Tropa de Elite

Charge de Carlos Latuff</p

O Wagner Moura disse em artigo no Globo que Tropa de Elite tem como mérito o de contribuir para o debate nacional sobre segurança pública.

Usou apenas 81 das 881 palavras do texto para responder “não” à pergunta feita pelo jornal: “Tropa de Elite é fascista?” Não apresentou qualquer argumento pra defender sua tese e passou os outros 90% do artigo mudando de assunto e expondo idéias opostas às do filme (legalização das drogas, por exemplo), fingindo que não o eram. A covardia é justificável; tentar fazer o leitor de trouxa, não.

Em português claro, “contribuiu para o debate nacional” significa “deu oportunidade para um monte de gente mesquinha, que cultua o ódio e apóia a tortura e execuções sumárias, pudesse dizer isso com todas as letras”.

Aos três minutos de filme, quando o capitão Nascimento diz que “sem o BOPE a criminalidade já teria tomado conta do Rio” veio o primeiro impulso de desligar a TV, mas eu tinha que resistir bravamente. Essa frase lógica e sensata, “não vi e não gostei”, não é uma opinião válida para alguns…

Não acreditem no que o Xexéo diz. O filme não se limita a apresentar uma situação; ele veste a camisa do BOPE, manipula o espectador durante 100% do tempo para dar razão ao ogro vivido pelo brilhante ator da Globo. A vibração do público com as torpezas do capitão não foi um acidente, mas algo cuidadosamente planejado.

A narração em primeira pessoa, claro, não significa que um autor se identifique com o personagem. John Fowles não compartilhava dos delírios psicopatas narrados por Frederick Clegg em “O Colecionador”, e por isso colocou muita coisa nas entrelinhas avisando ao leitor de que o narrador era um doido.

Já em Tropa de Elite não é feito qualquer reparo mais sério à pessoa do capitão Nascimento. O que vemos é alguém com alguns problemas, mas que no geral “faz o que tem que ser feito” — o que inclui execuções a sangue frio, tortura de crianças e de inocentes, etc. Tudo por motivos nobres, tudo justificado no contexto da história.

Quem são os únicos personagens no filme com um discurso minimamente articulado contra a violência policial? Os estudantes mais imbecis da história do cinema, que fumam maconha durante uma reunião de trabalho, dizem que os traficantes “têm consciência social” e compram a erva deles pra revender na faculdade…

Viu, seu idiota? Viu como esse pessoal dos “direitos dos manos” é tudo maconheiro sem vergonha? Não acredite neles, acredite no BOPE, porque o BOPE é que tem caras idealistas que arriscam a vida pra te proteger!

Tropa de Elite é um filme estereotipado, primário e maniqueísta. Tem até algumas boas cenas, mas o fio principal é puro discurso ideológico. O diretor João Padilha está mais preocupado em provar uma tese do que contar uma boa história.

O capitão Nascimento parece aqueles heróis do desenho Superamigos que ficam falando pelos cotovelos enquanto salvam o mundo. Não se contenta em ficar surrando o usuário de maconha; enquanto isso, aluga o torturado e o espectador com aquele discurso tolo e clichê de que “o usuário financia a violência”…

Por essas e outras, não consegui evitar um sorriso de satisfação quando a comissão do Ministério da Cultura resistiu ao cerco da opinião pública e escolheu para nos representar na disputa do Oscar o verdadeiro melhor filme brasileiro de 2007: “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”.

Na matéria do Globo que anunciou o fato, o comentário de um leitor resumiu o que eu pensava:

“Perdeu, plaboy”.

Poder de síntese é tudo.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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43 respostas para Tropa de Elite

  1. O blog está supimpa!
    Só falta a seção “Melhores posts”, o critério do autor é sempre algo a se considerar, um indício forte dos parâmetros que norteiam a produção dos textos.

    Ah, sobre o filme, puxa, preciso assisti-lo — pelo alvoroço que anda causando!

  2. Ollie McGee disse:

    O novo endereço ficou maravilhoso, Marcus.

    E o post também, gostei da maneira clara que você usou para expor suas impressões sobre o filme, embora eu sinceramente não possa dizer se concordo ou não com você, já que ainda não vi Tropa de Elite.

    Poderia ter assistido pirata, poderia ter baixado na internet, mas prefiro esperar para assistir no cinema. Acho que o impacto vai ser maior e, além do mais, quero ver a reação das pessoas ao filme.

  3. Meu deus, que lindeza o novo site, Marcus. Parabéns. Eu assino o seu feed, mas bom saber que voltarás a escrever mais frequentemente. Eu também quero fazer o mesmo! Desculpe não poder comentar o post em si; estou muito longe já faz tempo demais. Um abraco.

  4. Thiago disse:

    lindo, Marcus. lindo mesmo. parabéns pela nova casa.

    tomara que agora a poeira não acumule nos cantos feito nos últimos tempos de Blogger.

    =)

    abraço!

  5. Excelente crítica, Marcus! Muito bom. Já eu, “não vi, não gostei”, mas dessa vez até que vou abrir uma exceção e procurar uma cópia pra conferir.

    Boa sorte na casa nova.

  6. É bom eventualmente alguém procurar trazer de volta a razão. Infelizmente nossa sociedade ainda se alimenta do que a mídia produz, e isso fica claro logo na primeira cena da distribuição viral (não foi pirataria, está na cara que foi marketing) do filme, na qual o morro é retratado com cliches à base de funk e drogas. Estou escrevendo sobre isso e a situação em Burma.

  7. Lucia Malla disse:

    Marcus, parabéns pela mudança de casa. Está tudo bem bonito por aqui.

    Quanto à “Tropa de Elite”, eu gostei do filme, mas por uma razão diferente: é a primeira vez que ouvimos o discurso da polícia no cinema brasileiro contemporâneo. Expôr as razões ao público pela qual a polícia age da forma q age, com todas as falácias, lógicas e opiniões. Pra mim, isso foi válido, independente se está certo ou errado.

  8. Lucia Malla disse:

    Marcus, só uma pergunta de ordem analfabytica: a gente não precisa cadastrar seu novo feed, não? O feed vai continuar o mesmo?

  9. Marcus Pessoa disse:

    Obrigado a todos pelos comentários.

    Leonardo: a seção Melhores Posts vai voltar, é que eu queria inaugurar logo a casa nova.

    Lucia: é isso mesmo, não precisa mudar nada no feed.

  10. Edson Alves Jr. disse:

    Eu ainda não assisti ao filme. Não tenho como baixar agora, e tô com preguiça de comprar um DVD pirata aqui nos camelôs de Recife. Mas tô acompanhando o debate, e de acompanhar o debate acho que já posso dar uns pitacos.

    Primeiro, eu discordo da revolta que vc tem com o que seria a manipulação emocional do filme. Por um motivo simples: se um policial se acha no direito de torturar para conseguir algo, é por achar que aquela atitude é nobre, que o contexto em que ele está justifica o seu ato. Claro que a tortura é injustificável em qualquer situação, mas situações que façam um agente da lei achar que torturar e executar a sangue frio é algo que ele deve fazer para o “bem da sociedade” (por mais distorcida e escrota que possa ser essa visão de “bem”) são justamente as que mais comumente fazem um policial passar por cima dos direitos humanos mais básicos. Em suma: o contexto em que os policiais vivem é que os manipula emocionalmente para justificar a tortura. Reproduzir isso não é questão de ser fascista, mas sim de ser verossímil, pq a manipulação emocional não torna a aceitação da tortura perdoável. Nem por parte dos policiais, nem pelos espectadores do filme.

    No mais dá uma lida nessa entrevista do Padilha (concedida ao Ricardo Calil) para o Uol:

    UOL – O filme mostra o Bope como uma instituição incorruptível. A realidade é mesmo assim?

    J.P. – O filme se passa em 1997. Até lá nenhum policial do Bope havia sido expulso por corrupção. E o filme se passa naquela época porque foi o ano da Operação João Paulo II, em que eles tiveram que pacificar o morro do Turano apenas para que o papa dormisse uma noite na favela. Mataram de 30 a 35 pessoas nos seis meses antes da visita. Esse episódio foi escolhido justamente para mostrar o absurdo de combater o crime dessa forma. Como diz o (sociólogo) Luiz Eduardo Soares, os policiais e os bandidos têm alguns “valores” em comum, como a desvalorização da vida. Mais de 4 mil pessoas foram assassinadas no Rio no ano passado. É um número de guerra.

    Outro trecho:

    UOL – No filme, o capitão Nascimento defende a idéia de que o usuário de drogas é diretamente responsável pela criminalidade, pois financia o tráfico. Você concorda com essa visão?

    J.P. – Fiz o “Ônibus 174” para entender o ponto de vista do seqüestrador, e me acusaram de ser um radical de esquerda. Agora fiz o “Tropa de Elite” para entender o ponto de vista de um policial e me acusam de ser radical de direita. Mas em nenhum dos dois casos tentei justificar ou defender as atitudes desses protagonistas, apenas entendê-las. Meu ponto de vista não é igual ao ponto de vista do capitão Nascimento. Pessoalmente, sou a favor da descriminalização das drogas. Ela cortaria a oposição entre o usuário e o policial. Mas eu entendo a visão de um policial contra o usuário, porque ela se apóia em um fato: quem consome drogas está financiando o crime. [grifo meu] E um fato não é de direita ou de esquerda. Os policiais são mal remunerados, mal treinados e têm que trocar tiros com pessoas com mais armas. É compreensível ele ser contra alguém que reclama da segurança pública, mas financia o tráfico.”

    Conclusão: se o sujeito que pensa desse jeito e faz o filme que vc diz que ele fez, que pregaria “que o BOPE é que tem caras idealistas que arriscam a vida pra te proteger!”, trata-se de um dos casos mais fantásticos de inépcia ao tentar provar uma tese já visto na história das tentativas de manipulações ideológica em todos os meios – literário, audiovisual, o que for. Nem a tentativa de conseguir um público mais amplo explicaria tamanha distância entre intenção e ato.

    Por isso que, enquanto não tiver assistido ao filme, vou apostar que vc está completamente equivocado e confundiu a reação escrota da classe média carioca ao ver o filme com o conteúdo dele. Obviamente, vc pode estar certo, e aí eu venho aqui e dou o braço a torcer, sem problemas. Mas eu acho bem improvável.

    Por fim, a frase em negrito não está destacada por acaso. Eu concordo completamente com ela. É óbvio que a violência advinda do tráfico é culpa da probição imposta pelo Estado, e não dos usuários. Mas não dá pra negar que é o dinheiro de baseados e carreiras é que financia os AR-15 e HKs, e é por ser uma verdade tão óbvia que ela é tão manipulada ideologicamente. Não vai ser tentanto lutar contra esse fato que vamos conseguir mudar a visão conservadora sobre as drogas. Ao contrário: é a partir dele que se pode conseguir a descriminalização e a legalização.

  11. Marcus Pessoa disse:

    Mas é isso mesmo, Edson: o Padilha ou é um inepto, que não conseguiu passar para a sua obra o que alega que pensa, ou é um mentiroso — o que eu particularmente acho que é.

    As intenções do autor sobre sua obra não têm a menor importância e isso é reconhecido por qualquer teoria estética que se preze.

    Não há como perguntar pro Machado de Assis o que ele quis dizer com Memórias Póstumas de Brás Cubas; só temos a obra, e só nela é que podemos nos basear para julgá-la.

    Sobre esse discurso clichê de que “o usuário financia a violência” eu falo no próximo post, que já está quase pronto.

  12. Andréa N. disse:

    Caramba, excelente! Primeira crítica contra que leio e faz todo o sentido. Não vi o filme ainda (nem pirata, nem o original, que vai demorar a chegar nas minhas mãos, anyway) mas agora tenho uma idéia boa do que se trata. Tenho quase certeza de que vou compartilhar da mesma opinião.

    E PUTA MERDA, que foto linda essa nova do teu blog, Marcus!! Amei! Fiquei viajando naquele farol. Adoro fotos de farol. Vou te mandar uma das minhas favoritas.

    Beijo.

  13. Uma visão diferente da sua:
    http://manipulacao.blogspot.com/2007/10/tropa-de-elite.html

    Em tempo, consigo concordar com voces dois e ao mesmo tempo discordar de ambos, não me pergunte porque, senão eu levaria um texto looooongo para expor :)

  14. Marcus Pessoa disse:

    Tudo bem, não pergunto ;)

    Mas esse texto não tem a menor condição. Desculpa aí. É coisa de Brigada Estudantil Olavete.

  15. Cynthia disse:

    Ficou lindo o novo blog, parabéns!
    Quanto à sua opinião sobre o filme, concordo inteiramente com você. Ficção muito das malfeitas. Achei a parte sobre os estudantes horrível. Professor/a digno desse nome não termina aula com debate daquele jeito. E fiquei impressionada com o tamanho da biblioteca da ONG no morro, como que eles conseguiram aquele espaço imenso e aquele tanto de livros? Aliás, a parte da ONG, como um todo, é nojenta. Já trabalhei em região de extrema vulnerabilidade social, e é muito chato ver no filme o meu trabalho resumido a contato com traficante e com político. Pode até ter ONG nesse sistema, mas não é o caso da maioria.

  16. Edson Alves Jr. disse:

    Tô, com o DVD do filme aqui em casa agora. Comprado no camelô mesmo. :)

    Continuo o debate depois de assistir o filme, o que devo fazer nesse fim de semana. Pelo menos antes da entrevista do Padilha no Roda Viva dessa segunda (08/10).

    Só uma curiosidade: por coincidência, o autor do “texto da Brigada Estudantil Olavete” é um amigo meu. Paguei disciplinas junto com ele no curso de Jornalismo da UFPE, veja que ironia. Nunca cheguei a debater Foucault com o Jack Frost, mas lembro de uma discussão em que tentei convencê-lo de que anarco-capitalismo era uma bobagem enquanto jogávamos sinuca. :D

  17. Ismael disse:

    Marcus, você, como sempre, no ponto. Não sei se discordo de você, tal a tua capacidade de argumentar, mas esse assunto ainda dá muito pano para a manga, meu amigo.

  18. André Kenji disse:

    Não sei. Não vi o filme, mas ele parece depender de um tema com carga emocional e social forte para se manter.

  19. Marcus Pessoa disse:

    Na mosca, André.

    Obrigado, Ismael. Estou lhe devendo umas visitas, eu sei. Vou tentar ser um bom rapaz.

    Depois diga o que achou, Edson. A divergência, se existir, será bem vinda.

  20. catatau disse:

    Salve Marcus!

    De volta, pude ler o teu texto. Achei muito legal o cartum, toca bem em alguns significados do filme que não podem passar desapercebidos.

    Quanto à visão do filme, tive outra interpretação. De fato, pela reação do público, ficou perigosa a deixa do filme para interpretar o BOPE como “do bem”, e isso já é feito a dar com o pé desde que o filme é público. Mas não sei, interpretei que o filme suscita boas questões, para além do modo como foi produzido. Inclusive, diria que foge das dualidades mocinhos x bandidos. Pena que o público contraria essa minha opinião, rsss

    abração,

  21. Edson Alves Jr. disse:

    Sim, assisti o filme. E continuo divergindo. :)

    Não consigo ver desonestidade na forma como as ações do BOPE são mostradas no filme. Depois que os caveiras traem a confiança da ex-namorada do estudante e torturam a mulher do traficante, ou decidem que “é errado, mas é o jeito” esculachar os favelados para conseguir a vingança final, o espectador que continuar a torcer pelo BOPE o faz por sua própria conta e risco. O filme já deixou claro o que eles (os soldados, e por conseguinte, os espectadores que os aplaudem) são.

    E é interessante que vc fale em manipulação. Pq no final do filme, o capitão Nascimento assume que precisava “ganhar o coração do Matias”, que ele não precisava mais daquela vingança final, mas sim de um substituto. O substituto é a única condição para que ele possa finalmente a primeira opção das três alternativas que os policiais têm (“omissão, corrupção, ou a guerra”), pq continuar na guerra já é impossível para ele. Em outras palavras, o capitão Nascimento assume que é um manipulador no final do filme. Essa manipulação vale para todo o discurso dele, que no fundo é uma reprodução fiel e incrivelmente bem construída da rede de ressentimentos que pulsa no coração das instituições policiais brasileiras.

    Para mim, essa confissão final de manipulação, mesmo que sutil, demonstra que: (a) a visão do diretor não é a do Cpt. Nascimento. (b) que é por não conseguir “acabar com o crime” (a própria idéia de “acabar” com a criminalidade é de um messianismo sem noção, mas vamos deixar passar isso por enquanto) e sem ver solução para os seus problemas que os policiais direcionam todo o seu ódio e brutalidade para o que essa ideologia escrota os faz ver como inimigos: os traficantes, os playboys maconheiros e cheiradores, a classe-média-que-que-faz-passeata-pela-paz-quando-burguês-morre.

    O filme é uma verdadeira aula de como se forma um discurso ressentido, e isso não deve ser confundido com defender esse discurso. O último take, mostrando o soldado Matias se tornando um assassino ao dar um tiro na cara do espectador, manda um recado bem claro do que a ideologia do BOPE significa. Se o público não entende o recado, a culpa não é do diretor. Acho até que o Padilha deu colher de chá demais.

    O único ponto questionável do filme, para mim, é o núcleo de universitários-ongueiros-maconheiros. Todo mundo sabe que faculdade em geral tem muitos babacas, alguns ongueiros bem intencionados e claro, muitos maconheiros, além de um ou outro drug dealer (vc sabe, traficante é quem tá no morro, quem fornece o pó no asfalto tem que ter um nome mais chique). Mas colocar um grupo de personagens em que todos são maconheiros, ongueiros e babacas, por mais que signifique uma bela economia de enredo, é algo problemático num filme que desde o início tem a pretensão de representar a realidade.

    Mas mesmo esse trecho tem méritos, pois mostra que os ongueiros não são aliados dos traficantes por opção, mas pela imposição das armas. E que eles mesmo também se tornam vítimas se tentarem se contrapor o sistema, ou mesmo se apenas cometerem algum descuido. Pode-se questionar as escolhas do roteiro, mas definitivamente o filme NÃO é maniqueísta, muito menos primário.

    Teria mais coisa a falar, pq estive numa palestra em que o Rodrigo Pimentel, um dos roteiristas e ex-capitão do BOPE, contou diversas histórias da polícia carioca e do BOPE, além de falar do próprio filme, que na época nem estava em produção. Mas deixo pra quando abrir o meu próprio blog.

    Só uma síntese final: “Tropa de Elite”, no fim das contas, é a descrição dos usos e costumes da seita de devoção à morte que é esse batalhão – embora tenham faltado detalhes meigos, como o fato de cada soldado carregar uma caveira humana na mochila, pra servir de mascote, digamos. É sintomático que o Apocalypse Now brasileiro seja um projeto de documentário frustrado. O fato da platéia assistir o filme e torcer pelo Coronel Kurtz é que é ainda mais assustador.

  22. Marcus Pessoa disse:

    Os fatos mais graves citados por você, Edson, acontecem nos cinco minutos finais do filme, depois de uma hora e meia justificando o BOPE. O espectador já está tão rendido quanto o Matias. A idéia é essa, mostrar que esses erros são pequenos pecados dentro de uma trajetória correta.

    Não creio que cheguemos a um acordo :) mas agradeço a contribuição.

  23. Edson Alves Jr. disse:

    Bem, eu só destaquei esses fatos mais graves porque os julgo mais decisivos. Mas é mostrado que o BOPE tortura bem antes disso. No filme, a tortura não é um pequeno pecado, mas modus operandi, tanto que é repetida da mesma forma (saco na cabeça), três vezes pelo menos.

    E eu não acho que uma trajetória que ao final forma um assassino sanguinário que executa um cara já dominado possa ser considerada “correta”. Nem vc, claro. Mas isso é uma avaliação que o espectador tem que dar. Reclamar da manipulação emocional me parece condescendência com um espectador que certamente já é fascista antes de assistir ao filme. Só quem acha que não tem nada demais executar alguém que já está dominado (algo intrisecamente covarde) vai ficar do lado do BOPE. E esses, infelizmente, parecem ser maioria hoje.

    Acho que vamos seguir concordando em discordar. :) O que me lembrou isso:

    “You and I will be undefeated
    by agreeing to disagree
    No one wins but the thieves
    so why side with anything?”

    “Side with the Seeds”, do Wilco. Baixe a música, que é sensacional. Se é que vc já não conhece. ;)

  24. frost disse:

    Curioso eu fazer parte da Brigada Estudantil Olavete. Até outro dia eu estava falando para uns olavetes mongolóides que torturar é errado e tal.

  25. Flavio disse:

    Caro Marcus,

    Não vejo o capitão Nascimento como herói, muito pelo contrário. Ele, assim como os narcotraficantes, os toxicômanos, e os policiais (corruptos e honestos) estão todos no mesmo barco.

    Se as platéias vibram com as atrocidades cometidas pelos agentes da lei, é porque perderam todas as esperanças com o modus operandi padrão, cansaram de ver os criminosos e viciados como “vítimas do sistema” e vêem as ações do BOPE como a única solução eficaz.

    Não creio que seja este o caminho a ser seguido, mas é um termômetro para mostrar que a sociedade está cansada de ser vítima de toda a violência causada pelo tráfico e consumo de drogas no Brasil.

  26. Marcus Pessoa disse:

    “Modus operandi padrão”? Que modus operandi padrão? A polícia trata criminosos como “vítimas do sistema”?

    Em que planeta você vive, Flavio?

  27. Flavio disse:

    Por favor, Marcus…não me interprete mal. Eu disse que o cinema nacional, inclusive Ônibus 174, do mesmo José Padilha (a quem você chama de fanfarrão), mostra os criminosos como vítimas do sistema. Sempre foi assim, ou você pode lembrar filme nacional que não aborde o problema desta forma?

    O grande mérito de Tropa de Elite não é legitimar a tortura, mas sim mostrar que todos aqueles que estão de certa forma ligados ao narcotráfico contribuem com o atual estado de coisas que vivemos no País (corrupção, violência generalizada, etc) , e é exatamente isso que incomoda pessoas como você.

    Infelizmente, a grande parte do público vai, como você apontou, aplaudir a tortura, ver o Capitão Nascimento como herói, etc…quando na verdade ele não o é.

  28. Marcus, vocês estão dividindo o mundo entre socialistas e conservadores sempre, como se toda opinião contrária ao mainstream socialista fosse olavete.
    Tenho sérias divirgências contra essa bipolarização, é só ver todas as discussões sérias nesse país, sempre se formam dois grupinhos, de um lado Olavo-Reinaldo de um outro PHA-Dirceu (só para citar os blogueiros, se bem que olavo nem blogueiro é).
    Daí acabam ou comprando a briga pela direita ou pela esquerda, já sei sempre de antemão o que os blogueiros de esquerdam pensam e os que de direita pensam, nunca há uma “terceira via”… e sempre quando há, somos obrigados a enquadrar em um dos lados.
    Eu não acho o filme fascista, pelo contrário, o filme tenta se justificar o tempo todo, que é um saco isso, só bastaria apresentar os fatos.
    Aliás chamar algo autoritário de fascista é engraçado, porque não dizemos que ele é comunista também? :)

  29. Marcus Pessoa disse:

    Flavio: você está querendo dizer que o público brasileiro está revoltado porque o cinema nacional trata os criminosos como vítimas do sistema?

    O público brasileiro sequer viu Ônibus 174, meu caro.

    Christiano: eu nem falei em socialismo, nem sei por que você falou nisso.

    Não estou alimentando polarização nenhuma. Apenas notei que o blogueiro indicado por você é integrante da ala intelectual da blogolândia olavete.

    Hoje os olavetes usuários de simancol negam a filiação, porque o Olavo tá virando Napoleão de hospício, mas ela é perceptível.

  30. Flavio disse:

    Não (aliás, perguntei se você viu o filme e você não respondeu). O público se cansou de ver bandidos, traficantes, e toxicômanos como heróis, isso é fato.

    Mas o principal é que não suportam mais serem vítimas de toda a sorte de crimes causados por traficantes e “nóias” que desejam sustentar o seu vício a qualquer custo!

    O grau de descontentamento é tanto que apoiam as ações de um policial violento e desiquilibrado como o Capitão Nascimento.

  31. Marcus Pessoa disse:

    Você sequer conseguiu dizer quando é que o público vê os criminosos sendo tratados como heróis. Não é o cinema comercial que faz isso; não é a polícia; não é a imprensa; nem a TV.

    Isso é algo que está na cabeça dos reaças, mas não existe de fato.

  32. Flavio disse:

    Eu realmente preciso mesmo citar um filme em que os criminosos sejam vistos como anti-heróis e “vítimas do sistema”? Que pergunta fácil, Marcus.

    Nesses, e em quase 90% da produção cinematográfica nacional, os tóxicômanos eram os personagens “cool”, ou intelectuais, bons moços que curtem a vida sem fazer mal a ninguém.

    Isso não acontece em Tropa de Elite, e é exatamente isso que incomoda tanto os sócios/clientes do narcotráfico.

  33. Paula disse:

    Caro Marcus,

    Sou contra a tortura em qualquer circunstância e não acredito que o nascimento tenha se tornado o novo Macunaíma. Entretanto, sou obrigada a concordar com o Sr. Flavio, no sentido do filme despertar uma discussão, simplesmente, pelo fato do povo estar cansado de tanta violência e dos mocinhos/bandidos sendo retratados com vítimas da sociedade. Em diversos filmes como “Carandiru”, “Ônibus 174”, “Cidade de Deus” (em partes) e no próprio documentário que deu origem à “Tropa de Elite”, “Notícias de uma Guerra Particular”, de João Moreira Salles – que vendeu o documentário à ótica do traficante e se deixou corromper.
    O mundo não é tão maniqueísta como o Sr. está tentando demonstrar. Não se trata dos animais sem coração (policiais) x vítimas de um capitalismo selvagem sem oportunidades (bandidos).
    E, por último, faço-lhe uma pergunta: quem alimenta o tráfico de drogas, senão os bem lembrados toxicômanos da Zona Sul? Que acham divertido cheirar todas ou fumar um baseadinho para jogar ovos nas pessoas que passam nas ruas? E, me desculpe, essa não é uma discussão clichê.

  34. Marcus Pessoa disse:

    Paula: Carandiru não retrata ninguém como vítima da sociedade, apenas mostra histórias de vida de pessoas que cometeram crimes. Cidade de Deus muito menos: Zé Pequeno torna-se um bandido psicopata ainda criança, sem nenhum componente social envolvido nesse processo. Os documentários não contam, ninguém viu.

    Esse maniqueísmo que você diz que eu estou tentando mostrar não existe no meu texto. Eu nunca fiz essa oposição de que você me acusa. Você não gostou de Carandiru; parece que é você que queria um filme maniqueísta onde os criminosos são monstros desumanos.

    E o que eu tinha a dizer sobre esse discurso de que o usuário financia a violência está em meu outro post.

  35. Marcus,

    “Não estou alimentando polarização nenhuma. Apenas notei que o blogueiro indicado por você é integrante da ala intelectual da blogolândia olavete.”

    Estranho porque já acompanhei em batalhas homéricas ao lado do Jack contra olavetes enfurecidas, de onve voce tirou essa afirmação que ele faz parte de algo relacionado com o UPA?

    “Hoje os olavetes usuários de simancol negam a filiação, porque o Olavo tá virando Napoleão de hospício, mas ela é perceptível.”

    Olavo sempre foi louco, eu sempre entrava na comunidade dele para rir um pouco e extravazar o stress :) até que me expulsaram :( o orkut até perdeu a graça depois que me expulsaram por fazer parte da “Olavo nos odeia” ahahaehhaehaehhaehhae
    Existe um grupo da finada Liberalismo que não tem nada de Olavete, como podemos ser acusados de olavetes se defendemos a liberação das drogas, liberdade religiosa, estado laico, liberdade de conhecimento vs RIAA, e tantos etc que dão calafrios ao Upa? :)
    E o Jack sempre foi lado a lado comigo, nessa batalha, tempos bons quando humilhavamos o Cunde! Isso bem antes, depois do caso Raquel qualquer um passa o rodo no moleque :( nem tem mais graça!

  36. Marcus Pessoa disse:

    Ah, Christiano, estou há três anos participando da Odec nos Odeia e te digo, sem nenhum sectarismo: quase todos esses meninos liberais concordam com a maioria do que diz o Olavo. Nós os chamamos de olavetes baixos teores.

    Até o discurso anti-universidade é parecido. Eu não vou perder tempo respondendo a alguém que diz que “todos os debates universitários são estúpidos”.

  37. Leonardo disse:

    Eu achei o filme Tropa de Elite um excelente filme. Expõe bastante a realidade do nosso fraco sistema de segurança pública.

    Quem só conseguiu entender que o que o filme quer passar é que os policiais do BOPE são heróis, só tenho a lamentar.

    O que captei do filme é que todos nós fazemos parte de um sistema que contribui para o que vimos. Seja como traficante (que como diz o próprio Capitão Nascimento a respeito do Bahiano: talvez, ser chefe do tráfico tenha sido sua unica opção), seja como universitário maconheiro, seja como policial, ou um pai de familia que gosta de dar uma tapinha no fim de semana, todos fazemos parte desse sistema.

    Quem é usuário e não teve nem um pouco de peso na consciência na cena do filme em que o Nascimento enfia a cara do estudante no sangue do outro, é um hipócrita e tolo.

    Eu fiquei de consciencia pesada sim. Mas a culpa é minha (nossa)? A culpa são dos traficantes? A culpa são dos policiais despreparados e matam a próprio julgamento? Não! A culpa é desse governo que, enquanto a gerra está explodindo, seus integrantes estão em Brasilia estão promovendo festas, aumentando o próprio salário, aumentando impostos, e a gente só se f*de! Eles não estão nem um pouco preocupados com cada individuo que morre por causa do problema do tráfico. Tudo isso pra eles é só estatística. Pra mim, essa foi a maior mensagem do filme, implícita.

  38. marcelo disse:

    hiuhhdisanuishdsnduysgfasdklshiudyfdofdh

  39. Andrea disse:

    Gente, vi esse filme no cinema e assiste ao ex-capitão do BOPE Pimentel falar sobre as pessoas que acham que o filme é fascista o incita à violência: “essa é uma interpretação burguesa e pueril. No filme apenas retratei a realidade do RJ, o que acontece de verdade”>

  40. raul wolfgang disse:

    Parabéns Marcus… é isto mesmo…. vamos fumar maconha e continuar a dar grana para o tráfico. Katia Lund tem mais é que se fuder mesmo… maconheira filha da puta. E todos os playboyzinhos que bancam o tráfico tbm. O filme nao é uma primazia mas dá pra parar e pensar … se ninguem comprasse nao existiria tráfico

  41. Acho que para o desespero desses babacas pseudointelectualóides que escreveram seus comentários babacas de clásse média,ou os comunazinhos de buteco que falam”anyway”aqui,bando de fresco bunda branca paulista financiador de trafico,Tropa de Elite é um pesadelo,que ninguém quer enxergar,o filme não se trata de fascismo,pobre não sabe que porra é essa,facismo é doença de rico fresco,que só sente a dor quando perde um filho vitima desses vagabundos,ou vai lá no morro dar dinheiro pra essa corja,o pior é que esse filme parece uma propaganda do tipo”venha para o BOPE” é VIDEO INSTITUCIONAL da corporação,vai servir de aula pra novos caveiras.não é o Apocalypse now brasileiro é o”tropas estelares”brasileiro,acho a cena mais depre de todas não é a da tortura,mas quando eles estão trocando tiros entre entulhos,antes do”vc é moleque”eu achava que era treinamento,mas depois vi que não era, é uma cena tétrica numa selva de tijolos,como um sonho ruim,um retrato de todas as misérias,psicológicas,fisicas,morais em que todos os personagens estão jogados,em todas as favelas desse pais,se matando no fundo por motivos futeis na real enquanto os politicos e traficantes ricos estão jogando esse jogo da morte,seres humanos como peças descartáveis.Os maconheiros do filme parecem o elenco de malhação como eles queriam ser na real ,são os culpados por girar a máquina de tiros tanto de beira mar quanto a de nascimento,fiquei com pena foi da personagem da fernandinha machado,ela”pagou pra ver”e viu da pior maneira o que é se meter nesse fogo cruzado.É um filme que não há heróis,há seres humanos no meio de uma Guerra civil,horrenda e próxima de todos nós,que faria charles bronson ver vovó pela greta.

  42. Izabel disse:

    Esse filme é violência demais para meus ouvidos!

  43. Pingback: Dissidência » Blog Archive » A temática fácil

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