O lírio mimoso

(republicado) Não esperem concisão ou coerência. Não estou falando de coisas à toa, classificáveis, mas de fragmentos do caos original. De sensações, acontecimentos, pessoas, imagens, lembranças, tudo misturado.

Domingo é o Círio de Nazaré. E acredite, se você não mora em Belém, ou não veio aqui pra sentir de verdade, ou ficou só na sacada do hotel vendo as pessoas passarem, você não sabe de nada.

Antes o Jornal Nacional falava da “maior festa religiosa do norte”. Agora não dizem mais o que é. Não sabem, ou não querem admitir. Que essa é a maior festa religiosa do mundo. Fora Ramadã em Meca e coisa e tal. Mas ela se passa nesse enclave em plena selva. Esse lugar que ninguém entende. Nem nós, que moramos aqui.

A gente não chama Nossa Senhora de Nazaré. A gente chama de Nazaré. Ou Naza. Ou Nazica, até. A gente trata como uma tia querida, ou como a mãe mesmo, se a de verdade morreu. Foi achada no rio, você acredita? Mais uma das historinhas de santas caídas no rio, achadas por pescadores. O enredo é o mesmo. Ela voltava sempre. Sei lá, aqui é calor, vai ver ela queria se refrescar.

Belém não é Belém, é Santa Maria de Belém do Grão Pará. E o Vicente Cecim encurta, põe Santa Maria do Grão. Num lugar mítico que não chama Amazônia, chama Andara. Eles têm o Grande Sertão, nós temos Andara. Um lugar onde você se perde e nunca mais é encontrado. Onde você deixa sua alma passear, e ela foge de você, e você nem percebe.

Tem água do rio em nossas veias. A gente não acredita em tanta água. Não é o mar. É um mar correndo no meio da nossa vida. É a selva tragando coisas e pessoas. Vocês tiveram a prova um dia desses.

Rewind. O Valerius Ensemble toca duas peças difíceis de Schubert. Ninguém gosta muito, só eu e uns poucos. As palmas não são entusiasmadas. Mas todo mundo se acha europeu. Esse teatro é europeu. O art noveau do hall é europeu. O neoclássico da fachada é europeu também. Mas a gente sai, e a praça tá cheia de gente acampada no Grito da Terra. Esse pessoal grita e tem razão. E o enclave grita junto com eles. Pois a gente é europeu sim, mas a gente também foi largado no meio do nada pelos canalhas. A Transa Amazônica é um cemitério compriiido.

E a Naza galvaniza essas pessoas tão diferentes, interrompe a luta de classes durante duas semanas. O catolicismo é pelego mesmo, mas quem se importa? Santos são uma coisa legal. O povinho não acredita direito que Deus olha pra cada um eles. Não se acha tão importante assim. Pede ajuda aos embaixadores. Jorge era um soldado, Benedito um cozinheiro, Naza uma menina pobre. O povinho acha que eles vão entender. E pede pra eles. E quando eles estão pedindo pra Naza, todos juntos, dá um nó na garganta. E esse nó nunca vai desatar.

Vocês não sabem. Não é a pequena cidade tragada pelo turbilhão. Não é a grande cidade apenas tendo algo sobre o que falar naquele dia. É a grande cidade sumindo, não dando pra ver o chão, é gente gente gente gente gente. Não precisa ser católico, não precisa acreditar em Deus. Mesmo os crentes vão lá, escondidos do pastor. A Naza é boa e não pergunta.

Hoje e amanhã são os melhores dias. Todo mundo sai pra ver a noite, pobre, rico, brega, chique. Famílias andam a pé, tem um monte de coisa pra ver. Tem os brinquedos de miriti, tem o arraial, tem os fogos, tem mil procissões que fazem a santa ir pra lá e pra cá. Ninguém tem medo da morte, de assalto, de acidente, a Naza cancela essas coisas durante alguns dias. Liberta o povo que vive preso em sua própria casa. As ruas voltam a ser de propriedade das pessoas e não das coisas.

Muito antes de Paradas Gay já tinha a Festa da Chiquita Bacana. O Bar do Parque nunca fecha, a não ser pra saudar a Naza. E antes de fechar os viados dão a maior festa. A Naza liberta eles também. E na festa vai todo mundo, homem, mulher, viado, sapatão. Tem carimbó e tal, não é macumba pra turista, o pessoal gosta mesmo. E tem o Viado de Ouro, o oscar da bichice. Que é entregue pra um viado com relevantes serviços prestados. O Edmilson Rodrigues, quando era prefeito, entregou o prêmio pessoalmente. Filho de pastor protestante, fez na ocasião um discurso apaixonado em defesa dos viados.

A Chiquita é legal porque todo mundo vai. Tá encalacrado com trabalho, tá deprê, nunca mais saiu nem encontrou os amigos de verdade? Não esquenta, vai na Chiquita que encontra. É só ir lá do lado, na escadaria do teatro, tá todo mundo lá.

Hoje é sexta, tem Auto do Círio, tem samba junto com reza, e não são coisas diferentes. A gente faz o religare por nossa conta, somos gregos também, dóricas são as colunas da Praça da República, pagã e cristã sem neuras a nossa fé. O auto é daqui a pouco e eu não vou ficar mais escrevendo na internet. Vou ser feliz e já volto. Que a Naza abençoe a todos nós

(Publicado originalmente em 6 de outubro de 2006. Recuperei agora alguns comentários publicados no antigo endereço do blog)

 

Anúncios

Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
Esse post foi publicado em Belém, Reflexões. Bookmark o link permanente.

29 respostas para O lírio mimoso

  1. Lembrei-me de mais uns amigos de raízes paraenses. Os Brittos. Já vi em documentário a festa do círio de nazaré. Você tem razão quando diz que os descendentes de europeus foram abandonados aí. E a Transamazônica é compriiiiida mesmo, imagino.

    Já comi pato no tucupi e tacacá.

  2. Marcinha disse:

    Caraca, Marcus, que texto bacana. Também acho que o Círio é isso mesmo, um caos emocional que se instaura na cidade e deixa todo mundo suspenso no ar. Dá arrepios de ver os promesseiros, e não precisa ser devoto para sentir tudo isso. Beijão em ti e nos vemos na Chiquita.

  3. renmero disse:

    Vou me entupir, mermão.

    Nada como a casa dos pais em festa.

  4. cris disse:

    nossa, lindo. arrepiou. taí, um dia quero conhecer o pará. nunca tinha pensado nisso, você acabou de dar idéia…

  5. Umino disse:

    A devoção mariana é um dos pontos altos do catolicismo. Exceto no caso da fascista da Virgem de Fátima…

    E o filme sobre a Festa da Chiquita eu deixei pra ver no MixBrasil.

  6. Marcus Pessoa disse:

    Vou comentar sobre o filme em outro post, Umino. Ainda não vi, mas, pelo que sei, tem algumas coisas lá que têm que ser melhor explicadas pra quem não mora em Belém.

    Cris, se um dia você quiser vir aqui, venha em algum outubro. Eu farei questão de ser o cicerone. A cidade se transforma, vira uma coisa muito louca.

  7. Ana Lucia disse:

    Marcus adorei o post e fui procurar mais coisas sobre a tal nossa senhora de nazaré. É bonita a historia, e teve outros casos parecidos com esse na América latina, se eu nao me engano com virgem de guadalupe mexicana. A imagem dela é linda e até acendi uma vela virtual no sítio da festa, já que não posso participar ao vivo :) Bjos

  8. Maria disse:

    Estou me repetindo, mas näo me importo. Venho aqui agradecer mais uma vez a você, Marcus. Dessa vez porque você me contou uma história que eu, carioca, não conhecia direito, a não ser pelas imagens das matérias reduzidas do Jornal Nacional. trinta segundos sobre uma festa secular, popular, brasileira. Agora, longe de tudo isso – até mesmo dos resumos mastigados Globais – estou finalmente aberta a descobrir outras partes do meu país. Então, mais uma vez, obrigada.

  9. Lucíola disse:

    Você fez um convite a conhecer essa festa de perto, queira Deus que no próximo ano seja possível mudar minhas férias para o mês de outubro irei ao Brasil, ou seja a Belém conhecer a Festa do Círio de Nazaré. Sempre ví como você disse, apenas pelo Jornal Nacional. Parabéns por tão bela descricão.

  10. Ollie McGee disse:

    Marcus, que lindo, eu adoro essas festas religiosas tradicionais, dessas com Andores decorados, mais procissão, mais crianças vestidas com anjinhos, mais celebrações de Missas ao ar livre e tudo mais. Isso é algo tão típico da religiosidade do nosso povo. E tudo o que é povão torna-se algo tão cativante, tão emocionante… Eu adoro isso, pq é a cara do Brasil. Acho que a devoção aos santos é uma das facetas mais singelas e poderosas do catolicismo brasileiro.

  11. Marcos disse:

    “…um não sei que de saudade doendo. Uma saudade sem tempo ou lugar…”

    Marcus querido, lindo o que você escreveu! Estou aqui acompanhando via internet e pela televisão as notícias de nossa Festa e amanhã aquele “rio Guamá” de gente…. Lindo!

  12. Renato Torres disse:

    marquitcho,

    que beleza!… é realmente sem tamanho essa quantidade de impressões, essa nossa alma líquida, densa, e permanentemente em ponto de fervura. esse relicário tão vário de sensações que são memória de corpo e memória de correnteza, em passagem. muitos nos perguntam porque não saímos daqui, mas ora!… somos um povo de passagem, sempre a andar, e andar e andar… parece que não saímos do lugar? a cidade tem pés de água? banzo de invernada, chuva de madrugada, seguimos escorrendo sem subterfúgio.

    abraços!…

  13. Thiago disse:

    *cara de espanto*

    é verdade, é a maior do mundo. é tão grande quando o ramadã em Meca… Marcus! que estúpido… eu nunca me toquei.

    eu PRECISO ver isso de perto um dia. não sou católico, mas se me emocionei quando estive na basílica de Nossa Senhora Aparecida, imagino que aconteceria numa Belém tomada por gente, feita de gente. gente sem vergonha e sem amarras…

    deve ser fantástico. como são fantásticas todas as manifestações populares desse país – do boi-bumbá, ao carnaval de pirapora do bom jesus…

    parabéns pelo texto. aproveite a festa.

    abraços. =)

  14. Eva Fidelis disse:

    Parabéns pelo texto.

    Eu baiana na Alemanha, me sensibilizo sempre com os relatos da nossa miscigenacao. Deu vontade de ir prá festa. Nossa Senhora Aparecida tb apareceu num rio, foi assim por toda a América Latina. O nosso sincretismo religioso é a maior prova de modernidade da nossa raça.
    Que Naza proteja a todos nós!

    Hamburgo,8 de outubro

  15. ricky disse:

    Naza?? Que intimidade!

    Puxa, eu gostaria tanto de estar ai e participar dessa festa!
    Meu lado fotógrafo iria se esbaldar!

    Pelo seu texto ficou uma coisa ainda mais emocionante.

  16. Roberta disse:

    Marcus, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré não foi achada em uma árvore, onde hoje é a Basílica?

  17. Marquinho… nao fique triste pelo Viado de Ouro nao ter sido presenteado a nossa amiga, a mulher mais bicha de belém! hehehe

    E quanta a Chiquita, acredito que continuamos a ir pelo Mito do Eterno Retorno, porque lá reside a possibilidade de estarmos todos no mesmo degrau, unidos pela alegria, pela curiosidade, pela esperança, ainda que seja apenas a de reencontrar velhos rostos e pessoas amadas, e também os desafetos… de ver a Naza passar e erguer um brinde a ela e ao que ela promove… de conversar sobre política, filosofia, arte, música e até fofocar, como fizemos, em apenas algumas horas… porque a festa da Naza fertiliza nossas mentes e inspira nossos corações!

    ah, e quanto ao Mito do eterno Retorno, porque temos essa necessidade de sempre voltar às nossas raízes, ainda que queiramos desbravar o mundo e cruzar os continentes, porque é aqui que está a nossa rede, que é nosso manto a nos guardar seguros e aquecidos, com o calor de um útero santo.

  18. Alan N. disse:

    Pôxa, esse texto foi de dar nó na garganta de quem está longe. Marcus, só agora (?) me caiu a ficha de que tu és um tremendo cronista, tens um texto enxuto e cativante, que transborda de emoção e lucidez sem soar piegas. Dificílimo de conseguir isso! Parabéns, a partir deste círio me afilio aos fãs do teu texto, e espero quem sabe um livro a seguir, pela qualidade que atingiste já está na hora de alguém da nossa geração elevar a voz mais alto.

  19. Marcus Pessoa disse:

    Quero agradecer a todas as palavras carinhosas dos leitores. Fico muito feliz que o texto tenha agradado tanto.

    Roberta, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi encontrada num rio, sim. E ela sempre voltava para o local original, por isso o rio (na verdade um canal) foi aterrado e no local foi construída a Basílica de Nazaré.

  20. Ricrez disse:

    Bonito texto cara, sincero.

  21. david disse:

    Marcus,

    Texto sensacional.

    abs

  22. felipe tanaka disse:

    meu querido ,adorei o texto, o cirio e tudo isto e mais alguma coisa.

    eu sou um exemplo vivo. Ateu de carteirinha mas sempre q vejo a nazica sendo levada por um mundao de gente eu me derramo em lagrimas xoro q nem criancinha, a nazica tem tata importacia na minha vida q me casei sobre a sua bencao (e das bixa tambem, e claro!) pois eu dice o temido (sim) em plena xiquita , tu lembras pois era um dos convidados de onrra, beijo meu querido obrigado por ter me presenteado com este texto maravilhoso!

  23. Hebe disse:

    Puxa! Que texto lindo! Obrigada por desvendar um pouco desse Brasil tão brasileiro e tão imenso que nós mesmos desconhecemos…

    abraços

  24. Pingback: O Círio de Nazaré por quem tem olhos para ver e escrever « Sub Rosa (flabbergasted) v.2

  25. Carmen Ditto disse:

    Comentario simples para todos entenderem o significado de uma grande festa religiosa.

  26. Paulo Woolf disse:

    Vc escreve muito bem. Sabe, eu acredito em Nossa Senhora, esteja aonde estiver. Não pensara q vc também acreditasse, mesmo se de outra forma. Que ela te guarde e guie e que vc encontre nela, para o todo e sempre, nunc et semper, amor, consolo e companhia.

  27. Gerson Silva disse:

    Uma das coisa que mais me emocionam quando penso na cidade de Belém do Grão Pará é o tempo da festa do círio de Nazaré, foi vivenciando ele que aprendi a amar esse lugar, tão cheio de contrastes, mas que me traz muitas boas lembranças. Marcus o círio é realmente tudo isso que vc falou, a virgem simboliza tudo isso de uma forma extraordinariamente simples para o povo, uma pequena imagem representado toda esperaça de milhões de promesseiros. O que acontce quando se chega perto ou se vê ela passar? emoção,é mas não se explica por quê. Talvez isso aconteça por causa daquilo que a procissão representa. Um Milagre. Sabemos da lenda que envolve a origem da imagem. A de que ela foi achada levada para um local de adoração mas que sempre voltava para o lugar onde fora encontrada pelo caboclo Plácido. A romaria da trasladação representa esse achado, já a procissão do círio é a reconstituição do “milagre”, da volta da Virgem para o local onde ela foi encontrada e queria se refrescar como vc disse. romeiros do Pará inteiro e do resto do Brasil, reviveram esse milagre durante suas vidas inteiras e talvez sequer tenham se dado conta disso. O círio eu poderia dizer é emoção. gostei da citação sobre o mundo criado por vicente Cecim, mas temos também a Aruanda da Eneida de Moraes, e outros lugares imaginários criados pela religiosidade mais característica do povo amazônida que é a crença nos encantados, neles temos como na procissão do círio personagens de várias classes, caboclos, reis, índios, princesas, duques, marqueses, o curupira, a cobra grande, a matinta e até o rei D. Sebastião que deu origem o mito messiãnico famoso em portugal e no Brasil. Esses lugarem foram parar em nossa literatura, mas vieram da religiosidade forte do povo, essa mesma religiosidade que dá ao círio uma força incrível. A virgem é a mãe, mãe de todos nós que acreditamos. A chamado culto mariano é forte. Quando foi parar nas telas de cinemas o filme “O código Da Vince”,do livro homônimo de Dan Brown no qual se discutia, entre outros assuntos, a questão do sagrado feminino perseguido pela Igreja Católica, e que trouxe curiosidades da história da Igreja. Vemos acontecer em nosso tempo a manifestação do sagrado feminino na Amazônia como uma das festas mais importantes para garantir os fiéis para essa instituição religiosa. Essa sacralidade é manifestada em outras leituras do que seria o círio para os artistas do Arraial do Pavulagem e do auto do círio, aos uranistas da chiquitas. Por isso mesmo emociona, e como disse o Pe. Fábio de Melo “é por isso que na alma de todo paraense a vida é sempre outubro”.

  28. Silvia Faria disse:

    Que a Nazica te abençoe. Nos abençoe.

  29. Pingback: Romaria fluvial | Velho do Farol

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s