Milk – A Voz da Igualdade

Milk

Olá, meu nome é Marcus Pessoa e eu quero convidá-los. Convidar a ver, a partir de 20 de fevereiro, nos cinemas brasileiros, o novo filme de Gus Van Sant, que conta a história de Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos.

A frase que abre o post é uma paráfrase da convocação que ele usava em seus comícios, e o título escolhido em Portugal é bem expressivo: “Meu Nome é Harvey Milk”. Indicado a 8 Oscars, o filme capta com brilhantismo a trajetória extraordinária de um ex-funcionário de uma grande corporação que, após mudar-se para São Francisco, começa a aglutinar em torno de si os gays insatisfeitos com a discriminação existente nos anos 70.

Gus Van Sant oscila entre filmes radicalmente experimentais e histórias contadas para o grande público. Milk é do segundo grupo, e como a maioria dos grandes filmes políticos, abraça a causa que retrata. O diretor, também homossexual assumido, mostra as várias faces de Harvey Milk: um transgressor, que questiona a contemporização dos gays ricos e importantes com o stablishment político, mas também um marqueteiro esperto, que promove causas populares apenas para conseguir visibilidade para os problemas dos gays.

Hoje virou moda entre trogloditas de direita questionar o movimento gay. Esquecem-se que o que está em pauta não é apenas o bem-estar dos homossexuais, mas a sua própria vida. Milk, interpretado de forma sobrenatural por Sean Penn, deixa isso bem claro quando fala da epidemia de suicídios entre homossexuais. Até hoje os índices de depressão e suicídio entre jovens homossexuais são bem maiores do que entre os heterossexuais. Criar um ambiente social onde eles se sintam acolhidos não é “perfumaria”, mas um assunto de vida ou morte.

A “questão homossexual” tem uma particularidade única, que também é explorada no filme. Ao contrário dos negros e das mulheres, os gays podem esconder sua condição; isso, que pode ser visto como uma proteção contra a discriminação, também fortalece os estereótipos em relação a uma certa visão dos gays assumidos, que seriam “depravados” e sexualmente promíscuos. Milk, lutando contra um odioso projeto de lei que pretendia demitir os professores homossexuais das escolas, pede aos gays que saiam do armário; que seus parentes, amigos, colegas, que os respeitam e que neles confiam, saibam que existem homossexuais em todo lugar, e que eles são pessoas “normais”.

Já ouvi relatos de pessoas que eram homofóbicas, até que descobriram que alguém de seu círculo de amizades era homossexual. Nessa hora caem as mentiras que alimentam o preconceito — que se sustenta no desconhecimento deliberado do “outro”.

O filme corre por fora na disputa do Oscar, mas seria muito bom vê-lo ganhar. Sean Penn ganhou o prêmio de melhor ator do sindicato dos atores e parece estar assumindo a dianteira sobre Mickey Rourke no caminho para sua segunda estatueta dourada. Uma vitória de Milk sobre Slumdog Millionaire e Benjamin Button (dois filmes bastante problemáticos, embora bem realizados) seria uma espécie de vingança contra a absurda campanha homofóbica que tirou o Oscar de melhor filme de Brokeback Mountain, há quatro anos.

O filme de Ang Lee não podia nem ser considerado o favorito. Era o ganhador certo da estatueta, porque arrasou em todas a pré-temporada de prêmios, conseguindo aprovação unânime. Mas um movimento de última hora inflou Crash, um filme bastante inferior e bem esquemático, que, no entanto, também falava de preconceito, no caso o racial.

Como se sabe, existem os preconceitos que têm e os que não têm aceitação social. Ninguém tolera racismo, e mesmo aqueles que são racistas não o admitem, como já demonstrou várias vezes o Alex. Mas a homofobia é livremente praticada.

Nunca tinha acontecido de um filme ganhar todos os prêmios da pré-temporada e perder o Oscar. Isso aconteceu com Brokeback Mountain. Acho que não precisa ser gênio pra saber o motivo.

Não darei links para o Milk, porque a melhor coisa a fazer é vê-lo numa sala de cinema. Mas quem quiser, fique à vontade para procurar os arquivos disponíveis na internet.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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11 respostas para Milk – A Voz da Igualdade

  1. Leila disse:

    Eu estou louca para ver Milk. Também fiquei furiosa quando Brokeback não levou o Oscar. E o Heath Ledger merecia ter ganho também como ator. É um dos filmes que mais gostei nos últimos anos.

  2. cris disse:

    verei sim, com certeza. só pelo seu post já deu uma enorme vontade de conferir. e por mim você nem precisa botar link, tá, porque eu sou da idade da pedra e só vejo filme no cinema ou na TV, hahahaha. :P

    [e quando vc chega no rio?]

    bj

  3. Marcus Pessoa disse:

    A viagem ao Rio será em março, em data ainda não definida (o show é no dia 20). Avisarei assim que comprar as passagens.

  4. Pingback: Dois posts que valem a pena « Quitanda

  5. Fábio Vanzo disse:

    Vamos ver qual que é a desse filme, já que o Gus Van Sant é imprevisível: pode vir um clássico como Drugstore Cowboy, algo perturbado-perturbador como Elefante… ou uma porcaria como aquele filme do Kurt Cobain.

  6. Marcus Pessoa disse:

    O filme é bom sim, Fábio.

  7. Eu não gostei do Brokeback, a despeito de qualquer preconceito eu não vi nada demais até porque é a caricatura da relação de amigos que tenho :)
    Mas esse promete, vale a pena ir ao cinema com certeza.

  8. L. disse:

    Assisti o filme onte e é lindo. Adorei!

  9. Telma Christiane disse:

    É incrível, o Sean Penn se supera a cada filme, acho esse cara um ator perfeito, digno do Oscar.

  10. Amore, obrigada pelo convite. Certamente é um filme notável e o Sean Penn, para mim, é o melhor ator desses tempos. Beijoks. Te espero.

  11. Alan disse:

    Esse é um dos melhores filmes da temporada, e ele me fez tomar uma decisão: na próxima parada gay de Porto Alegre eu estarei lá apoiando. A maioria silenciosa tem que se pronunciar, e é o que vou fazer. Ah, claro, além do mais é muito bem dirigido e o Sean Penn arrasa.

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