Arte efêmera

Este post tem trazido há anos muitos leitores ao blog por via do Google. As pessoas buscam por “arte efêmera” e caem aqui. Não sei exatamente o que buscam; pra mim foi apenas um bom título para algumas reflexões que surgiram ao ver as fotos.

* * * * * * * *

Eu não podia ficar indiferente a isso. A incrível reportagem fotográfica da revista Época dessa semana é de deixar qualquer um de queixo caído.

Apesar do entusiasmo do público especializado, gente normal como eu e você não chega a levantar sobrancelhas para as últimas novidades reciclagens do mundo da moda. Mas o desfile de Jum Nakao na São Paulo Fashion Week foi uma surpresa sem precedentes.

O estilista paulistano usou papel vegetal cortado a laser para criar vestidos que parecem saídos de um sonho, inspirados no glamour de várias épocas e locais. Usou a cor branca para valorizar a projeção de luzes e deu às modelos uma caracterização impecável usando collants pretos e capacetes de bonecos Playmobil (quem já teve um brinquedo desses quando criança não tem como não se arrepiar com o resultado).

Nota-se que autor não se limitou a mimetizar vestidos “reais”, mas adaptou-os para formas geométricas extravagantes e delicadamente irreais.

Isso pra mim não é só moda: é arte em toda a sua nobreza. Grande arte sim, mas com prazo de validade marcado pelo próprio artista: ao final do desfile, as roupas foram rasgadas em plena passarela, causando grande comoção na platéia, que urrava e se descabelava com o espetáculo. As próprias modelos já tinham chorado nos bastidores, ao serem informadas que deveriam destruir as peças.

Nakao (que tem formação de artes plásticas) justificou lindamente: “Eu queria levar emoção, fazer as pessoas pensar, entender que a moda é algo efêmero. Mas também falar do desejo por meio de peças refinadas e da inevitabilidade da perda, que culminou com as roupas rasgadas”.

Evidentemente nenhuma das peças expostas será reproduzida para venda. O processo de criação da coleção e o próprio desfile foram registrados e comporão um DVD. As fotos são de Paulo Giandalia. Mais fotos no site da ABIT. O desfile foi notícia em sites estrangeiros.

Depois de tanta arte conceitual sem noção nem emoção, de artistas que apenas expõem conceitos e não tocam o coração nem embelezam o mundo, coisas como essa ainda me fazem ter fé em algum tipo qualquer de vanguarda — palavra que já pareceu tão instigante e hoje é quase palavrão.

Publicado originalmente em 22 de junho de 2004. Republicados cinco comentários feitos via HaloScan.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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8 respostas para Arte efêmera

  1. William disse:

    Pode ser. Mas seja como for, Nakao precisa pagar suas contas, e suas supostas desconstruções servem exatamente para isso.

  2. Marcus Pessoa disse:

    Não vejo nenhum problema, William, no estilista pagar suas contas com seu trabalho. Todo mundo tem que pagar as contas, né? Artistas vendem quadros, músicos vendem discos, etc.

    Na verdade, foi o fato do Nakao já ser um sucesso comercial com suas coleções que o permitiu se dar ao luxo de fazer um desfile conceitual. Sua coleção “de verdade” foi apresentada fora da Fashion Week, num showroom.

  3. Rafael disse:

    Embora eu deteste a maior parte do que chamam vanguarda, esse desfile parece ter sido mais honesto; não se mascarou como “a última tendência da moda”. Ou talvez tenha sido o modo como você descreveu a coisa, sei lá.

  4. Muito bom seu blog… aliás, um típico exemplo de coisa efêmera, tal como um jornal que se lê e cujas páginas vão embrulhar carne no açougue!

    A idéia genial do Nakao deve mesmo ter mexido com os nervos, corações e mentes das pessoas presentes, manecas e de todos nós: tudo é efêmero, “tudo passa sobre a terra”, “memento homo quia pulvis es” (lembra-te homem que és pó!)… moda, só é moda, porque sai de moda”.

  5. Cecília disse:

    Não tinha visto esse desfile. Instigante, você diz. Eu concordo.

  6. BISCOITO disse:

    certamente
    É ALGO QUE PERCEBEMOS A EFEMERIDADE NESSE TIPO DE PRODUÇÃO E PENSAMENTO
    MAS PERCEBEMOS TBM QUE O DUO SE TORNA UNO
    A MODA E A ARTE NAO SE ENCONTRAM TANTO ASSIM
    E ALGUEM PODENDO CONSTRUIR ESSE TIPO DE CAMINHO!!!!

    ASSINADO CLEYSON, ARTISTA PLASTICO, VULGO BISCOITO

    ABRAÇOS PRA TODOS!!!

  7. Há tempos não visitava o Velho do Farol. Coincidentemente, deparo-me aqui com meu comentário lá de 2004, que me parecia tão efêmero. O meu comentário reaparece hoje, o que não o torna menos fugaz, muito menos eterno…

    Filosofando como em uma mesa de botequim, pergunto: o que não é efêmero?

  8. Ollie McGee disse:

    Não me lembrava desse desfile, mas gostei da forma como o artista tratou o tema. Achei bonito e sincero. Também um pouquinho patético e comovente.
    Enfim… Artístico. ☺

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