In Rainbows

Radiohead

disse antes que o Radiohead é a minha banda preferida, entre todas. Talvez não seja mais a número um; o Arcade Fire me conquistou com seus dois álbums impecáveis, perfeitos. Mas seguem tentando ser relevantes e fazer sentido num mundo tão desacostumado à coerência.

As surpresas em série envolvendo o lançamento de seu último disco, In Rainbows, foram tais que eu tive que atrasar esse post até conseguir digerir tudo. No dia 1º de outubro eu soube que o disco sairia no dia 10, sendo que as notícias anteriores indicavam ainda muitos meses de gestação.

Já se esperava que o lançamento seria desvinculado de qualquer gravadora, mas a possibilidade de escolher quanto pagar pelo download foi uma jogada de gênio, um tapa muito bem dado numa indústria fonográfica que acha que pode impunemente extorquir seus consumidores.

Paguei uma libra e meia pelo download, mesmo não precisando. Fiz questão de apoiar, com o meu dinheiro, uma iniciativa ousada como essa. Muitas pessoas pensaram como eu; só na pré-venda a banda arrecadou o equivalente a 20 milhões de reais.

E o disco… bem, esse é o problema.

Temo que os fatores extra-musicais estejam nublando um pouco a recepção dos fãs. Não é um disco excelente, apesar de produzido com muito bom gosto, e fugindo a certo experimentalismo vazio que fez eles lançarem algumas coisas chatas nos últimos anos.

Eu gosto da guinada artística do Radiohead. Acho Kid A um dos melhores discos de todos os tempos, e eu me lembro perfeitamente quando ouvi pela primeira vez Everything in Its Right Place. O século XXI estava como que começando pra mim, naquela ocasião; tudo parecia mais interessante e desafiador.

Mas eu não vejo excelência naquele disco a partir do que ele tem de estranho ou experimental; a surpresa pela mudança radical no som da banda persiste, mas o fundamental são as nove grandes canções, as harmonias cortantes, a fúria, o desespero e a melancolia que se alternam sem muita ordem. Rock cerebral uma pinóia.

Tentaram repetir a experiência em Amnesiac, mas uma safra menos inspirada de canções tornou o disco um objeto estranho. Some-se a isso a vontade deliberada de esconder algumas de suas melhores músicas (Cuttoth, Fog, The Amazing Sounds of Orgy) publicando-as apenas em singles e EPs de tiragem limitada ou sepultando-as em arranjos extraterrestes — é o caso de Like Splinning Plates, que no disco ao vivo tem um tom pungente e confessional ao piano, mas em Amnesiac ficou parecendo que a banda estava tocando dentro de uma câmara hiperbárica.

In Rainbows tenta, como o anterior, Hail to the Thief, o caminho do meio: blips e bloops eletrônicos + canções solenes ao estilo OK Computer. Eu achei mais ou menos; não vi aquelas melodias espantosas a que estou acostumado. É um disco coeso, agradável de ouvir, e com momentos de emoção; Thom Yorke continua cantando muito bem; mas não há nenhuma música que eu pense no primeiro segundo: uau! E é preciso amar as músicas desde o primeiro acorde.

Mas o disco tem sido tão unanimemente elogiado que eu mesmo desconfio da minha apreciação. Cada vez que eu o escuto, ele soa melhor, mas ainda não o suficiente. Não vou esperar semanas até que ele me pareça genial; prefiro publicar esse post e me livrar do assunto.

Você pode escutar abaixo All I Need, que tem sido escolhida por muitas rádios como faixa de trabalho não oficial do disco. É a que eu mais gosto, e tem um clímax épico que só não é perfeito porque acaba bem rapidinho.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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6 respostas para In Rainbows

  1. palpi disse:

    Gostei da música.
    E para vc ver que a Amy até que tem uma opinião parecida com a minha sobre si mesma, vai o link que encontrei n’O Globo, hoje. ;)

  2. Luísa disse:

    Paguei duas libras… É a minha banda preferida também, de longe. E continua sendo. Gostei mais da reckoner… mas pois é, nunca entendi isso de eles “esconderem” tantas músicas excelentes. Falando como fã, o álbum pode não ser tão bom quanto se poderia esperar do Radiohead, mas merece cada crítica positiva que recebeu. É bom demais e só espero que eles não se aposentem tão cedo! abraços

  3. well disse:

    Concordo contigo na parte do disco mas não da «campanha». abraços.

  4. Biajoni disse:

    opa, marcus, meu comentário é sobre o AMAR NA PRIMEIRA AUDIÇÃO. acho que algumas bandas fazem música MENOS DIRETAS, que exigem um pouco mais de esforço na audição. o radiohead é uma delas. em pablo honey e the bends eles eram mais diretos, a pegada rocker mais evidente. ok computer casou de maneira perfeita conceito & som com experimentalismo fazendo com que as músicas soassem perfeitas no primeiro ouvido e fossem só melhorando com as audições. acho que posso falar o mesmo de kid a, que gosto muito, embora muito mais experimental. em in rainbows acho que eles conseguiram algo próximo do ok computer: canções que pegam pelo pé e nas futuras audições melhoram. amnesiac e hail to the thief carecem de carisma e excedem os blips e bloops.
    :>)
    esperemos a parte dois do disco, vai dizer?

  5. Marcus Pessoa disse:

    Sim, estou ansioso.

  6. disse:

    Será difícil o Radiohead fazer discos melhores do que os que já fez, como The Bends, Ok computer, Kid A, Amnesiac, este último muito provavelmente o mais estranho e por isso mesmo o melhor da banda. Rainbows é muito bom também mas nada no sentido de saciar a vontade de novidade e superação que todos têm em relação à música. Ele fica no mesmo patamar daqueles outros discos citados, o que não é pouco.

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