Brasileira inventou agressão na Suíça e Noblat foi na dela

A reportagem da revista Época não deixa dúvidas: a advogada Paula Oliveira é uma mitômana, com sérios problemas psicológicos, e inventou toda a história que vem sendo contada pela imprensa brasileira há dias. Não houve gravidez, e muito menos ataque racista.

(tá, isso ainda não foi provado. Mas pra mim o que já foi apurado é suficiente para formar opinião. Se a própria gravidez é uma invenção, muito lógico que o ataque também seja)

Sem dúvida, a maior “barriga” (sic) da imprensa brasileira nos últimos anos. Ao menos não causou prejuízos diretos a ninguém, ao contrário do triste caso da Escola Base e outros parecidos. E, ao contrário destes, tem um responsável muito bem identificado: o jornalista e blogueiro Ricardo Noblat.

Tudo começou com um post dele no dia 11 passado, que publicou como fato o que era apenas alegação do pai da moça, assessor parlamentar e amigo de juventude do jornalista. Não houve checagem, e tudo o que ele publicou se baseou nas informações da família, que parece também ter sido enganada pela moça.

Um único jornalista induziu a erro a empresa onde trabalha (foi a chamada bombástica do Jornal Nacional que chamou a atenção para o caso) e gerou um grande constrangimento para o governo brasileiro, que se viu pressionado a, sem motivo, engrossar a voz contra a Suíça — episódio que Sergio Leo conta numa crônica deliciosa.

Até o momento Noblat não admitiu que errou. Hoje linkou o artigo de Luiz Weis (mas depois apagou o link), onde este desculpa o erro e diz que “11 em cada 10 críticos” fariam a mesma coisa. O interessante é que Weis não identifica Noblat como o autor da barriga, mas sim o Jornal Nacional. E, para provar a tese de que a história era plausível, cita um post do próprio Noblat falando da violência da polícia suíça:

Há 20 anos, um brasileiro ilegal na Suíça foi preso por falsificar cartões de crédito. Saiu da prisão tetraplégico – segundo ele, de tanto apanhar, segundo a polícia, de tanto bater com a cabeça na parede.

No final dos anos 90, o mordomo de Celso Lafer, embaixador do Brasil na Suíça, foi preso por engano. Apanhou. Depois, recebeu uma condecoração e visto permanente para trabalhar na Suíça.

Na semana passada, os dois episódios foram relembrados nos corredores do Itamaraty devido à má vontade inicial da polícia suíça com a advogada Paula Oliveira.

A se notar o caráter vago da nota, sem identificação de fontes ou maiores dados que permitam saber de que fatos (não noticiados pela imprensa da época) se tratam.

Weis reclama que ninguém questionou inicialmente a veracidade da notícia, como se isso desculpasse o erro. Ora, nós, consumidores ávidos de notícias, não temos tempo para fazer o trabalho dos jornalistas e checar a veracidade de tudo o que lemos. Eles, que são pagos para isso, é que devem fazê-lo. Nós tendemos a confiar na imprensa, intuir que o dever de casa foi feito, isto é, que a notícia publicada foi devidamente checada. Note-se que só dois dias depois Noblat detalhou os (insuficientes) procedimentos que adotou antes de levar a história ao ar. Até aquele momento, o tom assertivo do noticiário dava a entender que não havia dúvida sobre o ocorrido.

O que me deixou mais irritado no artigo de Weis é o argumento de que o “perfil” de Paula Oliveira era “insuspeito”, por se tratar de uma advogada, funcionária de uma multinacional. Quer dizer que se ela fosse uma faxineira (como tantos imigrantes brasileiros o são), a história seria menos crível? Pessoas de classe alta têm mais credibilidade?

Não me espanta que a história só tenha alcançado a dimensão que alcançou porque o pai da moça era uma pessoa importante, assessor de um deputado federal…

Anúncios

Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
Esse post foi publicado em Imprensa, Internacional. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Brasileira inventou agressão na Suíça e Noblat foi na dela

  1. Para você ver como o preconceito, discriminação social e racismo baseiam o discernimento dos brasileiros.

    “O que me deixou mais irritado no artigo de Weis é o argumento de que o “perfil” de Paula Oliveira era “insuspeito”, por se tratar de uma advogada, funcionária de uma multinacional”

    Esse tipo de argumento nasce do preconceito de que apenas o status social da pessoa indica seu caráter e de que as condições, cultura e lugar em que vive é o que o direciona para o crime ou ato moralmente errado.

  2. Ollie McGee disse:

    Barriga ou não, acho que não podemos deixar de observar que o caso estava aparentemente sendo tratado com menosprezo pelas autoridades suíças e só depois que a notícia teve repercursão escandalosa na imprensa brasileira é que as autoridades suíças que investigavam o caso se dignaram a prestar maiores esclarecimentos.

    Foi o menosprezo com o qual trataram um funcionário de nossa embaixada, mais do que o suposto ataque neo-nazi a uma conterrânea que mais me irritou nessa história toda.

    A resposta vaga (e mal educada) que a funcionária da Embaixada brasileira alegou ter recebido das pessoas que investigavam o caso, dava fortes indícios de que eles ou não estavam “nem aí” ou nem se importariam muito de investigar o caso até o fim.

    O caso de Paula (se fosse verdadeiro) seria mais um entre tantos, mas chocaria mais por causa da suposta gravidez e por causa da mutilação envolvendo um partido de extrema-direita que é contra a política pró-imigração aprovada pela população suíça.

    Casos de agressão a imigrantes são comuns e eu acho que se o pai da moça não tivesse feito o que fez, nem saberíamos nada sobre o acontecido. No máximo seria uma notinha (ou pequena) chamada no noticiário e olhe lá.

    Quanto a moça, acho que é óbvio que ela tem realmente problemas psicológicos e precisa de ajuda.

  3. Pingback: kingston » quem não checa, é pato: blogueiro ajudou a espalhar versão falsa de paula oliveira

  4. Ju Dacoregio disse:

    O pior é que agora Paula vai ser tratada como uma louca desvairada, uma criminosa até, quando na verdade ela é uma pessoa que precisa de ajuda.

  5. Marcus, em off aqui, você não ia fazer uma cobertura do Forum Social? Eu já tava aqui confortável na poltrona!

  6. Marcus Pessoa disse:

    Tive que alterar meus planos por questões pessoais, Leonardo. Atualizei aquele post para explicar isso.

  7. anunciação disse:

    Concordo com Ollie.

  8. Samara disse:

    Li que estariam tentando relacionar a maluquice dela com a doença que ela tem, mas pela amor de deus se for isso, é um caso raríssimo, mesmo de manfestação psiquiátrica…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s