha épica, para mostrar que aquilo não é uma simples festa religiosa.

Logo no início, somos apresentados ao Elói Iglesias (1), que é fio condutor de toda a história, e a dois personagens que vão fazer diversos contrapontos em vários momentos: Emília, senhora idosa e muito religiosa que acompanha o Círio de seu apartamento em Nazaré, e Márcio, travesti, cabeleireiro, discreto, religioso. Nós os vemos falando o que significa para eles a devoção à Nossa Senhora de Nazaré, e também cenas de suas participações nas procissões.

Em vários momentos se vê uma preocupação didática, de explicar certos detalhes para que os não-paraenses entendam. Aparece até um mapinha da procissão, com a localização da Catedral, da Basílica e do Bar do Parque. O Elói explica diversos detalhes do Círio e da Festa da Chiquita, e acho que só ficou faltando didatismo quando ele critica a “santa cover”, sem explicar direito o que é isso (2).

Eu acho que o documentário consegue captar com grande clareza o caráter totalmente contraditório da Festa da Chiquita. Para uns, ela é praticamente uma continuação do Círio, um espaço que é também de religiosidade, mas de um jeito muito mais divertido. Para outros, é um tapa bem dado na cara da igreja onipresente. Essa atitude bipolar a gente vê até mesmo em diferentes momentos dos depoimentos dos mesmos personagens, em trechos da mesma festa.

A posição oficial da igreja aparece nas palavras de um tal Padre Francisco, e aí não há dúvida nenhuma: homossexualidade é pecado, a festa é uma falta de respeito com a Santa, e ela não tem nenhuma relação real com o Círio. Dona Emília também vai um pouco nessa linha, mas como ela é uma leiga e não uma militante da fé, há um certo espaço para a contradição. Num dado momento, ela se mostra triste por causa da violência que os travestis sofrem na Praça da República, nos dias normais. O travesti Márcio não deixa dúvidas sobre a sua profunda religiosidade, e sua crítica implícita ao escândalo, no que a diretora contrapõe com as palavras de dois travestis que estão se preparando para dar show na Chiquita: elas querem é chamar atenção, levar “boo” (na deliciosa gíria gay paraense).

Uma das melhores cenas se passa dentro da Delegacia de Polícia Administrativa, quando Elói Iglesias vai pedir a licença oficial para o funcionamento da festa. Naquele prédio antigo, estranhamente bonito e decrépito, Elói é tratado pela delegada responsável com um misto de camaradagem e censura, o que é reforçado pelas reflexões dele, nas quais a polícia “é como o pai da gente”, que “sabe tudo o que a gente é”. Essa é a parte “política” do filme, onde a narrativa detalha alguns entreveros da festa com a lei, e é nesse momento que é mostrado o discurso do prefeito Edmilson Rodrigues quando foi entregar o prêmio Veado de Ouro. O prêmio aliás, também é motivo de uma extensa e divertida descrição.

Da Festa da Chiquita mesmo, não aparecem tantas cenas. Alguns show de travestis, algumas cenas sensuais na platéia, beijos gays, gente embriagada, e só. Mais extenso é o panorama de algumas pessoas antes do Círio e da Chiquita, se preparando para elas. Travestis, gays comuns, e pessoas do povo também. Esse é o único ponto em que eu achei que a diretora perdeu um pouco o fio da meada. Ao dar um grande espaço para o discurso popular, ela ficou enredada nas incoerências e na falta de critério do que dizem essas pessoas comuns. É um verdadeiro samba do crioulo doido, um tanto tedioso (pelo menos para mim).

A palavra que resume o olhar da diretora sobre o Círio e a Chiquita é uma: contradição. Na verdade, eu não estaria exagerando se isso fosse a própria definição de “ser paraense”. Sim porque o filme é paraense até a medula. É mais uma prova que existe sim um “paraensismo”, um modo de ser paraense que é diferente de ser nortista, amazônida ou brasileiro. O sotaque característico, a pele morena, a religiosidade mariana, a confusão de idéias e conceitos, está tudo lá. Pra mim, é surpreendente que esse olhar tão revelador tenha vindo de alguém de fora.

O filme tem partes muito engraçadas, e não cansa nem um pouco. Ele vai rolando e a gente até se espanta quando vê os créditos finais. Nestes, é dito que o círio foi filmado em 4 anos, de 2002 a 2005, e não houve patrocínio. Sem dúvida, um filme feito com grande esforço e sacrifício.

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(1) Elói Iglesias é cantor de MPB, com alguns sucessos a nível local. É o principal organizador da festa.

(2) “Santa cover” é porque a verdadeira imagem de Nossa Senhora de Nazaré, aquela que foi achada no rio, não é a que sai para as procissões. Ela fica num altar com vidro à prova de balas na Basílica de Nazaré, e durante a festa apenas é tirada do altar — numa cerimônia chamada Descida da Glória — e colocada numa berlinda dentro da própria igreja. A imagem que sai nas procissões é uma cópia, chamada de “imagem peregrina”, e durante o resto do ano fica guardada na capela do Colégio Gentil Bittencourt.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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