Che

O Jefferson convidou a mim e a outros blogueiros amigos para escrever sobre os 40 anos da morte do Che, comemorados hoje, injuriado que ficou com a matéria da Veja.

Não dei bola para a revista; já passou o tempo em que ela era relevante. Firmemente agarrada a um nicho reaça paranóico, fala agora apenas aos convertidos. Mas não pude deixar de notar, com certo interesse, o caráter inglório de uma batalha que não pode ser vencida. Veja tentando desconstruir o Che é como os soldados australianos correndo para a morte certa em Gallipoli.

Querem fazer o quê? Convencer de que o Che era um qualquer? Que bobagem. Qualquer pessoa que tenha contato com a história do Che, com as fotos dele, com os escritos que deixou, percebe de imediato que ele era extraodinário. Um soldado e um sonhador, um teórico e um poeta. Não tenha medo de usar clichês; eles podem ser simplesmente verdadeiros.

Você pode discordar das idéias dele. Eu também discordo de algumas. Mas negar o valor de quem tem valor é muito mesquinho.

O Che viveu e morreu coerente com o que pensava. Isso não pode ser dito da quase totalidade dos chamados grandes líderes. Não se corrompeu, não oprimiu, não se acomodou. “Não teve tempo pra isso”, dirá você. Que seja. Viveu muito, morreu cedo e deixou um belo cadáver — um pouco desgrenhado e sujo, talvez. Matou gente? Quando você me mostrar algum soldado que não matou ninguém, eu vou pensar na relevância desse argumento.

Talvez possa ser finalmente compreendido e estudado ao lado dos grandes revolucionários da América Latina, como Bolívar, Zapata, Sandino e Martí, quando aqueles que pensam com a cabeça na Guerra Fria já estiverem mortos.

Graças a Deus, eles morrerão um dia.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
Esse post foi publicado em Personalidades, Política. Bookmark o link permanente.

19 respostas para Che

  1. Andréa N. disse:

    Eu não sei, tenho “mixed feelings” (como dizem aqui) quanto a ele ser ou não um herói. Não entra muito na minha cabeça o fato de que ele era médico formado, e médicos fazem um juramento de salvar vidas. Jamais matar.

  2. Marcus Pessoa disse:

    Não acredito em heróis, Andréa. Não vejo o Che como um herói. O vejo como uma pessoa de grande talento, numa área (a política) onde só tem gente mesquinha e vulgar.

    Entendo os seus sentimentos em relação às mortes.

    Já fui mais pacifista do que sou hoje. Hoje penso que existe uma paz de verdade e outra semelhante à dos cemitérios.

  3. Adib disse:

    Bravíssimo, mestre.

  4. mary w disse:

    exato, marcus. a cabeça da guerra fria. é isso q eu tenho sentido na imprensa. nao sei de onde tem vindo essa polarizaçao. é totalmente anacronica. e parece estar com tudo.

  5. Diego disse:

    “Quando você me mostrar algum soldado que não matou ninguém, eu vou pensar na relevância desse argumento”

    Sensacional, hahaha!

  6. Marcus, você é uma pessoa muito inteligente para considerar Che Guevara de grande talento, sério, discordo de várias coisas que você acredita, isso é natural, mas não consigo acreditar que logo você admire esse idiota. Se você considerar matar um grande talento…
    Não existe soldado que não tenha matado, mas não levo soldado em consideração. Che foi um estrategista estúpido, sem ele Fidel e Cia. teriam sucesso da mesma forma, como ministro em Cuba ele foi um desastre.
    Existem muitos mártires. Che não foi mártire, foi um covarde e assassino. Assim como Pol Pot, matou prisioneiros e inocentes… pior! Em tempos de paz ou no mínino trégua.
    Não tem nada a ver se o “outro lado” fez, não relativizo a maldade. USRR e USA são dois lados da mesma moeda, ambos tiveram o mesmo peso na guerra fria, escolher um dos lados e tudo aquilo que foi fabricado por eles, como CHE pela USRR e Saddan pelos USA, é tecer elogios ao sinal contrário indiretamente.
    Se Che foi um herói você tem que considerar então que os agentes da C.I.A. também foram, afinal eles estavam lutando pela sua verdade. Considera?

  7. Ed disse:

    Nessa briguinha entre revistas de esquerda direita quem deve sofrer são as pessoinhas mal informadas, vide as capas da Veja e a da Caros Amigos deste mês.

    Bah.

  8. Alessandra disse:

    Até acho que o Che não era nenhum monstro e realmente queria fazer o que era certo. Mas… sei lá, não acho nada de genial nisso, e de boas intenções o inferno está cheinho. Eu sempre tenho medo de idealistas, as pessoas que não tem nenhum receio em quebrar quantos ovos forem necessários, para fazer uma omelete que frequentemente sai queimada e sem sal.

    Aliás, como todo jovem ídolo, Che só é considerado herói porque morreu. Se tivesse sobrevivido, seria hoje uma espécie de Fidel sem presidência de porra nenhuma.

  9. Alessandra disse:

    Ah, Ches à parte, obrigada por aparecer no meu não-blog. Volte sempre! Eu provavelmente voltarei aqui também. :-)

  10. André Kenji disse:

    Hmmm… Comparar Che com José Marti(De FATO conseguiu expulsar os espanhois de Cuba) ou com Bolívar(Que apesar de seus defeitos liderou parte da descolonização da América Hispânica) não me parece apropriado.

    E acho que a esquerda tem idolos melhores, não tem? Sei lá, tipo Eugene Debs, Benito Juárez ou Rosa Parks.

  11. Marcus Pessoa disse:

    Christiano: eu já respondi à Andréa que não considero o Che um herói, e que não acredito em heróis. Sinto que você está respondendo a algo que eu não disse.

    Sobre os talentos e a figura fora do comum de Ernesto Guevara, eu indico o texto, obviamente muito mais bem escrito que o meu, do Ricardo Piglia, traduzido pelo Idelber Avelar, aqui.

    Sobre a comparação com Pol Pot, recorro ao F. Arranhaponte, que não está nem próximo de ser um admirador do argentino:

    “não dá para comparar com Mao, Stálin ou Pol Pot. É forçar a barra. Não dá para comparar com Hitler. É ridículo”.

    Alessandra: eu também tenho um certo medo de idealistas que levam a sério demais o seu ideal. Mas não vejo que o Che tenha cometido atrocidades em favor do que acreditava. É possível que tivesse feito isso se vivesse mais. Nunca saberemos.

    André: meu propósito não foi o de analisar o mito que se criou em torno do Che, mas de pensar no homem por trás do mito. E acho que o internacionalismo, por exemplo, é uma característica presente tanto no Che quanto em Bolívar.

  12. parabéns pela nova casa. Quanto ao Che, não devemos dar tanta bola para o que o panfleto da Marginal publica. Faz tempos que deixaram de praticar jornalismo. No mínimo 10 anos. Alias, reli ontem uma materia da Dorrit Harazim sobre Che publicada justamente lá, em 1997, e é impressionante a diferença dequalidade, de honestidade. Será que tem a ver com a venda de parte das ações da Abril para o grupo Naspers, da ÁFrica do Sul – apoiador de primeira hora do apartheid? Sei não….

    Fiz uma singela homenagem ao Che lá no Escriba n odia do aniversario de sua morte – tá aqui: http://escriba.org/novo/?p=1250

    abs
    jorge

  13. Alexandre disse:

    A frase mais famosa e atribuída a Che “Há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura.” pode ser realmente de um homem que também diz “Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte.”?. A princípio é no mínimo contraditório e estranho que possam vir da mesma pessoa. Mas, basta conhecer um pouco a metodologia comunista e revolucionária para entender que é possível fuzilar o inimigo (qualquer um que discorde de seus métodos ou ideologia) com ternura.

    Marcus, você diz que o seu propósito não é o de analisar o mito, mas de pensar no homem por trás do mito. Pois bem, o homem que você admira é desprezível sobre vários aspectos, a matéria da veja apenas relata os fatos históricos e testemunhos dos que conviveram com ele.

    Se ele era extraordinário como você diz é apenas porque o mito diz que ele era um soldado e um sonhador, um teórico e um poeta. O mito é apenas uma mentira que a propaganda enganosa da esquerda revolucionária vende para pessoas ingênuas que compram a mentira e a espalham como verdade.

    Homens que matam e morrem em nome de vãs utopias não merecem ser lembrados com admiração, mas com absoluto desprezo. Esse é o seu verdadeiro valor. Che não deve ser compreendido e estudado ao lado apenas dos grandes revolucionários da América Latina,
    caso tenha alguma dúvida sobre suas reais intenções revolucionárias, analise os teóricos e práticos da cartilha comunista: Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro.

    O discurso do revolucionário comunista é muito “poético” na teoria, mas um desastre na prática. Minha sugestão é que façamos não um minuto de silêncio, mas 40 minutos de silêncio pelos milhões de mortos nas ditaduras comunistas.

  14. Marcus Pessoa disse:

    Eu nem li a matéria da Veja, mas sei que ela entrevistou apenas cidadãos cubanos residentes em Miami, inimigos do governo. É claro que não se pode confiar no que nela está escrito.

    Se você considera o Che desprezível com base numa matéria tendenciosa, você não tem um caso.

  15. Alexandre disse:

    Você fez uma análise e uma crítica a matéria de uma revista sem ler nada? É isso mesmo? Você fez comentários e chegou a conclusões em seu blog sobre o tema sem ter lido uma única palavra? Isso é no mínimo leviano, para não dizer outra coisa.

    Não morro de amores pela Veja, acredito mesmo que seu conteúdo editorial muitas vezes seja tendencioso, defendendo interesses parciais e contrários ao seu leitor, mas me mostre uma mídia totalmente imparcial, independente em relação ao mercado e que defenda apenas os interesses de seus leitores e talvez eu aceite seu argumento de recusar toda a sua linha editorial. De vez em quando eles acertam, como quando disseram que há 40 anos morria o homem e nascia a farsa do mito, pelo menos me dei ao trabalho de ler antes de comentá-la. A propósito, a matéria estava apenas de acordo com meus conhecimentos anteriores sobre o assunto em questão.

    Você defende tanto a liberdade de opinião e não aceita que refugiados cubanos nos EUA sejam testemunhas do regime castrista ou sobre Che? Isso é limitar sua opinião ao argumento do ditador que diz que todos são traidores e inimigos da revolução. Quando o governo americano resolveu barrar a vinda de “inimigos” de Cuba, já havia 110.000 cubanos exilados no país. Se não fosse a resolução americana de barrar os ingratos que não apreciavam o paraíso comunista, Fidel estaria sozinho em uma ilha deserta. Contra a lógica dos fatos, não existe argumentos. Um cidadão honesto não tem o direito de escolher onde quer viver sem ser taxado de inimigo, mentiroso e traidor?

    Contrariando as afirmações da matéria de Veja que você não leu, vamos imaginar que o medíocre e sanguinário guerrilheiro revolucionário comunista Che fosse um grande estrategista militar, um político altamente competente e capaz de persuadir os povos latino- americanos com sua falácia socialista, trazendo soluções para todos os problemas e mazelas sociais, levando consigo um rastro de democracia vermelha e liberdade comunista jamais vistos. Afinal de contas, idealistas revolucionários são capazes de tudo em seus delírios de grandeza, atribuindo a si mesmos poderes praticamente divinos ao propor sua mudança da realidade social. Temos agora o arquétipo do mito que você admira e homenageia.

    Não há nada de errado em querer sonhar com um mundo melhor, mas os fins não justificam os meios. Nenhum homem ou grupo tem o direito de transformar o presente num inferno em nome de um suposto futuro melhor. Um médico que salva vidas seria infinitamente melhor que um guerrilheiro sanguinário.

    Che não admitia divergências de opinião, ao não concordar com suas idéias, ou pelo menos, parte delas, você seria um sério candidato ao paredão de fuzilamento, condenado como traidor da causa revolucionária. Estados comunistas não sobrevivem com liberdade de expressão, ninguém aceita passivamente ditadores bonzinhos.

    Marcus, após acompanhar o seu debate com o Flavio sobre a liberação das drogas, começo a acreditar que você é uma daquelas pessoas que preferem antes acreditar em uma mentira que combine com seus esquemas habituais de raciocínio do que numa verdade que contrarie esse esquema. Acreditar em mentiras é algo inerente ao ser humano, o que não quer dizer que pessoas como você queiram a mentira, mas que antes de desejar a verdade você prefere a segurança e a comodidade do apoio de seus iguais para não contrariar todos os seus colegas.

    Ninguém é obrigado a ter opinião sobre tudo, essa mania doentia de falar sobre qualquer coisa precisa acabar, começar a dizer “não sei” ou não falar sobre coisas que você não sabe as conseqüências é o primeiro passo para trilhar um caminho melhor. Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes.

  16. Marcus Pessoa disse:

    Eu não critiquei a matéria da Veja, e nem poderia, porque não a li. Eu apenas mostrei que a revista ouviu apenas os inimigos do governo cubano. Não cumpriu a regra básica do jornalismo, que é ouvir todos os lados da questão.

    Os cubanos de Miami têm o direito de dizer o que bem entendam, e eu tenho o direito de dizer que eles não têm isenção. Eu não os chamei de traidores, mentirosos, bandidos, de nada. Apenas disse que são inimigos do governo, e isso não é um juízo de valor. Eles são o quê, aliados?

    Repito o que disse antes: sua mensagem é baseado em fontes tendenciosas, ou seja, você não tem um caso.

  17. Alessandro disse:

    Criticar é muito fácil. Conhecer o verdadeiro Ernesto Guevara é um pouco mais difícil, principalmente com reportagens como a da revista Veja, onde se demonstra o mais puro ranso imperialista, que alguns idolatram.
    O humanista Che é o verdadeiro. O Homem Novo é o próprio Che, e quem não souber quem é o Homem Novo, não saberá quem é Che.
    Quantas pessoas se matam no mundo diariamente em virtude da política existente, onde o “mais forte” destrói o “mais fraco”? Num mundo onde é sempre preciso estar concorrendo com alguém, se tentando ser o melhor para se chegar ao topo, não se pode entender o que algumas pessoas pensam ou pensaram. Não se pode entender que algumas pessoas lutam ou lutaram pelo povo, que não tem qualquer chance na sua vida, pelo povo que é um mero coadjuvante de uma classe que dominou a América desde sempre e quer se manter no poder a qualquer preço.

  18. Luis Angelo Aracri disse:

    “Ele foi também um pensador, um homem de reflexão, que nunca deixou de ler e escrever, aproveitando qualquer pausa entre duas batalhas para pegar a pena e o papel. Seu pensamento o faz um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, quiça o mais importante depois de José Carlos Mariátegui” (MICHAEL LÖWY)

    Esse fragmento retirei de um texto do Löwy no qual ele escreve que Che é muito pouco lembrado pela sua obra marxista. Guevara chegou a produzir textos sobre a Lei do Valor! Löwy chega a afirmar que existe um “marxismo de Che”. Em “Notas para o estudo da ideologia da Revolução Cubana” (1960), ele afirma que mesmo Marx havia cometido erros em “O Capital” que deveriam ser criticados. Esse é um lado do Che que poderia ser mais explorado e que representa, ainda, um tesouro escondido. Senti falta do interesse pelas facetas menos conhecidas dele, que ajudam a humanizar ainda mais o personagem.

    Em todo caso, para mim foi uma grata surpresa a descoberta deste blog. Seus textos são muito bons, esclarecedores e, sobretudo, (auto)críticos. Um forte abraço e continue com este belo trabalho.

  19. Sérgio Caniçali disse:

    Meu caro Alessandro. Você está certíssimo ao ser contra os Métodos do “Tche”, Mas está totalmente equivocado ao dar ouvidos ao que a “grande Mídia” hoje nos fala ou escreve. Infelizmente a mídia (Veja, Folha de São Paulo, O globo, Isto é, Rede globo entre outros), perderam toda identidade de jornalismo, e se venderam aos interesses dos Mentores do Neo liberalismo, cujo objetivo principal é manter as nações pobres e sob seu domínio). “hoje” a Grande Mídia escreve duas mentiras e quatro fatos distorcidos para cada verdade sem utilidade que escreve. Mas Voltando à questão do “Tche” Acho que uma luta armada hoje não faz mais sentido, ainda mais porque, qualquer coisa Boa para um povo, que alguém pense em defender, terá o grande império americano com todo seu potencial bélico contra Ele. Não é por aí. Se o Tche tivesse ficado em cuba desenvolvendo o socialismo, teria ajudado mais ao mundo do que morrendo. Já tivemos um Grande Líder assassinado por ensinar o povo o caminho da liberdade e isto Basta. Isto ocorreu a 2.000 anos atrás. Depois disto vieram vários: Ghandy Libertou mais de um milhão de pessoas (índia e Paquistão) sem dar um tiro sequer. Foi outro grande exemplo para a humanidade. “tche” precisou usar armas, e o mundo todo deve agradecer a ele por isto. Ele pode ter matado, mas libertou um numero muito maior da morte, por isto seu nome é e foi idolatrado por muitos lideres e intelectuais. Diminuir seu real valor é desconhecer sua história, ou sentimento de inveja por não ter conseguido realizar nada pela humanidade. Tenho certeza, que o trabalho de “tche” será uma grande luz, a iluminar o pensamento dos que tem a obrigação de definir novos rumos para o mundo, após a total falência desta medíocre forma de administrar, chamada “capitalismo neo liberal” imposta ao mundo nos últimos anos por mentes delinqüentes.

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