Um gênio anônimo

O Sergio Leo ajudou a preencher uma parte do meu dia ontem, quando linkou esta linda matéria produzida pelo Washington Post e publicada pela revista Piauí com o nome “Pérolas aos poucos”. Não consegui tirá-la da cabeça depois.

Joshua BellProduzida é o termo correto, pois o jornal criou a notícia. Convidou o maior violinista da atualidade, Joshua Bell (foto), para empunhar seu violino Stradivarius de 1713 e tocar suas peças preferidas, icógnito, numa estação de metrô de Washington, a troco das moedas depositados pelos passantes.

A partir da reação do público, o autor faz interessantes reflexões sobre a “autenticação oficial” da grande arte junto ao público, a propensão das pessoas a novas experiências, o aprendizado da indiferença, etc. Leiam lá; são 8 páginas que valem a pena.

Uma catedral musical

A música que Bell escolheu para abrir e fechar sua performance, o quinto movimento (Ciacona, ou Chaconne) da Partita nº 2 em Ré Menor de J. S. Bach, é considerada uma das peças mais importantes da história, e a mais complexa e imponente partitura já escrita para um instrumento solo.

Você pode ouvi-la abaixo, na interpretação de Salvatore Accardo, gravada em 1976 (15:19 min).

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(clique no botão de play para ouvir)

Minha relação com a música erudita é a de mero curioso. Vou a concertos, mas não sei identificar a importância de uma música; só sei dizer se gosto ou não. E é inegável que esta peça de Bach é muito bonita. Muito pungente; um tanto triste, lamentosa, mas um lamento altivo e solene.

Contemplação

Se eu visse um violinista de rua tocando tão bem, provavelmente pararia para assistir. Por isso, me permiti discordar de nossa maior referência em música erudita na blogolândia, Milton Ribeiro. Ele acha que o número de aficcionados em música erudita é tão pequeno que Bell seria ignorado em qualquer lugar do mundo.

Eu penso que a matéria do Post diz mais sobre o ritmo trepidante da vida moderna do que sobre a cultura do povo e seus conhecimentos sobre grande arte. E acho que esta pode sim se comunicar com o público não-iniciado, se ele tiver a oportunidade de assumir uma postura contemplativa.

Quando digo que pararia para assistir, não estou falando de uma hipotético usuário do metrô de Washington, mas de mim, Marcus Pessoa, que moro numa cidade sem metrô e sem músicos de rua, e tenho o hábito de sempre andar devagar e contemplando as coisas, inclusive a arquitetura barroca de minha própria cidade, como se fosse turista.

Uma das entrevistadas pelo Post, a engraxate Edna Souza, disse que se Bell tocasse na rua, no Brasil, todo mundo pararia. Eu tenho certeza que se fosse em Belém parariam mesmo, ao menos pelo inusitado da coisa. Bem diferente é pensar num habitante da uma metrópole, passando por mais um entre tantos músicos de rua, na entrada de uma agitada estação de metrô.

Toda vez que vou a São Paulo me espanto com as pessoas andando sempre apressadas, sem olhar para os lados. Não dá pra explicar só pelas distâncias e jornadas de trabalho esdrúxulas; é um estado de espírito mesmo.

O repórter do Post nos confirma o que já sabemos desde Saint-Exupéry: as crianças são as únicas que olham para os lados, que se interessam pela paisagem e o que ela tem a oferecer.

Elas não precisam conhecer a grande arte para se maravilhar com ela. Se as grandes cidades fossem espaços menos inóspitos, os adultos talvez pudessem sair de vez em quando de sua matrix particular e ser tocados por esse mesmo maravilhamento.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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