A Petrobrás está estragando uma boa idéia

A criação, pela Petrobrás, de um blog para informar diretamente ao público sobre as questões investigadas pela imprensa e pela CPI, é uma ótima idéia. Com a versão da empresa à disposição, em contraste com as matérias publicadas pelos jornais, o público tem condições de formar melhor sua opinião.

O que estraga é o procedimento bastante condenável que a empresa está adotando, de divulgar as perguntas dos jornalistas (e respostas da empresa), antes mesmo da publicação das matérias às quais se referem as perguntas.

O Sergio Leo disse o óbvio: quando o repórter está com uma informação exclusiva, ele pergunta os detalhes para a fonte para que esta possa dar esclarecimentos, não para que essa informação se espalhe antes da publicação da matéria. Sem informações exclusivas não existe jornalismo investigativo.

O que a Petrobrás está fazendo é sabotar o trabalho dos jornais. O Idelber apóia isso porque deseja (e já disse isso com todas as letras) a destruição dos jornais. Tanto que comemorou o fechamento da Gazeta Mercantil.

Então você, leitor, que aplaude o procedimento da Petrobrás porque acha que “transparência nunca é demais”, perceba que o objetivo é esse, derrubar as pautas investigativas dos jornais e jogar uns contra os outros, tornando a apuração mais difícil.

Agora, se você concorda que se deve destruir o Estadão, a Folha e o Globo, bem… bom proveito com suas quimeras. De achar que um país sem imprensa profissional pode ser chamado de democracia.

É claro que a grande imprensa tem problemas. É claro que há manipulação. A exposição disso é tarefa imprescindível para os blogs. Mas apontar os problemas da imprensa é bem diferente de querer destruir a imprensa.

Não sou contra a publicação das perguntas e respostas. Concordo com o Träsel e o Pedro Doria nesse aspecto. Mas o Pedro identificou claramente as entrelinhas do discurso de “transparência” da Petrobrás:

Se o único objetivo da Petrobras fosse realmente transparência, era muito simples resolver: publica perguntas e respostas logo após os jornais levarem ao ar suas informações exclusivas.

O que eu percebo é que os blogueiros que estão aplaudindo o procedimento da Petrobrás são inequívocos apoiadores do governo. É, portanto, um movimento chapa branca. Desculpem, não achei um rótulo mais polido para usar.

O engraçado é que eu também sou simpático ao governo. Mas não considero nada bom para a democracia um clima de confrontação entre o PT e a imprensa. Que parte da idéia fajuta de que o PT não promove a mesma manipulação de informações que a imprensa. Como se estivéssemos num faroeste, com bandido e mocinho.

Por isso, blogs e twitters que usam o clichê do “PIG” (o tal “Partido da Imprensa Golpista” inventado pelo Paulo Henrique Amorim) eu retiro da minha lista. Porque aí eu estaria me tornando massa de manobra de um partido político, com seus interesses escusos como outro qualquer.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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6 respostas para A Petrobrás está estragando uma boa idéia

  1. Marcus, está difícil comentar sobre esse tema nos posts do Pedro Doria, do Sergio Leo e do Idelber, porque em suas caixas de comentários todos falam, mas muito poucos escutam.

    Olha que sou fã dos 3, mas neste caso em particular penso que as opiniões do Pedro, do Sergio e agora as tuas são muito mais pertinentes do que a linha que o Idelber defende. Crise da imprensa? Sim, mas não por pura e simples perda de credibilidade, creio que as coisas são mais complicadas do que as “torcidas” a favor ou contra creem. É o seu modelo que está em pauta, e a gestão do negócio deve mesmo gerar muitos cabelos brancos em boa parte dos comandantes da tal “grande mídia”. Mas torcer para que os jornalões e as revistas dessa “grande mídia” acabem me parece simplório, um olhar maniqueista que não enxerga, entre outras coisas, uma parte do que se perde a longo prazo: a perspectiva de aprofundamento e acuidade de certas notícias, algo que demanda tempo e recursos (inclusive financeiros), que seriam substituídas por informações curtas, forçosamente mal-apuradas, e que depois gerariam milhares de “análises” em milhares de blogs… (Aliás, pergunto: quantos são os blogs que realmente produzem notícia no Brasil?)

    Alguns poderão dizer: ingenuidade sua, Ricardo, essa de acreditar que o que se produz na grande mídia é fruto de muita investigação e não de interesses corporativos… Ora, digo eu, não custa lembrar que os veículos midiáticos tb formam um grande e desigual leque, composto por notícias bem apuradas, matérias ruins, editoriais super-enviesados, informações de utilidade pública, propaganda descarada, furos de reportagem, interesses políticos disfarçados etc., e tudo isso num único exemplar de jornal/revista que enrolará carne, peixe ou verduras no dia seguinte! Ao mesmo tempo achar, por exemplo, que veículos como a Veja, O Globo, a Folha e outros não passaram (e tornarão a passar) por mudanças ao longo das décadas — a maioria, em alguns aspectos, para pior —, é não ver a dinâmica das forças da sociedade, dinâmica essa que já avaliou a Veja como uma excelente referência e que hoje a vê como imprensa marrom, e que vê no conservadorismo declarado Estadão uma positiva honestidade, esse mesmo jornal que antes era só um reflexo dos interesses de uma tal de elite… Nesse sentido, caso desapareçam, a longo prazo a perda me parece maior que o ganho. Os veículos são ruins? Sim, há muito o que criticar neles, muito mesmo, mas não vejo no horizonte um maior benefício se eles desaparecerem. Além do mais, outros surgirão no seu lugar, e a dinâmica dos interesses em jogo seguirá de maneira semelhante. (Plus ça change, plus c’est la même chose…)

    E creio que a maior ingenuidade é acreditar que há uma batalha sendo travada entre bem e mal, que o bem por fim triunfará e o mal será varrido do mapa… Façam-me o favor! A tensão entre todos os segmentos da sociedade nunca será eliminada, e nem deve. Todos devem seguir lutando, sempre.

    Por último, apenas para reiterar o que me parece óbvio, mesmo eu não tendo dito nada sobre o assunto: tb acho positivo o blog da Petrobras, mas como vc, o PD e o SLeo, será mais útil para a verdade se publicar depois das notícias, não antes.

    Por enquanto é isso. No mais, subscrevo as tuas palavras.

  2. Greta disse:

    Nossa, Marcus, você escreveu em apenas um post o que eu tentei escrever ontem em dois (enormes) e não consegui. Parabéns!
    Olha, a nossa imprensa não é perfeita (afinal de contas, o que é perfeito?) e erra muito, porém eu não concordo com esse movimento anti-imprensa que se formou na blogosfera nos últimos tempos. Acho uma atitude muito estúpida, enfim.

  3. sleo disse:

    Valeu, camarada.

  4. S. Weil disse:

    Putz! finalmente, vejo escrito de forma sintética porém elucidativa r muito, muito clara, a opinião de alguém que vê bem e mais além das aparências.
    Obrigada

  5. Pedrox disse:

    Achei genial a sacada do blog da Petrobrás. É como na escola, em dia de prova, quando o aluno leva sua prova para tirar dúvida do exame com o professor, que pede ao aluno para indagar em voz alta pois sua dúvida é a mesma da turma toda.

    A função do jornalismo é informar ou vender jornal? Se a função for informar, o blog da Petrobrás cumpre bem essa missão e todos ganham com a transparência…

    Todavia, se a função for meramente mercantilista e o interesse for vender jornal em cima de manchetes e reportagens sensacionalistas (o chamado “denuncismo” que o case clássico da escola base bem conhece), aí sim, o blog da Petrobrás deve ser “demonizado”.

    Jornalista tem que lutar para informar, não para vender o jornal. Sendo assim, o repórter cumpriu bem seu objetivo em formular as perguntas e agora elas são públicas e esclarecem a dúvida da população.

    Ou os jornais se adaptam à nova realidade open-source da comunicação em tempo real nesta era da internet e redes sociais ou vão à falência pela incompetência de não saber lidar com as mudanças.

  6. Pringles disse:

    Eu comecei a ler o blog no wordpress, mas rapidamente se tornou um ponto de encontro dos fanáticos de esquerda.

    O blog está com um clima horrível, com a aquela coisa de revanchismo e gramsci no ar. Não é isso que eu esperava de uma empresa do tamanho da Petrobrás.

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