A falácia do "usuário financia a violência"

Quando a TV começou a passar, há alguns anos, vários filmes de propaganda contra as drogas, o tom era aquele dos anos 50: as drogas são o bicho papão, cuidado com seus filhos, etc. O slogan final: drogas, nem morto.

O cheiro de naftalina era evidente, e não podia dar certo, né? Qualquer pai ou mãe prefere um filho drogado a um morto. Ciente disso, a entidade responsável pela campanha mudou o enfoque, passando a dizer que quem usa drogas financia a violência do tráfico — discurso muito bem elaborado que hoje é repetido que nem papagaio por um monte de gente. Uma forma higienizada e moderna de demonizar o usuário.

A cocaína era vendida em farmácias no Brasil até a década de 1930. Na época o usuário não financiava a violência, porque os circunspectos boticários não precisavam se esconder em favelas e trocar tiros para garantir o seu honesto negócio de vender drogas.

Ou seja, a violência não é gerada pela existência de pessoas dispostas a comprar a droga, mas pela proibição do Estado.

Vamos fazer uma divisão de águas. Se você acha que usar drogas, em si, é algo tão horrível que mereça ser considerado crime, mesmo que não gere prejuízo a ninguém a não ser o próprio usuário, pare de ler agora mesmo. Não se preocupe, Deus protege os inocentes e também os obtusos, e com certeza se apiedará de sua alma.

Mas, se você acha que usar ou não drogas é uma decisão exclusiva da esfera individual de cada um, e mesmo assim repete esse discurso fajuto de usuário financiando violência, tem alguma coisa errada.

A idéia de que o cada um é responsável por si mesmo, ou seja, o primado da consciência individual, é um dos alicerces do Liberalismo, e este não foi um movimento de Ursinhos Carinhosos que pediram licença ao Estado opressor para ter liberdade de fazer o que bem entendiam. As revoluções burguesas mostraram que, se o Estado é injusto, o melhor a fazer é derrubar o Estado e fundar outro.

Mas agora, vejo gente inteligente achando que os usuários têm que ser uns Ursinhos Carinhosos, pedindo licença ao Estado para exercer o direito básico de consumir o quem bem entendem.

Não, meus amigos, quando o Estado te impede de exercer um direito, você pode até se conformar, se for um banana, mas se tiver hombridade, você tem o direito e até o dever de confrontar esse Estado.

E isso inclui, sim, dar dinheiro ao bandido, se for a única maneira. Digamos que eu seja um cubano querendo fugir de Cuba, e só quem pode me tirar de lá seja um mafioso daqueles de filme. Eu não tenho o direito de exercer a minha liberdade, só porque o meu dinheiro vai pra um bandido? Claro que tenho.

Todos sabem que na época da Lei Seca norte-americana a Máfia se fortaleceu com o comércio ilegal de uísque. Foi só permitir de novo o consumo que essa fonte de financiamento do crime secou.

Eu quero fazer àqueles que põem o dedo na cara dos usuários de drogas ilegais, mas tomam sua cervejinha nas sextas-feiras, a seguinte pergunta: se o Estado o proibisse de tomar a sua cerveja, você acataria? Deixaria de tomá-la?

Se a resposta é não, você é um hipócrita. Se a resposta é sim, você é um cordeirinho da violência do Estado.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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84 respostas para A falácia do "usuário financia a violência"

  1. Leandro Bulkool disse:

    Marcus, mais uma vez sou obrigado a dar parabéns pelo texto, embora discorde do conteúdo. Explicando:

    Acredito que usar ou não drogas é uma decisão exclusiva e individual. Porém, como toda decisão exclusiva e individual o meio influencia bastante. Como exemplo quero levantar as campanhas anti-tabagismo que conseguiram transformar os fumantes em “vilões” em quase todos os círculos sociais. Fumar mata, mas o cara faz se ele quiser. Mas, ele precisa respeitar o direito dos outros e lidar com as consequências diretas.

    Ou seja, todos nós temos o direito liberal de usar ou não drogas (estou incluindo todas as drogas, inclusive a minha tão amada cervejinha). Mas todos temos que lidar com as consequencias e ter a grande soma do juízo com o bom senso para isso. Sim, usar droga pode ser respaldada por bom senso, dando exemplo do cara que não bebe quando está dirigindo. Mas porque ele faz isso? Não é apenas por causa das consequências diretas a si, mas com os terceiros. Com quem nem mesmo bebe e pode estar envolvido em um acidente de carro por causa de um usuário embriagado.

    Então, se o usuário pretende comprar pó, bagulho, bala, doce e todos os outros artefatos ele precisa estar preparado para lidar com as consequências disso, que envolve desde um risco direto a sua saúde, quanto ao financiamento do crime organizado. Só que no segundo ponto, a consequência não afeta apenas a ele e sim a toda a sociedade. Da onde vem a sua responsabilidade dentro desse caos.

    Em resumo, eu bebo cerveja, não sou santo, dirijo embriagado (de forma alguma quando meu filho está no carro), mas tenho a plena consciência que tenho uma parcela de culpa e responsabilidade no caos atual, não me julgo inocente só por estar exercendo o meu direito liberal. Se todos os usuários tivessem a plena consciência que financiam sim o crime organizado, poderiam seguir o próximo passo do seu texto, que quando um estado encontra-se errado deve ser mudado. O problema é que a maioria dos usuários preferem se abster de sua responsabilidade e não começar o movimento de legalização das drogas – do qual eu sou a favor.

    Respondendo a sua pergunta: Não, eu não deixaria de tomá-la. E não sou um hipócrita, pois ao mesmo tempo eu estaria fazendo de tudo para torná-la legal novamente.

  2. Silvia disse:

    Sou contra as drogas, mas meu motivo é mais espiritual do que qualquer outro. Acho que não faz bem pra ninguém, embora aparentemente tenha efeitos interessantes. Ela causa estragos muito sérios no perispírito, coisa invisível, mas que existe. E eu não queria que meus filhos se envolvesem com as drogas, não, incluindo aí cigarro e bebida. Sou meio radical. Mas enfim, cada um faz as suas escolhas e todas elas têm uma conseqüência. Acho que se alguém sente que “precisa” de drogas e quer usá-las, essa pessoa não está exercedo a sua liberdade, muito ao contrário, ela está se escravizando ao vício. Acho que é por aí que enxergo essa questão. Espero ter contribuído com a minha visão sobre o assunto….

  3. Adriano disse:

    Em suma, “as drogas devem ser proibidas?”. Interessante questão. Vou pensá-la e depois talvez diga alguma coisa lá em casa. (:

    Parabéns pelo texto, de qualquer forma.

  4. Andréa N. disse:

    Marcus, concordo contigo, como sempre. Silvia, já li que o consumo da carne também causa estragos sérios no perispírito. Você é adepta (e incentiva seus filhos) do vegetarianismo, também?

  5. André Kenji disse:

    Aliás, é interessante notar que a direita americana em grande parte apoia a descriminalização das drogas. ;-) Já aqui no Brasil…

  6. cris disse:

    é interessante notar que as pessoas que mais defendem as liberdades individuais e são contra a tutela do estado são aquelas que levantam a voz pr protestar quando o assunto é a descriminalização das drogas ou do aborto. não são esses direitos individuais também? aqui em casa o assunto ‘drogas’ é debatido abertamente há muito tempo, tanto que o guilherme também é a favor da liberação. adorei o eu texto. bjs

  7. Quica disse:

    Liberemos então?

  8. Marcus Pessoa disse:

    Agradeço a todos pelos comentários.

    Quica: sim, claro.

  9. thais navarro disse:

    concordo em gênero, número e grau.

  10. Flavio disse:

    Caro Marcus,

    Deixo duas perguntas no ar. Se a legalização da venda e consumo de drogas fosse legalizada, quem seriam os primeiros empreendedores com know-how e poder econômico para levar a frente a produção de cocaína, maconha, ecstasy no País?

    Claro que não seria a APAE, mas sim os próprios cartéis de narcotraficantes que, veriam os seus negócios (financiados até hoje SIM por usuários de drogas) florecer ainda mais com o ombro amigo do Estado.

    Hoje, cerca de 90% dos crimes cometidos no Estado de São Paulo têm alguma relação com o consumo ou tráfico de drogas. Com a legalização, e o eventual aumento no consumo, será que a porcentagem de crimes cometidos por “nóias” irá diminuir?

    Abraço a todos!

  11. Marcus Pessoa disse:

    Eu não sou bom em futurologia, Flavio, matéria na qual você parece ser especialista.

    Quando a maconha foi legalizada para uso médico na Califórnia, muitos empresários entraram no negócio. Gente que não tem nada a ver com o tráfico. Você fala como se produzir drogas fosse algo esotérico, secreto. Dá pra aprender até pela internet…

    E você também não tem como afirmar que o consumo vai aumentar. Na Holanda foi legalizado e não aumentou.

  12. Flavio disse:

    Não, não sou candidato a mãe Dinah, Marcus. Você, no entanto, poderia ser um pouco mais preciso em suas respostas.

    O consumo de “hard drugs” cresceu na Holanda, tanto que a quantidade de maconha permitida diminuiu de 30g para 5g, e o número de hash bars diminuiu (por força de lei) devido do alto consumo de cocaína e heroína nesses ambientes.

    Se a legalização fosse mesmo uma solução, por que ela não foi adotada em outros países depois da fracassada experiência holandesa?

    Ah, o uso “medicinal” da maconha na Califórnia também está sendo objeto de discussão, e seu futuro é incerto.

  13. Marcus Pessoa disse:

    Dizer que algo “está em discussão” e não dizer nada é a mesma coisa.

    Não há qualquer experiência de liberação controlada das drogas chamadas “pesadas”, então não há como você vir com sua futurologia.

  14. Flavio disse:

    E qual a sua proposta, Marcus? Ela se assemelha aquela utilizada na Holanda ou é só falácia?

    Por favor, já que você iniciou esta discussão, dê continuidade a ela com fatos, se não tem como argumentar para sustentar as suas idéias seja sincero e paramos por aqui.

    Se eu disse que é objeto de discussão é porque juízes de diversos condados, inclusive de San Diego têm lutado contra a Preposition 215, e o assunto deve ser levado á Suprema Corte. Acho que isso quer dizer “alguma coisa”, não?

  15. Marcus Pessoa disse:

    Dizer que juízes reaças querem derrubar uma lei que legaliza uma droga não quer dizer absolutamente nada. Isso vai sempre acontecer, em qualquer lugar do mundo.

    Tem que legalizar todas as drogas. Eventualmente, estabelecer algum tipo de restrição para aquelas que causam dependência física, como os opiáceos — por exemplo, cadastramento e acompanhamento médico obrigatório.

  16. Leonardo disse:

    Marcus, concordo totalmente da ideia geral do texto, principalmente por estar se tratando do caso especifico do Brasil. Mas discordo quando você generaliza:

    Não, meus amigos, quando o Estado te impede de exercer um direito, você pode até se conformar, se for um banana, mas se tiver hombridade, você tem o direito e até o dever de confrontar esse Estado.

    Acontece que o uso de drogas, seja, fumo, alcool ou drogas ilicitas prejudicam a saúde. Mas se o Estado é quem ter “o dever da saúde” ele pode sim impedir de você a usar substancias consideradas como ilicitas.

    Mas que me deixa revoltado é que aqui no Brasil, além de termos que pagar tudo do nosso bolso (educação, saúde e segurança), também somos impedidos de consumir o que bem intendemos.

    Ainda assim, seu texto está totalmente coerente ao se tratar de Brasil. Na nossa realidade, concordo com cada virgula do seu texto.

  17. Flavio disse:

    Juizes reaças? Pelo menos você não utilizou o termo facista desta vez, ja vemos um avanço.

    Pelo visto, você sabe tanto sobre o que vem acontecendo na Califórnia (apesar de ter usado como exemplo) que não utilizou sequer um parágrafo para comentar as consequências da Proposition 125.

    Se a medida, mesmo depois de aprovada por referendo popular, tem sido discutida é porque os eleitores foram enganados quanto aos “fins medicinais” da maconha. Como já era esperado, uma horda de toxicômanos e traficantes tem se utilizado da medida para contrabandear, vender e consumir drogas no estado da Califórnia dentro da “lei”.

    Você acha que, mesmo com as experiências da Califórnia e Holanda (entre outras) algum governante (“reaça” ou “de esquerda”) vai liberar todas as drogas, como voce prega?

  18. Euler disse:

    Não costuma ser colocada a diferença entre uso de drogas e uso abusivo de drogas.

    O uso abusivo de drogas, embora seja fruto da vontade “livre” (eu diria condicionada) do ser humano, viola a dignidade humana pelos motivos que já conhecemos (vício, overdose…). Isso vale para o cigarro e o álcool também. Mas se esse últimos são liberados, porque não liberar também a maconha? Eu sou contra, simplesmente porque essa campanha pela liberação é também uma campanha pelo direito ao uso abusivo (“queimar tudo até a última ponta”), diferente da liberação do cigarro e álcool, que existem para uso moderado. Se quisessem liberar a maconha para uso moderado, tenho certeza que a discussão seria outra.

    A idéia de que o ser humano deve ser livre até mesmo para se suicidar não vem propriamente do Liberalismo do século XIX, mas especialmente do existencialismo do século XX. E qualquer pessoa pode ser a favor ou contra sem ser chamado de fascista ou hipócrita.

    Também não acho que a proibição seja a causa do tráfico. A proibição, conforme escrito aqui, vem da década de 1930, enquanto o tráfico começa na década de 1970, mesma época dos movimentos hippie e punk, que faziam apologia às drogas. Ou seja, parece que o tráfico surge com o crescimento do consumo, não com a proibição. Além disso, de que adianta legalizar, se existe também tráfico de produtos já legalizados (discos, brinquedos, perfumes, vodka etc.)? A legalização deve ser (e é) defendida por motivos ideológicos, não pragmáticos.

    Mas, acima de tudo, confesso que ainda não entendi qual a relação entre a violência e as drogas. Se o problema fosse o tráfico, porque não existe gente com AR-15 vendendo os discos de Roberto Carlos?

  19. Euler disse:

    Desculpem, não acertei usar as tags direito. E o “visualizar” não funcionou.

  20. Marcus Pessoa disse:

    Leonardo: se você acha que o Estado tem o direito de impedir alguém de consumir o que bem entenda, então você não tem como concordar com a idéia central do texto, que é exatamente contrária a essa.

    Flavio: as experiências de legalização são positivas, por mais que os reaças esperneiem. Elas vão se ampliar e não há outro caminho, porque a atual política não funciona.

    A guerra contra as drogas não vai ser vencida e todo mundo sabe disso — mas alguns fingem que não sabem.

    Euler: confesso que a sua teoria de que o movimento hippie é culpado pelo tráfico me fez rir um pouquinho numa segunda feira um tanto cinzenta…

  21. Flavio disse:

    Caro Marcus,

    Por favor, prove que a sua afirmação (sobre o sucesso da legalização) é verdadeira ou você corre o risco de ser visto como um mentiroso em seu próprio blog.

    Citei apenas alguns fatos que comprovam o que eu disse, enquanto você, ao contrário, não disse nada de concreto que pudesse sustentar a sua “tese”.

    Só um completo imbecil acredita numa sociedade sem crimes, e drogas. O objetivo é diminuir o problema, não erradicá-lo.

    Sempre haverá um nóia disposto a tomar a sua próxima dose, infelizmente.

  22. Euler disse:

    Marcus,

    Não sei se vc não entendeu o que eu escrevi ou se não quer analisar a questão.

    Eu não disse que o movimento hippie é culpado pelo tráfico. Ele incentivou o consumo, que deveria ser feito em aldeias estilo “fugere urben”, ou seja, plantar a maconha ao invés de criar um sistema mafioso de contrabando.

    Todavia, a intenção nem sempre corresponde aos efeitos. O aumento do consumo provocou aumento da procura, o que incentiva o tráfico. Nem todo mundo terá um vaso em casa com uma planta de maconha.

    Eu grifei a palavra “consumo”. Além disso, mencionei o tráfico de outros produtos, que nada têm a ver com drogas. Certamente, vc não teve grande interesse em ler com atenção o que eu escrevi.

    E não condenei nem condeno o movimento hippie. Talvez até respeite esse movimento mais do que vc. Mas isso não impede que eu tenha uma visão crítica, considerando os efeitos positivos e os efeitos desastrosos.

    Mas, se vc acha que não tem nenhuma relação com o aumento do consumo, então explique por que o tráfico não apareceu no pós-guerra. É muito fácil ridicularizar a opinião de alguém simplesmente fugindo da discussão, sem ter argumento nenhum.

  23. Marcus Pessoa disse:

    Flavio: não será através da política de repressão que se conseguirá diminuir o consumo. Essa política fracassou.

    O consumo de drogas nunca será residual. Não existe nenhuma sociedade em que isso tenha acontecido. O que se deve procurar é tornar residual o abuso de drogas, e isso deve ser feito através de prevenção e aconselhamento, e não de repressão.

    Se os próprios holandeses não abrem mão de sua política de legalização da maconha, não será você que me irá convencer que ela não deu certo.

    Euler: o tráfico de drogas sempre existiu. Já houve até guerras por causa dele, como as Guerras do Ópio entre a Inglaterra e a China. No século XIX.

    Ele não é uma criação dos anos 70. A criação dos anos 70 é o recrudescimento da legislação proibicionista. A primeira lei antidrogas do Brasil é de 1976.

    O tráfico, que sempre existiu, ficou violento por causa da proibição.

  24. André Kenji disse:

    Flávio

    Já que a questão são juízes reaças, fiquemos com um dos conservadores mais aguerridos da Suprema Corte americana…

    http://www.law.cornell.edu/supct/html/03-1454.ZD1.html

  25. Flavio disse:

    Caro Marcus,

    Mais uma vez você cita a Holanda, o que você sabe realmente sobre os últimos acontecimentos envolvendo a política sobre drogas daquele país e a União Européia?

    Com certeza, muito pouco senão não estaria insistindo no erro (ou ma fé) de utilizar este país como exemplo. Pelo menos, neste comentário você não citou a Califórnia!

  26. André Kenji disse:

    O problema da proibição é aquela velha questão da lei da oferta e da procura. A única forma de se combater o tráfico é inibindo a demanda, o que faz com que o preço aumentem. E o problema é que preços altos são um dos grandes incentivos para a demanda. O tráfico se transforma numa Hidra de Lerna.

    Não há também estimativas de que os traficantes fossem assumir o controle deste comércio caso fossem legalizados. As demandas de um mercado legal seriam bem diferentes do violento mercado ilegal.

  27. Marcus Pessoa disse:

    Eu citei a Califórnia, Flavio, para me contrapor ao seu argumento absurdo de que só os atuais traficantes participariam do mercado. A revista Rolling Stone publicou uma extensa reportagem sobre os comerciantes comuns que estão entrando no negócio. E o André Kenji complementa acima o meu argumento.

    Eles têm é que parar com a hipocrisia de permitir maconha a doentes e não permitir a sadios. Isso não faz o menor sentido.

    E eu já disse e repito: quando você me mostrar que a Holanda vai colocar de novo na ilegalidade o uso de maconha, a gente conversa.

  28. Flavio disse:

    Os traficantes já estão fazendo parte do negócio na Califórnia, Marcus. Sobre a Holanda criminalizar ou não a venda de maconha como ilegal não é algo significativo.

    O que devemos analisar são os eventuais efeitos da medida, e o que vemos é que as autoridades prometem diminuir o número de bares onde a venda e consumo é permitida, já limitaram ainda mais a quantidade de droga (de 30g para 5g) que os toxicômanos podem carregar, e proibiram o cultivo indiscriminado de maconha (algo que também caiu na mão dos traficantes, mesmo com a legalização).

    Podemos conversar agora, Marcus?

  29. Marcus Pessoa disse:

    Na Califórnia a polícia é que está tratando os comerciantes legais como traficantes. Nada diferente do que se espera nos EUA.

    É daí que o governo holandês esteja fazendo algumas restrições, para coibir abusos? Eles não vão voltar atrás na legalização; isso está fora de questão e já foi reafirmado várias vezes.

    Não vão voltar porque a política está dando certo. O consumo não aumentou. Você passa ligeiro por esse fato porque ele desmonta toda a sua tese.

  30. Flavio disse:

    Marcus,

    O DEA está autuando os “comerciantes legais” que estão contrabandeando maconha ilegalmente do México, e haxixe do Líbano. Acho que isso os torna criminosos, seja nos EUA ou em qualquer lugar do planeta, não seja preconceituoso.

    Mais uma vez sobre a Holanda, quem está ignorando completamente os retrocessos na legislação sobre drogas nos últimos anos é você. Claro que eles não vão promover uma mudança de 180o na legislação de uma hora para outra, mas o fato é que a política do País para as drogas tem se tornado cada vez menos liberal, ao contrário do que você por ignorância ou má fé, apregoa.

  31. Marcus Pessoa disse:

    Estamos falando de coisas diferentes, Flavio. Eu estou dizendo que comerciantes californianos legalmente estabelecidos, que cultivam sua própria maconha em estufas, estão sendo perseguidos pela polícia. Se você desconhece isso, peço que se informe melhor.

    Não é verdade que o governo holandês tem sido menos liberal. Mais uma vez, eu peço que você pesquise melhor. O cultivo sempre foi ilegal, nunca foi permitido (o que torna a lei um tanto frankenstein), e o limite de 5 gramas para porte individual existe desde 1976.

    As mudanças foram no sentido de proibir venda de maconha e bebidas alcoólicas no mesmo estabelecimento, e restringir a existência deles próximo a escolas secundárias. Isso não torna a legislação menos liberal. O governo holandês já se pronunciou muito claramente a esse respeito:

    “A Holanda não mudou a sua política em relação à cannabis. Não estamos a fechar as coffee shops nem estamos especialmente preocupados com o consumo de cannabis no nosso país”. Foi assim que o governo holandês reagiu à divulgação do relatório de 2004 do Órgão Internacional de Controlo de Estupefacientes (OICE), cujos destaques incluem ” uma mudança crucial e significativa” na política daquele país relativa à cannabis, que se consubstanciaria na redução do número de coffee shops (os estabelecimentos onde é permitida a venda de pequenas quantidades de haxixe e marijuana).

    Esta alegada alteração, com a qual o OICE se “congratula”, causa mesmo o espanto do gabinete de imprensa do ministério da Saúde holandês, que disse ao DN “não saber onde o órgão foi buscar essa ideia”. “Está tudo basicamente como antes, não mudámos nada. E comparando o consumo de cannabis entre os jovens holandeses com os dos nacionais de outros países europeus, constatamos que estamos a meio da tabela, o que significa que a nossa política não está a dar maus resultados”.

    Eu prefiro acreditar no governo holandês do que em você.

  32. André Kenji disse:

    Bem, vamos lá.

    Atualmente a maior parte da maconha consumida na Califórnia vem da Califórnia mesmo.

    O problema da Proposition 215 é que a legislação que torna a maconha ilegal é regida por uma lei *federal*, o que em tese vai contra a Décima Emenda. O problema no caso é mais a discussão sobre se uma lei federal pode atropelar uma lei estadual estabelecida em plebiscito que sobre os supostamente danosos efeitos da descriminalização para fins medicinais.

    Já na Europa o debate sobre as drogas nunca foi fácil já que há o medo de que a descriminalização aumente o consumo(Por mais que esses usuários estejam sujeitos a menos riscos). De fato na Holanda aumentou, por mais que proporcionalmente ele seja menor que nos EUA.

    No caso, o que está havendo é que a maconha, que antes era vista como droga leve, está sofrendo críticas maiores por causa da descoberta de variantes modificadas mais pesadas(skunk), que de fato tem registrado danos clínicos mentais pesados com usuários, ao contrário da maconha tradicional. Eu acho que isso faz a defesa da descriminalização, já que aí o governo poderia garantir ao consumidor um produto mais seguro por meio da regulação.

    O que os holandeses estão fazendo em grande parte é tentar desincentivar o tráfico sem aumentar o consumo, enquanto aqui estamos fazendo a defesa da legalização total. São coisas diferentes.

  33. Flavio disse:

    Marcus,

    A redução no limite de droga que o toxicômano pode carregar se deu nos anos 90 para tentar reduzir os danos causados pela descriminalização, esta sim, datada dos anos 70.

    Se, de acordo com as suas afirmações, o governo holandês não tem sido mais duro com relação às drogas, como explicar o fechamento de um grande número “coffee shops” previsto para os próximos anos por força de lei, e a recente proibição total da venda de cogumelos no Páis?

    Quando eu me referi ao cultivo indiscriminado de maconha, é porque as autoridades até recentemente faziam “vistas grossas” para o cultivo, algo que aumentou tanto que atraiu até quadrilhas de traficantes internacionais para a Holanda além das (poucas) famílias de baixa renda atraídas para o tráfico.

    Ou seja, as teses de “libera geral”, e “a proibição do Estado é que gera a violência” na prática são tão ineficazes quanto a “pega e mata” ou “bandido bom é bandido morto”.

  34. Marcus Pessoa disse:

    Cortei uma parte do seu comentário. Não vou admitir ofensas contra mim em meu próprio blog. Mais uma dessa e vai ser banido.

    Não sou eu que estou afirmando que o governo holandês não mudou a política. São eles mesmos que estão afirmando isso.

  35. Flavio disse:

    Ué, agora há pouco você havia “decretado” o fim da discussão?

    Não o ofendi em nenhum momento, apenas disse que você faltou com a verdade e provei isso. Aliás, como devemos chamar aqueles que faltam com a verdade?

    Outra coisa que eu trouxe a tona no último comentário foi o endurecimento das leis holandesas com relação ás drogas, dando espaço para que você também viesse com mais fatos para o debate. No entanto, você preferiu utilizar um dos métodos prediletos dos “reaças”, a censura.

  36. Leonardo disse:

    Marcus Pessoa diz:

    Outubro 15th, 2007 às 16:19
    Leonardo: se você acha que o Estado tem o direito de impedir alguém de consumir o que bem entenda, então você não tem como concordar com a idéia central do texto, que é exatamente contrária a essa.

    Eu concordo com a ideia geral do texto porque moro no Brasil, e a saúde daqui é uma m*rda. Como o Brasil é nossa realidade, concordo com a idéia geral do texto. Neste caso, nosso estado não tem o direto moral de nos impedir de consumir o que queremos.

    O que discordo, são em casos específicos (por isso mencionei que concordo com a idéia geral). Imagine um país que dispõe de um serviço digno de saúde, e arca com todos os custos. Se esse país libera o uso de quaisquer substâncias, esse sistema está fadado a ter mais custos, principalmente por causa de usuários irresponsáveis. Você acha isso justo?

    (Eu disse que concordo com a ideia geral do seu texto pois eu não queria ser hostil. Mas, nas entrelinhas, você deveria ter entendido que na minha opinião você generalizou demais.(

  37. Marcus Pessoa disse:

    Flavio: tá bom, pode espernear à vontade. Pode me chamar de feio ou de bobo. Pode se fazer de vítima e dizer que eu quero te censurar.

    Já provei que o governo holandês não vai voltar atrás na liberação, e isso é que importa.

    Leonardo: é claro que o Estado deve arcar com os custos de dependência química. É uma doença como outra qualquer.

    Hoje, em qualquer pronto socorro, alguém que chega de coma alcoólico é atendido normalmente. Você acha que a pessoa não tem que ser atendida? É isso que é justo pra você?

  38. Flavio disse:

    Não o chamei de feio ou bobo, Marcus. Ao contrário, apesar de não concordar com tudo o que escreveu, gostei do blog, do seu texto, e por isso imaginei que poderia debater o assunto com você de uma forma mais profunda.

    Sim, te acusei de faltar com a verdade, mas o que mais poderiamos esperar de alguém se dispõe a debater um tema tão complexo de uma forma tão superficial?

  39. Leonardo disse:

    Hoje, em qualquer pronto socorro, alguém que chega de coma alcoólico é atendido normalmente. Você acha que a pessoa não tem que ser atendida? É isso que é justo pra você?

    De maneira alguma. Totalmente injusto se este Estado respeita o contribuinte (o que não é o caso do Brasil). Eu acho que bebida alcoolica deve ser tratada como qualquer outra droga, é tão prejudicial quanto, e em alguns casos até mais.

    é claro que o Estado deve arcar com os custos de dependência química. É uma doença como outra qualquer.

    É verdade. Mas se este mesmo Estado tem o dever de arcar com esses custos, ele tem o direito de atacar as causas: o uso da droga. É o mesmo caso de obrigar o motorista a usar cinto de segurança ou capacete: quem é o prejudicado ao não ser o próprio indivíduo? Mesmo assim, o Estado tem o direito de obrigar o uso, pois é ele que arca (ou pelo menos deveria arcar) com as despesas das vítimas.

  40. Marcus Pessoa disse:

    Não existe nenhuma questão de liberdade individual envolvida no uso do cinto ou do capacete. Você nunca verá alguém contra essa obrigação, que só não é cumprida por negligência.

    O pessoa consome são outros quinhentos. O Estado deve sim combater o uso das drogas, mas pelo convencimento e não pela proibição.

    Senão, deveríamos proibir cigarros e álcool, que tal? Fechemos os bares, fechemos a Souza Cruz, a Schincariol. E não esqueçamos de proibir também açúcar, gorduras trans, tudo o que faz mal à saúde. Fechemos os McDonalds. Garanto que os que abusam do colesterol custam muito caro ao SUS.

  41. André Kenji disse:

    “Não existe nenhuma questão de liberdade individual envolvida no uso do cinto ou do capacete. Você nunca verá alguém contra essa obrigação, que só não é cumprida por negligência.”

    http://www.capmag.com/article.asp?ID=4259

  42. Marcus Pessoa disse:

    Eu estou falando de gente comum, André, não de malucos radicais.

  43. Leonardo disse:

    Não existe nenhuma questão de liberdade individual envolvida no uso do cinto ou do capacete. Você nunca verá alguém contra essa obrigação, que só não é cumprida por negligência.

    O cinto não vejo nada que incomode no uso. Mas sou motociclista e sei que capacete limita o campo de visão do motorista (mas mesmo assim eu uso por vontade própria). No estado da Flórida (EUA) o uso de óculos de proteção é obrigatório, mas o uso de capacete não, ele parte do princípio que se voce não estiver usando capacete só vai prejudicar a você mesmo. Já se você não utilizar o óculos, algo pode cair no seu olho, por exemplo, e com a visão prejudicada, você pode causar um acidente, envolvendo outras pessoas. Consegui convencê-lo de que o não uso do capacete não é apenas negligência?

    E não esqueçamos de proibir também açúcar, gorduras trans, tudo o que faz mal à saúde. Fechemos os McDonalds. Garanto que os que abusam do colesterol custam muito caro ao SUS.

    Concordo plenamente. Se o Estado tem um serviço digno de saúde e consegue comprovar que todas essas coisas prejudicam a saúde, ele pode regulamentar a quantidade de todas essas coisas nos alimentos.

    Mas enfim, enquanto moro no Brasil, vou continuar contribuindo para o tráfico. Pois o Brasil não tem moral nenhuma para me proibir de usar o que eu bem quiser.

  44. André Kenji disse:

    Mas, Marcus, de acordo com o Media Matters a coluna do Walter Williams sai em uns oitenta jornais por semana. ;-)

    http://mediamatters.org/reports/oped/report

  45. Marcus Pessoa disse:

    Bem, Leonardo, se você acha que o Estado tem que proibir álcool, cigarros, comida, etc, não há nada que a gente possa debater.

    Isso é totalitarismo.

    André: você está querendo dar às jabuticabas norte-americanas um valor que elas não têm. As loucuras deles são algo que interessa só a eles e a mais ninguém.

    Senão, quando eu dissesse que “ninguém está interessado no que duas pessoas adultas fazem entre quatro paredes”, alguém poderia dizer: “os norte-americanos sim, tanto que proíbem a sodomia”.

  46. Flavio disse:

    O Estado deve sim combater o uso das drogas, mas pelo convencimento e não pela proibição.

    É óbvio que seria melhor ver uma polícia bem paga, equipada, apenas esclarecendo crimes cometidos por toxicômanos. No entanto, ela é utilizada para combater o narcotráfico e até reprimir o consumo de drogas.

    O tráfico, como já sabemos, não se extingue com a descriminalização.

    Qual seria a “fórmula mágica” que os Estados nacionais poderiam utilizar para reprimir o uso de drogas, Marcus?

  47. Marcus Pessoa disse:

    Não tem que reprimir.

  48. André Kenji disse:

    Marcus

    *Meu* ponto com relação à obrigatoriedade do cinto é que a grande diferença com relação à proibição às drogas é que do ponto de vista utilitário ela funciona. Por isso que não me oponho a ela, e oponho a proibição das drogas em especial por quê ela é um desastre.

    Mas por mais que eu goste de vários textos do Walter Williams eu não concordo com muitas das idéias dele. Eu só quis mostrar que o outro lado existe, ué.

    (E a Suprema Corte derrubou, com muitos anos de atraso, as leis anti-sodomia).

  49. Flavio disse:

    Marcus,

    O Estado deve ou não combater o uso de drogas? Se decida.

  50. André Kenji disse:

    Flávio

    Claro que não. É que ele mais tem escrito aqui.

  51. Marcus Pessoa disse:

    Eu já disse várias vezes que o combate ao abuso de drogas tem que ser feito pela educação e não pela repressão.

    Usar as palavras certas é a primeira coisa a fazer pra não dar ruído na linha.

  52. Flavio disse:

    Coloco novamente a pergunta, apenas uma, dentre outras tantas que você não respondeu:

    Qual seria a “fórmula mágica” que os Estados nacionais poderiam utilizar para reprimir o uso de drogas, Marcus?

  53. Marcus Pessoa disse:

    Não tem que reprimir.

  54. Rafael disse:

    Marcus,

    discordo parcialmente do seu texto, mas concordo que tem gente jogando idéia torta na cabeça do povo pra fazê-lo pensar que a culpa da violência é exclusivamente do usuário e não dos políticos lá em Brasília que recebem muita grana do tráfico pra manter tudo como está (manter o tráfico como atividade ilícita, o que faz dela altissimamente lucrativa).

    Alguém que não seja alienado acha q o Marcola ou o Fernandinho Beira-Mar são ‘chefes’ do tráfico? Pra mim eles são apenas mais uns “fogueteiros”, só que com mais poder.

    Botar a culpa no usuário além de falacioso é algo que não tem utilidade alguma. Vai perguntar pro viciado em crack se ele tem condições de parar de usar sua droga por saber que ele está “financiando a violência num morro qualquer do Rio”. O buraco é bem mais embaixo.

    Aliás, se a culpa da violência fosse do usuário de drogas e não da desigualdade social, falta de educação e emprego etc., como explicar o fato de que em países desenvolvidos quase não se vê tiroteio de traficantes com policiais? Nos EUA, por exemplo, não existe tráfico de drogas nem usuários? Ou seja, conclui-se facilmente que o argumento é falacioso pois só seria aplicável (quando muito) a determinadas sociedades.

    Abraços!

  55. Flavio disse:

    “O estado tem que combater o uso”, “não tem que reprimir”, “libera tudo”, “libera, mas controla algumas drogas”,etc…daqui a pouco vão começar a discutir Foucault.

    Esse discurso incoerente realmente lembra aquele dos estudantes no filme Tropa de Elite, talvez seja isso que tenha irritado tanto uma pequena parte do público, incluindo o dono deste blog.

    Só um imbecil pode achar que os toxicômanos tem que levar toda a culpa pelo atual estado de coisas que o narcotráfico vem impondo ao País, mas é inegável que eles também têm a sua parcela de culpa.

    Falácia é dizer que o “libera geral” vai acabar com o mercado negro, a violência praticada pelos viciados (que geralmente começa em casa, contra os familiares), a corrupção policial, e tudo mais que envolve drogados e suas drogas. A verdade é que cada um tem que assumir seu papel na sociedade, e arcar com as (inevitáveis) consequências.

  56. Marcus Pessoa disse:

    O discurso não é incoerente.

    O Estado tem que combater o abuso de drogas através da educação, e não tem que reprimir usando a polícia e o sistema judiciário.

    É preciso liberar mas manter um controle, como é feito com o cigarro e o álcool, que são drogas legalizadas.

  57. Kbção disse:

    E não é que concordo plenamente com a tese central do Marquito? Bem que o post personiano, como bem lembrou o Kenji, caberia certinho num lewellin rockwell da vida, ou quem sabe n’O Indivíduo…Mesmo se levadas em consideração as informações trazidas pelo Flávio, acho que numa coisa ele concorda: A GUERRA CONTRA O TRÁFICO NUNCA DEU CERTO, REPRIMIR NÃO É A SOLUÇÃO. Engraçado, consegui encontrar um ponto em que concordo tanto com os carolas da direitinha conservadora quanto com a esquerda chiquezinha e polticamente correta…Descrminaliza essa porra! kkkkk

  58. Kbção disse:

    E, antes que eu me esqueça, não engulo essa conversa mole de que meu baseado contibui para a violência…hehehe Libera ele pra ver se essa tese não desmorona?

  59. Leandro Bulkool disse:

    Kbção, como assim “não engole essa conversa mole”?

    Isso não é conversa mole, isso é um fato. Como coloquei no meu comentário de outra forma, vou deixar mais claro aqui. O usuário financia sim. Mas o que me incomoda muito é a soma de conformismo com negação que leva o usuário a comprar sem em nenhum momento pensar que está influenciando na violência.

    Não negue. Faça alguma coisa para mudar. Essa é a diferença e o primeiro passo. Assim como a recuperação da dependência.

    E repito: Se o alcool fosse proibido, eu compraria, mas faria algo para voltar a legalizá-lo.

  60. LucianA disse:

    Bem, a equação para mim é muito simples: o usuário que compra de terceiros ajuda a financiar diretamente o tráfico sim, seja ou não a situação constrangedora ou injusta para os usuários… Mas que fazem a clientela dos figurões, não me resta dúvida. Até onde eu sei, não financio diretamente o tráfico, mas provavelmente uso ou já usei, calço ou já calcei algum produto de trabalho escravo ou infantil, e certamente já comprei coisa pirateada em beira de praia em pleno Carnaval, bela porcaria descartável, é verdade, mas comprei, e o meu dinheiro pode ter sido usado pelo dono do negócio ilícito pra comprar droga, o que não me alegra de jeito algum. Financiei a pirataria, financio o McDonand’s, financio sabe-se lá Deus mais o quê, mas tráfico de drogas é outro departamento. Não consigo colocar tudo no mesmo saco e pensar “ou legaliza tudo ou proíbe tudo”. Se o Estado proibisse cerveja e Marlboro, muita gente iria morrer, claro, mas a realidade não é essa, oras. A violência física bruta, sanguinolenta, visível e que é posta na minha cara com certa freqüência e quase todos os dias na do carioca gira em torno do tráfico de drogas. E acho um absurdo que se compare crack, cocaína, heroína e maconha, por exemplo, com cerveja e cigarro. Há aí uma gradação de efeitos colaterais muito grande, seja a curto ou a longo prazo. Quem é a favor do libera geral não deve refletir sobre as más conseqüências, né? Só deve pensar nos prós… Acho que país rico é que pode se dar ao luxo de consumir livremente, não o pobre do Brasil, onde as conseqüências poderiam ser nefastas.

  61. Mariana disse:

    Oi, Marcus, tudo bem?

    _Na Holanda várias medidas estão sendo tomadas, 20 anos após a criação dos Koffeeshops, mais duras contra as drogas.

    -Em 2003 a Holanda proibiu oficialmente a venda combinada da maconha e álcool;

    -Nos arredores das koffeeshops o tráfico se instalou para venda das demais drogas, como cocaína, por exemplo.

    -A Holanda antes da liberação das drogas não figurava como centro de produção e distribuição de drogas. Hj é líder no comércio das drogas sintéticas, como o ecstasy e o tráfico pesado lá está instalado;

    -o aumento de consumo entre os adolescentes da Holanda foi de 400%

    -muitas koffeeshops foram fechadas nos últimos 3 anos por ficarem próximas de escolas.

    Enfim, o lado B da política adotada pela Holanda pouco é divulgado, e tem muito mais! Basta fazer uma pesquisa mais aprofundada.

    Abraço,

    Mariana

  62. Mariana disse:

    Ah, esqueci de dizer! outro dado relevante que quase não divulgam! A Suécia tomou a direção oposta à da Holanda, proibiu e endureceu as penalidades e…deu certo!!!!
    Lá sim, deve ser o paraíso!!O Brasil podia copiar esta receita.
    Bj e paz,

    Mariana

  63. Marcus Pessoa disse:

    Mariana, as restrições que você cita a respeito da Holanda foram objeto de várias mensagens minhas e do Flavio, mais acima. O govenro holandês, apesar disso, reafirmou que a política está correta e não vai ser alterada.

    Desconheço qualquer política repressiva que tenha “dado certo”.

  64. Mariana disse:

    Marcus, na edição mais recente da Superinteressante há pequeno trecho (infelizmente valorizam mais a experiência da Holanda nessa revista) sobre a belíssima experiência da Suécia; veja também de outras fontes fidedignas a forma de tratamento ao problema das drogas na Suécia, que afetou muito sua juventude e que atualmente está sob controle. Infelizmente muitos adultos não aprenderam a se cuidar sozinhos e precisam de um tutor, um “grande pai” )Estado diligente), não repressivo pejorativamente, mas cuidador e que dá limites ao seus filhos.
    O governo holandês está retificando sim sua política, a partir deste ano de 2007.Já superaram o âmbito das discussões e estão pondo em prática alterações que se mostraram devidas.
    A Inglaterra também, está elevando a maconha de categoria, para uma referente a drogas mais perigosas, após verificarem aumento de problemas de saúde em grande parte da população usuária, visto que a maconha disponível no mercado apresenta teor de THC cada vez maior.
    Verifique estas informações. Se eu tiver tempo, verei as fontes para lhe indicar, ok?

    Abraço,
    Mariana

  65. Mariana disse:

    A propóstito, ontem estive em um evento com a equipe do filme “Tropa de Elite”, no qual tive oportunidade de ouvir pessoalmente o roteirista Pimentel, atores e outros, inclusive capitão do BOPE. Ele próprio (Pimentel) afirmou que em lugar algum do mundo é “liberou geral”. Algumas experiências no Canadá, no sul da Inglaterra, em Portugal, Holanda, Suécia (onde é totalmente proibido e o usuário leva 3 anos de cadeia) estão em análise mas jamais se adotou postura de libera geral, jamais se poderá fumar na rua como se fuma o cigarro de tabaco. São substâncias com efeitos agudos tão diferentes e de consequências tão distintas que a maconha jamais pode ser comparada. Isso sem falar na parte da saúde orgânica do fumante, que em ambos os cigarros é afetada em muitos pontos igualmente, em outros com maior gravidade na maconha.
    Enfim, tem-se que ter muita cautela para não disseminar equívocos pela internet. Os países que estão em fase experimental estão aí de cobaias. Aproveitemos, observando com lucidez, o que estão a demontrar, adaptando, sempre, para nossa realidade, afinal, se nem na Holanda estão dirimindo os problemas decorrentes das drogas, imagina aqui no BR, sem a mínima infra de tratamento nem para o álcool e tabaco!
    Aliás, sobre um comentário acima seu, de que álcool e tabaco são regulados e que assim seria com a maconha, discordo. Estão tão disponíveis e são até incentivados (publicidade forte)! A política preventiva é inexistente quase…e sobra para as famílias e sociedade em geral lidar sozinha com a questão, seus doentes e dores…
    Aproveito aqui para citar frase ouvida ontem no evento, do sub-secretário de segurança pública: “A Europa está revendo sua postura, por estar criando párias, passageiros sociais, e a vocação do homem é a felicidade, não acredito num homem que precisa da picada ou do fumo para ser feliz”!

    Abraço,
    Mariana

  66. Mariana disse:

    Ah, li os textos acima, como vc recomendou…vi em um deles que vc acha incoerente que no Canadá somente doentes possam usar maconha. Mas é simples entender esse raciocínio: remédio é para quem está doente. Pessoas sãs não precisam de droga (remédio) nenhum!!!

  67. Marcus Pessoa disse:

    Não estou disseminando equívoco nenhum. O fracasso das experiências repressivas está aí pra quem quiser ver. O sucesso da experiência holandesa também.

    As adaptações na Holanda não mudam o fato de que a experiência é um sucesso e o governo não pretende proibir de novo.

    Lá o consumo de maconha se mantém estável e é menor que nos Estados Unidos. Isso já deveria ser suficiente para demonstrar que a proibição não adianta nada.

  68. Mariana disse:

    Marcus, vc disse “O fracasso das experiências repressivas está aí pra quem quiser ver”, bem, vc não sabe do sucesso da Suécia, então??

    E disse que as adaptações na Holanda não mudam nada? Claro que retificações servem para corrigir erros! E erros não devem ser repetidos! Em país nenhum!Talvez eles não queiram proibir de novo, por enquanto, visto que o surgimento das koffeeshops vieram para mudar o foco da juventude de lá que dava muito trabalho com o vício nos opiácios…mas apenas trocaram de problema, na real.

  69. Andrea disse:

    André Kenji diz:

    “já que aí o governo poderia garantir ao consumidor um produto mais seguro por meio da regulação”

    André, sabe o que ia rolar? Mercado negro, porque viciado gosta mesmo é de ficar doidão, quer da mais pesada, não se controla! E quem se amarra na erva maldita não larga não! Não sei se isso é dependência, vício, o que é, mas ao menos psicologicamente sei que a pessoa fica presa mesmo!!!
    Aliás, mês passado estouraram o esquema de bebidas falsas que abastecia lugares famosos pelo país inteiro, viram essa notícia? Claro que isso ia rolar com as outras drogas! O mercado negro, muito mais lucrativo pq não paga imposto!!!

  70. Ana disse:

    Marcus, você sabe por que foi tirada das boticas a cocaína? Até Freud se enganou…mas se redimiu ainda em tempo de se salvar, mas não a alguns amigos que sucumbiram ao pó.
    Você já teve algum ente querido, amigo de verdade, que usa cocaína? Acha mesmo que é que nem usar uma aspirina? Acha que não gera violência por si só, mesmo tirando todo o ciclo vicioso do tráfico? Pense nisso: no porquê de ter sido banida para consumo, nas pessoas que convivem com os usuários e têm que suportar seus desequilíbrios gerados pela droga que usam.

  71. Carlos disse:

    Você escreveu no texto principal:
    “…mesmo que não gere prejuízo a ninguém a não ser o próprio usuário, pare de ler agora mesmo…”

    Marcus, acha mesmo que o álcool e o tabaco só geram prejuízo ao próprio usuário?!?!

    Caramba, sem noção!! O prejuízo é bem mais coletivo do que você ousou pensar. Do ponto de vista previdenciário, social, de sistema de saúde, de convívio familiar…veja a história para saber quanto mal a humanidade já enfrentou pelo uso gratuito de drogas, mesmo em tempos de não-proibição.
    A própria Holanda liberou a maconha para que a galerinha do mal perdidona trocasse o ópio. Acreditaram que seria um mal menor. Se ferraram.

  72. Marcus Pessoa disse:

    Sim, Ana, as drogas, em si, não geram nenhum prejuízo a não ser ao próprio usuário. Se combinadas com outras ações (dirigir, por exemplo), podem ser perigosas, mas aí é preciso vetar a combinação, como já acontece com o álcool, e não proibir o uso.

    E a Holanda não se ferrou coisa nenhuma, Carlos, como já demonstrei diversas vezes nesta discussão.

  73. Ana disse:

    Marcus, continuo querendo que vc compreenda minha afirmação de que gera prejuízo além do próprio usuário.
    Vc tem filhos?
    Pois eu tenho, e meu prejuízo como mãe (afetivo, financeiro, social, de tempo …)seria enorme se algum deles se envolvesse com drogas, como vejo acontecer com famílias de conhecidos.

  74. Marcus Pessoa disse:

    Estou falando de pessoas adultas, não daquelas que dependem de outros.

    Compreendo a sua preocupação de mãe. Mas, quando os seus filhos forem adultos e cuidarem de si mesmos, você não terá o direito de usar as suas preocupações como argumento, porque elas serão um problema apenas seu, e não deles.

  75. Ana disse:

    Marcus, acho que vc fez uma afirmação com um tom muito individualista, que vejo que perpassa sociedades no mundo inteiro, infelizmente.
    Entretanto, espero que minha opinião e preocupações sejam sempre levadas em consideração por meus filhos, que sejam merecedoras de respeito e ponderação pq sei que tenho bom senso e ajo de boa fé com eles. Que a relação deles comigo seja de companheirismo e troca e nunca pensem como vc descreveu.Viver em família é mais do que cada um cuidar de si e cada qual com suas preocupações. Além do mais, não pari para pôr no mundo gente infeliz e eles sabem disso.

  76. Henrique disse:

    Não li todos os posts, de modo que estou pegando o bonde andando.
    Penso que o mais importante a ser feito aqui no Brasil, é tirar o comércio de drogas das mãos dos traficantes.
    O usuário vai existir sempre, querendo ou não querendo.
    A droga deveria vendida através do Ministerio da Saude, que cadastraria os usuários e com a venda das drogas, poderia montar centros de recuperação para dependentes.
    O mais danoso para a sociedade não é a relação do usuario com a droga, é a relação da sociedade com os traficantes por causa da droga.
    Obrigado.

  77. Pingback: Legalizar não leva a nada, estúpido. at Acasum

  78. Aldo Luis disse:

    Sobre a falsificação de produtos: esse fenômeno corresponde à uma previsão de Karl Marx acerca do colapso do capitalismo. Daí a falsificação dos tênis, roupas, bebidas, cigarros, etc.

  79. Aldo Luis disse:

    Só para esclarecer: estou argumentando sobre o comentário de Euler de 15/10/2007.

  80. André Rosa disse:

    Prezado Marcus, boa tarde…Gostaria de elogiar seu Blog, muito bem dirigido, com uma posição sempre muito bem colocada e bem definida e aproveitar para lhe perguntar, se você conhece alguma estatística sobre os índices de violência nos países que descriminalizaram o uso de drogas, se a liberação influenciou no aumento ou na redução da violência…É porque estou ajudando um amigo em sua monografia, que trata desse assunto. Agradeço desde já qualquer informação…Obrigado e um abraço, André

  81. Sempre é fundamental discutirmos democraticamente temas amplos e complexos como esse (que não há consenso em termos de opinição pública), assim crescemos. Gostaria de tentar dar uma pequena contribuição no debate: precisamos sempre, quando tratarmos sobre drogas, ter claro uma fundamental diferenciação: “uma coisa é tratar do uso comum de drogas (uso recreativo)”, outra, alías bem diferente (a meu entedimento), é a dependência química (essa sim, é um problema muito sério e de difícil tratamento.

    Abço

    Arnaldo Toni

  82. Bom, vamos lá então.

    Quem é que exerce “… o direito e até o dever de confrontar esse Estado.” ? A pessoa vai até a periferia comprar 50g de maconha está confrontando o estado? Meio cômodo, ir até lá, jogar uma grana na mão de alguém, tendo garantido por lei a descriminalização do usuário, enquanto o outro está sujeito a ir pra cadeia e tem a média de vida entre 30 e 35 anos. Quem confronta o estado?
    Comprar drogas é um tipo de ativismo político, algum tipo de desobediência civil? A hipocrisia, a me ver, é negar que exista uma demanda por drogas em todo o mundo e que a proibição destas drogas tem um efeito mais desastroso que o uso abusivo. É também, dizer que as pessoas usam drogas apenas por escapismos e problemas de ordem pessoal. Mas o usuário não é esse poço de inocência e não é tão vitima do sistema assim. Ele participa desse sistema, ele é o mercado consumidor, e isso é um fato inegável. O usuário é sim um banana, pois quem planta, processa e revende corre todos os riscos deste “enfrentamento” e o consumidor ( este é o termo mais adequado) apenas compra. Um bunda mole que vai falar em direito de consumo e politizar sua participação nesse problema. Teoricamente, a legalização é uma alternativa. Na pratica, o que se vê é que os consumidores em sua maioria, são universitários, gente com bom grau de instrução e garantias mínimas de sobrevivência social. Enquanto os “trabalhadores” do tráfico são uma massa bem definida pelas estatísticas.
    Se a tópica do discurso é exercer um direito, existem direitos que são básicos e têm prioridade sobre outros direitos. Quem vai confrontar o estado para que o favelado deixe ser um sub-cidadão e possa também se tornar um consumidor recreativo de drogas?
    Meu vizinho quer ter uma arma, mas não consegue uma legalmente, qual é a saída, confrontar o estado e comprar no mercado ilegal? Armas são muito diferentes de drogas e não estou querendo comparar as duas coisas, mas pra onde vai o dinheiro de quem compra uma arma no mercado ilegal? Todo capital é um investimento e não é só pq um cidadão pessoalmente acredite que tenha direito de ter uma arma e entenda que a restrição do estado ao porte de armas esteja negando uma liberdade dele que o dinheiro que ele pagou por essa arma vai deixar de financiar os interesses de quem a vendeu. Esse é o problema maior e imediato. O cidadão é um consumidor passivo e sua participação nesse problema está longe de ser um política.
    Porque os usuários não plantam seus próprios pés de maconha e enfrentam de vez essa política medíocre do estado? Me parece uma ação simples e direta, mas as leis estão aí e perder o direito à liberdade é provavelmente a pena de quem plantar alguns pezinhos para consumo próprio. Eis o peso na balança. Mais fácil por outro na corda bamba e continuar sendo um banana, não acha?

    • Marcus Pessoa disse:

      Não é verdade que os consumidores de drogas são em sua maioria universitários e com bom grau de instrução. Isso absolutamente não é verdade. É um mito construído por gente que nunca colocou os pés na periferia e não viu a grande maioria dos jovens pobres que consomem drogas da mesma fora do que esses míticos universitários de novela. O consumo de drogas é espalhado em todas as classes sociais e isso já foi aferido em pesquisas.

      Os usuários não podem plantar seus pés de maconha, pelo simples fato de que, se o fizerem, serão presos por tráfico, já que não se enquadra no caso de porte para uso pessoal.

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