Quando tudo começou

Esse post foi publicado originalmente como parte de uma polêmica com o Alex, que disse certa vez que, por definição, nenhum monoglota é inteligente. A discussão é antiga e já não faz muito sentido, mas serviu pra que eu desencavasse um dos melhores textos de um monoglota genial.

Estou indo para a praia e ficarei longe da internet por vários dias. O blog entra em recesso mas os comentários dos leitores continuam muito bem vindos.

Nelson RodriguesQUANDO TUDO COMEÇOU

Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943)
por Nelson Rodrigues

No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.

Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”

Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs.

Ainda silêncio. Atônito, pensei em Roberto Marinho que estava no camarote, ao lado. Devia estar me achando uma besta. E, de repente, começaram palmas escassas e esparsas. Um aplaudia aqui, outro ali, um terceiro mais adiante. Atracado à cadeira, sentia-me perdido, perdido. Mas via a progressão. Focos de palmas, em vários pontos da platéia. E, súbito, todos acordaram do seu espanto. Ergueu-se o uivo unânime.

Os aplausos subiam até a cúpula e multiplicavam as cintilações do lustre. Era como se o grande Caruso tivesse acabado de soltar um dó de peito. Os artistas iam e voltavam. Porteiros levavam corbeilles. Veio Ziembinski, arrastado, de mangas arregaçadas, com o suor de gênio da fronte alta. E, súbito, uma voz (possivelmente a de José César Borba) se esganiça: “O autor, o autor!” E não foi só o César Borba. Muitos outros, inclusive mulheres, pediam, exigiam: “O autor, o autor!”

Minha irmã Helena veio me buscar no fundo do camarote. Eu, que me esvaía em suor, gemi: “Não, não!” E ela: “Vem, vem!” Não podia explicar, ali, que eu entrara no Municipal um pobre-diabo; e ainda não me sentia o autor glorioso. Helena, porém, crispada de vontade, arrancou-me da cadeira. Lívido, apareci na varanda do camarote.

Pensei: “Roberto Marinho deve estar impressionado”. Esperava eu, e esperavam minhas irmãs, que a platéia se voltasse para mim e todos gritassem: “Ele, ele!” Mas o que em seguida aconteceu foi muito parecido com um pesadelo humorístico. Estava o autor, em pé, no camarote, pronto para receber a apoteose. E ninguém me olhava, ninguém. Era como se eu não existisse, simplesmente não existisse.

A platéia exigia o autor, mas virada para o palco, de costas para mim. Senti como se fosse um puro espírito, que vaga, invisível, inaudível, por entre os vivos. Deu-me a vontade furiosa de gritar: “Sou eu! Sou eu!” E nada. Por que os artistas do palco não apontavam: “Ali! Ali!” Por um minuto, sem fim, fui excluído da apoteose e me senti um marginal da própria glória. Recuei para o fundo do camarote, dilacerado de vergonha e frustração.

Quando saí do camarote, o primeiro a me abraçar, radiante, foi Roberto Marinho. Em seguida, Sílvio Piergile, o maestro. E ambos disseram: “Formidável!” Mas fora o Roberto Marinho e o Sílvio Piergile, ninguém via em mim o autor. Uma senhora ia na minha frente, com uma graça lânguida e nostálgica: “As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos”. Vou descendo; no meio da escadaria, um velho me abraça; diz trêmulo: “Não perdi um enterro de sua família”. E me beija. Embaixo, sou envolvido, abraçado, quase raptado. Álvaro Lins me puxa pelo braço: “Vem cá que eu quero te apresentar o Paulo Bittencourt”. Lembro-me exatamente das palavras de Paulo: “Sua peça é extremamente interessante”. Alguém ciciou no meu ouvido: “Genial!” Isso, dito baixinho, como se fosse uma obscenidade, deu-me vontade de chorar.

Mas tinha que abraçar Ziembinski, o elenco. Fui para a caixa. Quando entrei, vi uma multidão. Ziembinski berrou: “O autor!” Recebi uma ovação espantosa. Ah, eu estava emocionalmente exausto, as pernas bambas, a vista embaçada. Abraço, longa e desesperadamente Ziembinski. Ah, o polaco (ninguém o chamava de polonês, mas de polaco), o polaco dera ao que parecia o caos uma ordem translúcida e perfeita. Depois de Ziembinski, saí abraçando os intérpretes um por um: Evangelina, Carlos Perry, Graça Mello, Expedito Pôrto, Carlos Mello, Isaac Paschoal. Do alto do camarote, eu era fisicamente desconhecido. Agora, não. Ziembinski me apresentara. Da caixa do teatro até a porta dos fundos, não dei um passo sem esbarrar, sem tropeçar numa admiração patética.

Finalmente, desvencilhei-me dos admiradores e cheguei à rua. Estou andando na calçada da Avenida, e atravesso a Almirante Barroso, vou na direção da Galeria Cruzeiro. Sentia-me boiar entre as coisas. A glória era recente demais. Uma hora antes, eu não passava de um pobre rapaz, que ganhava setecentos mil réis mensais (quinhentos na folha e duzentos por fora). E as coisas me pareciam de uma irrealidade atroz. Até a Avenida era irreal, e os edifícios, e as esquinas. Longe, na Praça Mauá, os mastros sonhavam.

No próprio edifício do Liceu de Artes e Ofícios, quase ao lado de “O Globo”, havia uma casa que era, a um só tempo, leiteria e restaurante. Lá serviam um prato chamado “Almoço Nevado”, típico da classe média. Era um bife, que podia ser acompanhado ou de batatas fritas ou de dois ovos estrelados, com arroz. E mais: manteiga, pão e um pudim de sobremesa. Tudo, ao preço compassivo, generoso, de doze mil réis. Entrei na leiteria deserta, sentei-me num canto. Disse, sem olhar o menu: “Traz um Almoço Nevada, com batatas fritas”.

Primeiro, o garçon trouxe pão e manteiga. Comecei a comer com sombrio elán. Tinha, na imaginação, o lustre do Municipal, ardendo em cintilações delirantes. O garçon voltou. Pôs o prato na mesa. Digo-lhe: “Traz mais pão, que eu pago por fora. Manteiga também, sim?” Eu continuava febril de sonho. Mas o prato estava diante de mim. O bife era a vida real.

Publicado originalmente em 14 de outubro de 2004.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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15 respostas para Quando tudo começou

  1. Pedrox disse:

    Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: – todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da «fala materna» com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo. «Rue de Rivoli», «Calle d’Alcalá», «Regent Street», «Willhelm Strasse» – que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadame. Em todas a fala ambiente lhe oferece um elemento natural e congénere onde o seu espírito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem atritos. E como pelo verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se pode fundir com todas – em todas sente e aceita uma pátria.

    Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos – isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o verbo – apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito – porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracterística e neutra adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles «corpos de pobre» de que tão tristemente fala o povo – «que cabem bem na roupa de toda a gente».

    Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de «não sermos nós mesmos», de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o vocábulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável – ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas, e tenta uma instalação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com efeito, se a minha amiga percorrer a «Gazeta dos Tribunais», verá que o perfeito poliglotismo é um instrumento de alta «escroquerie».

    “ctrl + c e ctrl + v” de A Correspondência de Fradique Mendes (Eça de Queirós)

    Depois dele não preciso comentar mais nada. :)

  2. Ollie McGee disse:

    Gostei muito desse texto. E do ctrl-c/crtl-v que o pedrox colou acima (apesar de discordar do Eça sobre esse assunto…:) )

  3. Inagaki disse:

    O Ruy Castro fez uma descrição impecável da estréia de “Vestido de Noiva” na biografia que ele escreveu do Nélson Rodrigues, com direito a fotos e recortes dos jornais da época. Chegou a ler esse material?

  4. Marcus Pessoa disse:

    Li sim, Inagaki. O Anjo Pornográfico.

  5. marcao, passei para dar um abraco, parabens pelo blog e pelos textos, e atualize mais o seu espaco!

    este email cadastrado é MSN tambem, se usar me adicione!

    grande abraco

    lucci

  6. natusch disse:

    Fiquei lisonjeado com a visita, meu caro.

    Quanto à “Juventude”, o comentário é justíssimo. Alguns planos são, cinematograficamente falando, quase “feios” – tipo imagem de janela que estoura de luz, quadros que ‘balançam’ e etc. Mas isso não faz quase nenhuma diferença, pois a força dos diálogos e o clima envolvente da coisa toda superam qualquer ‘limitação’ técnica. Eu pessoalmente adoro filmes de espírito leve, e achei “Juventude” um ótimo representante dessa linha.

    E citar Nelson Rodrigues é sacanagem =P
    Abraço!

  7. Catatau disse:

    Geralmente um bom índice de falta de inteligência é quando alguém começa a colocar critérios para definir a falta de inteligência, tentando mostrar que “sou inteligente porque não sou isso”, “sou inteligente porque não sou esses outros, que acabo de nominar”.

    É como numa partida de futebol em que, não conseguindo marcar gol, o time aposta apenas na possibilidade do adversário marcar gols contra ;)

  8. M. disse:

    O Alex, pelo mais ou menos que li do blog dele, adora essas afirmações categóricas. Para ele, falar que “por definição, nenhum monoglota é inteligente” é ficar mais perto da inteligência. E aí a gente pensa. Quanto mais línguas um desavisado fala, mais inteligente ele é? O Alex tá precisando estudar javanês, russo, alemão, grego, árabe…

    Isso sem falar numas outras do Alex: “eu não entendo isso”, “eu não entendo aquilo”.

    Até invejo ele. Acho que o Alex conquistou a fonte da juventude. Tantos alquimistas tentaram, mas ele conquistou a coisa, pelo menos na ilusão. Afinal, aos trinta e não sei quantos ainda está naquelas de afirmação da adolescência. :)

  9. Odnanref disse:

    Conheço outro monoglota inteligente: Luís Inácio Lula da Silva.

  10. Gi disse:

    Não sei em que contexto o Alex afirmou isso, e pego o bonde andando, mas nunca ouvi nada de tão alarmante. Em se tratando de quem é, chega a não ser surpresa. Quem deseja provocar polêmicas como todo aquariano acaba pego despercebido na hora em que ninguém mais der valor a elas.

  11. Diego Viana disse:

    Eu não entendo por que algumas pessoas gostam tanto de fazer afirmações categóricas assim, sem reflexão, sem necessidade, sem nada. Embora eu ache que falar uma língua só seja lamentável, é evidente que inteligência nada tem a ver com isso. Pelo contrário, você primeiro precisa ser inteligente, pra só depois querer falar outras línguas.

    E a evocação de Nelson é perfeita. Até porque, além de só falar português (melhor que qualquer um de nós), ele ainda se metia a traduzir coisas do inglês, língua de que não entendia patavinas, hehehehehe.

  12. Marcus Pessoa disse:

    Na verdade, Diego, as traduções creditadas a Nelson Rodrigues não são dele. Ele apenas emprestou o seu nome para ajudar a vender livros que tivessem “escândalo” como tema — principalmente Harold Robbins.

    Aparecia, bem grande: “Tradução de Nelson Rodrigues”, porque era um chamariz de vendas.

  13. JH disse:

    Verdade, Marcus, a propósito das traduções atribuídas a NR. Mas não se esqueça do início em O Globo, quando ele “traduzia” tiras para o – salvo engano quanto ao nome do suplemento – Globo Juvenil, apenas inspirado nas imagens.

    Abs,

    JH

  14. eladio disse:

    parabens :):):):):):)

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