São Paulo e o espaço público privatizado

Aconteceu ontem comigo um evento tão bizarro numa praça de São Paulo, bairro da Saúde, que resolvi interromper minha resolução de não me preocupar com o blog durante minha viagem ao Sudeste (que se estenderia por duas semanas e já dura dois meses, hehehe). Achei que tinha que falar sobre isso aqui.

Eu tinha tirado o dia para fazer uns passeios com meu amigo paulista, Marcello. No meio da tarde voltamos à casa dele, e ele percebeu que tinha perdido a chave. A mãe dele tinha saído, e por isso fomos fazer um lanche numa padaria próxima, para esperar ela chegar.

A padaria estava muito cheia, então pegamos os sanduíches e refrigerantes, fomos a uma bonita pracinha numa área residencial do bairro e ficamos lá, comendo e batendo papo furado.

Estávamos nessa vadiagem por talvez uma hora, sentados na sombra das árvores, quando passa ao nosso lado uma viatura da Polícia Militar e pára. Nós éramos os únicos da pracinha, então imaginei que eles se dirigiriam a nós.

Ser parado pela polícia para averiguação é uma situação perfeitamente natural numa sociedade civilizada, mas eu me espantei quando um dos policiais saiu de revólver em punho, com a arma praticamente apontada para nós, e gritando para que ficássemos em pé.

Eu até perguntei, abismado mas de forma polida, “pra que essa arma, amigo?”, ao que ele me mandou simplesmente calar a boca, gritando de novo. Mandou-nos também ficar de costas, não olhar para ele e colocar as mãos na nuca.

Enquanto nos revistavam (e obviamente não encontraram nada suspeito), eu respondia normalmente a todas as perguntas, e umas duas vezes em que simplesmente virei o rosto para responder alguma coisa, ele gritou comigo para que eu ficasse de costas.

Os policiais disseram que aquela praça era “ponto de maconheiro” e um deles deixou escapar que eles foram lá porque um dos vizinhos denunciou a nossa presença!

Quer dizer, dois caras desconhecidos estão na rua fazendo um lanche e conversando às três horas da tarde de um tranquilo bairro residencial, e isso, para os moradores, é motivo para uma chamada à polícia. E a polícia chega apontado armas e humilhando os “suspeitos”, sem nenhum indício de que estejam fazendo algo errado.

Marcello depois me disse que isso era “normal” na polícia paulista. E eu, que moro há mais de trinta anos num Estado que é considerado uma espécie de terra sem lei, nunca vivi uma experiência remotamente parecida, com a tão criticada polícia paraense.

Ando muito à noite, a pé, em lugares considerados decadentes do centro velho de Belém. Já fui parado diversas vezes pela polícia. Nunca vi um policial de arma fora do coldre. Sempre fui abordado de forma educada, respeitando meus direitos de cidadão, e por isso nunca fiquei irritado com a polícia estar apenas fazendo o seu trabalho. Certa vez um dos PMs quase pediu desculpas por estar nos revistando, como se o nosso grupo, bem vestido e saindo de uma festa, tivesse razões de não gostar da abordagem policial.

Bem, amigos já tinham me falado da truculência dos meganhas de São Paulo. Um Estado que permitiu a alguém como Saulo de Castro Abreu Filho chefiar a segurança pública por cinco anos demonstra o quão pouco é o seu apreço pelos direitos humanos ou mesmo por um mínimo de decência no trato com o tema. O que mais me espantou, na verdade, foi o fato de a abordagem ter acontecido não no meio de uma ronda de rotina, mas através de denúncia dos moradores.

É como se a praça fosse de propriedade exclusiva deles, que deve ser protegida de “intrusos” que estão apenas… usando-a! Após a saída da viatura, Marcello sugeriu que fôssemos embora imediatamente. Eu, teimosamente, queria ficar, não por fazer questão de permanecer no local, mas por pura raiva, para mostrar ao morador filho da puta que nos fez passar por isso, que eles não eram donos da praça, e não iam intimidar alguém que estava apenas usando um espaço público como outro qualquer. Sei que seria um gesto inútil, mas queria fazê-lo como uma forma de resistência simbólica — mesmo que o simbolismo servisse apenas para fortalecer dentro de mim o meu repúdio visceral a qualquer forma de autoritarismo.

Percebi, aliás, uma ojeriza da institucionalidade paulista ao próprio caráter público das ruas. Muitas praças de São Paulo não têm bancos, o que transforma um lugar que poderia ser aprazível num mero ponto de passagem. Nas que têm, os bancos sempre seguem aquele padrão arquitetônico de dificultar que os moradores de rua durmam neles. Não vi nenhuma que fosse como a Praça da República de Belém, um gigantesco lugar cheio de passagens arborizadas e bancos de madeira enormes, daquele estilo antigo, e onde se pode se chegar e ficar a qualquer hora do dia ou da noite, sem guardinhas mandando ir embora ou dizendo que “isso pode” e “isso não pode”.

Os paulistanos não querem que os moradores de rua durmam no único lugar que lhes resta para dormir, que é a via pública. Tiram dos despossuídos até o direito de ter algumas horas de descanso. O governador José Serra, quando prefeito, construiu as célebres “rampas anti-mendigo”, e é este que 40% de desinformados acham que se preocupa com os pobres e querem ver na Presidência do país.

Esse acontecimento azedou bastante a minha opinião sobre a cidade, que já estava meio ruim ao ver que um ou outro amigo paraense morando aqui já tinha mimetizando essa visão que é típica de uma cidade ultra-capitalista, de “ser bem-sucedido a qualquer custo, ter um carro bom, senão não sou ninguém”.

As pessoas bem-sucedidas que têm como pagar os preços exorbitantes dos imóveis nos bairros residenciais de São Paulo devem achar que têm direito a mandar na rua que moram. Que a praça tem que ser pra eles e pra mais ninguém.

Para alguém como eu, que desde muito jovem ando muito pelas ruas da minha cidade, que as vejo como lugar de passear, de curtir, e não apenas de ir de um lugar para outro, sentir na pele essa transformação do espaço público em feudo privado de alguns poucos foi bastante triste, e também instrutiva.

E eu lembrei de quando morei em Tucuruí, e passava pela vila da Eletronorte, semelhante a um subúrbio norte-americano, lugar super-seguro e com ruas limpas e arborizadas, mas totalmente morto, sem vida social ou gente nas ruas. E no quanto, para muitas pessoas, morar num lugar assim é um tipo de ideal de vida. Isso eu nunca vou entender.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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10 respostas para São Paulo e o espaço público privatizado

  1. gilvas disse:

    pela lógica consumista atual, uma praça ou uma calçada não geram dinheiro direcionado, então quem a ocupa só pode ser delinqüente. huxley é o cara, rascunhou esta sociedade idiota há décadas.

  2. Ana Paula disse:

    Oi, Marcus, meu nome é Ana Paula, eu escrevo no Urbanamente. Sou arquiteta, e fiz o meu mestrado em Urbanismo, aqui no Rio, estudando exatamente os espaços públicos e essas transformações (odiosas) de privatização dos espaços, por essa lógica capitalista.
    Adorei o que você escreveu, foi a Monix do Duas Fridas que me mandou o link, porque ela sabia que ia me interessar.
    Eu gostaria de fazer um post a respeito da questão. Posso usar parte do que você escreveu, apontando para cá, naturalmente?
    Abraços.

  3. Andrea N. disse:

    Ha uns 8 ou 9 anos, eu estava em Sampa com 2 amigos americanos e na saida do show do Toninho Horta no Bourbon St nos nos perdemos. Eu estava dirigindo. Entramos numas ruas escuras e pra tentar me achar ou achar alguem pra pedir informacao, eu estava dirigindo devagar, com cuidado. 2 carros de policia cruzaram a minha frente, me forcando a parar e desceram uns 4 policiais de arma na mao, apontando pra gente e gritando pra sairmos do carro com as maos pra cima. Mesma desculpa: acharam que fossemos “suspeitos”. Expliquei, pedi ajuda e eles acabaram nos liberando. Nem preciso dizer que meus amigos americanos ficaram traumatizadissimos, ne?! E eu MORRI de vergonha. Policia brasileira = MEDO.

  4. Marcus Pessoa disse:

    Agradeço aos comentários. Sim, Ana Paula, é claro que pode citar o texto sim.

  5. aline disse:

    Eu sinto muito que minha cidade tenha te recebido desse jeito truculento.
    Apesar do relato da Andrea, que conta de 8 ou 9 anos pra trás, eu tenho a impressão de que a paranóia da policia de São Paulo ficou pior desde aquela crise com o pcc, há uns 3 anos. Vários lugares que nem perigosos são começaram a ser patrulhados, vários amigos meus começaram a ser parados na rua, de noite, várias vezes eu vi batidas policiais e homens muito armados.
    A cidade, nesse sentido, é muito pouco acolhedora e está ficando pior.

  6. Greta disse:

    Infelizmente em S. Paulo as coisas são assim, Marcus. Mesmo naqueles bairros considerados tranquilos e onde todo mundo se conhece, a presença de estranhos é olhada com desconfiança.
    Essa paranóia da população e da polícia com estranhos leva todo mundo a julgar aqueles que não conhecem como possíveis agressores. Não os condeno, pq S. Paulo nunca foi uma cidade muito “acolhedora”. É cosmopolita e tals, porém a população é mais, digamos, reservada com estranhos.
    Atualmente, morando no interior, eu até já me acostumei ao estilo mais calmo e acolhedor das cidades pequenas, porém em S. Paulo é impossível relaxar, porque um erro de julgamento pode ser a direferença entre a vida e a morte (ou entre ser assaltado ou não).

  7. anedótica disse:

    Já cansei de ser abordada por seguranças aqui em São Paulo só por me sentar em muretas de rua ou de prédios comerciais. Eles vêm e me mandam levantar. Costumo perguntar se posso ficar parada de pé no mesmíssimo lugar e eles respondem sem jeito que sim, mas que não posso sentar. Me deixa louca. Na verdade, se eu ficasse parada de pé ali muito tempo, eles também viriam me abordar. A mentalidade é bem essa: de cada mureta, cada banco, cada pedaço de rua, tem alguém que se acha dono.

  8. Ricardo disse:

    Comer sanduiche em praça publica so em Minas Gerais mesmo. Se for no interior de MG então, em algumas cidades eh capaz de algum morador levar café ou suco e vir bater papo. (tah bom, este ultimo eh mais raro e sao pouquissimas cidades que pode acontecer, mas absolutamente em nenhuma cidade o pessoal incomodaria coma situação)

  9. lu disse:

    depende muito do bairro isso, você pegou o espírito. eu não queria morar no bairro onde moro, mas a gente não teve grana e acabamos comprando um apezinho simples na periferia longe de tudo invés de pagar o aluguel caro num apê mais “na cidade”. No fim estou curtindo morar aqui, porque me sinto segura. as pessoas de fato ocupam a rua, de final de semana tem festa, atividades, até coisa organizada. a molecada nunca sai da rua, e eu posso chegar à noite numa boa à pé que me sinto totalmente à vontade. Aqui seria impensável baixar polícia desse jeito, policial tá cagando pro que acontece por aqui… (dizem que uma vez veio uma viatura, atirou num cara e foi embora. meu vizinho falou que era um traficante que por algum motivo se ferrou com a polícia, devia estar devendo, sei lá.) E sempre tem gente na rua, o tempo inteiro, que são os moradores do bairro, tudo gente simples, que fala “boa tarde” e “boa noite”. parece interior, até.

  10. camila disse:

    Estava escrevendo hoje mesmo sobre a truculência da PM paulista no conflito na USP. E de repente cheguei aqui. Sinto que tenha passado por isso em SP, minha ex-cidade… Coloquei um trecho do seu post e um link para ele no meu blog, espero que não se incomode!

    abraço

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