No cemitério

Enterro dos nenéns

Um dos parentes dos bebês retira da sacola um martelo e começa a abrir uma das caixas, com a perícia de quem já fez isso muitas vezes. Surge um embrulho. Sim, um pacote branco, que vai sendo aberto lentamente pelo homem do martelo. Um rostinho aparece, como uma flor, emoldurado pelo papel branco com o qual fora embalado.

O homem olha, respira fundo… Logo outras pessoas lhe pedem o martelo emprestado e, aos poucos, as caixinhas começam a ser abertas, uma a uma. Um jardim de pequeninos rostos inertes povoa o grande salão dos mortos. Todos, como em uma orquestra, começam a enfeitar seus filhos com flores azuis, algumas brancas, tudo igual.

Todas as caixas são reunidas em um carro de mão. Um funcionário grita: “Vamos, gente, vamos. Todo mundo já achou o seu? Então, vamos logo, temos que enterrar”. E toma a frente, empurrando o carro com as caixas de bebês empilhadas.

O cortejo segue pela alameda principal do cemitério. Depois de uns 15 minutos andando sob o sol escaldante, chega-se ao local onde as covas rasas já estão abertas. Uma grande fileira de buracos. Apressados, os coveiros vão retirando as caixas do carro de mão e colocando-as nos buracos, em seqüência: número 1, 2, 3… Epa! Alguém alerta: “Calma, calma, esse não é o 4, é o 5, é o meu filho!”

O blog Má Educação publica um relato corta-pulso escrito pela fotógrafa Paula Sampaio sobre um dos enterros coletivos dos bebês que morreram na Santa Casa, em Belém.

Cliquem e leiam o texto completo.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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5 respostas para No cemitério

  1. Eu não consigo ler esse tipo de coisa sem encher os olhos de lágrimas, fico pensando no meu filho, que graças a Javé está saudável…
    Tentando imaginar a dor de um pai que enterra uma criança tão indefesa e com o sentimento de não ter podido fazer nada.
    Eita Brasil véio tão castigado, quem não tem plano de saúde fica a deriva da incompetência, descaso e corrupção.

  2. Wallace disse:

    Esse é o meu Brasil…
    realmente é perturbador…

  3. Ismael disse:

    Perturbador. Mais uma das centenas, milhares de lições à nossa disposição, para que pensemos mais nos nossos próprios filhos e nos filhos dos outros. E também para que deixemos de uma vez essa falta de atitude de lado e tentemos mudar alguma coisa. Nem que seja apenas o começo de uma mudança. Não dá mais para comentar “esse é o meu Brasil…”. Até a passividade e o desânimo cansam. Um abraço, Marcus.

  4. Pingback: Procurando um hino para o 7 de Setembro? « O Malfazejo

  5. Gi disse:

    Fiz leitura dinâmica, mas doeu no âmago.

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