Raul Thadeu da Ponte Souza

Raul Thadeu da Ponte Souza

Esse tem sido um ano difícil. O destino levou quase em seguida o mui admirado Juca, pai da Lívia, a dona Amparo, e agora o Raul Thadeu, jornalista e poeta (e grande poeta), pai dos meus queridíssimos Andrea e Paulo, a quem amo como se fossem meus irmãos.

Uma característica comum a essas três pessoas brilhantes era o seu amor aos filhos e também a outros jovens que os tinham como uma espécie de pais/mãe postiços. Pois o amor deles sobrava para muito além da prole. Um dos filhos postiços do Thadeu (e isso é uma inferência minha, não sei se ele vai concordar) é o meu amigo, e também poeta e tradutor, Rui Rothe-Neves, que me mandou o texto e o poema abaixo, que eu me apresso a publicar, para lembrar a pessoa extraordinária que era o Thadeu.

O Thadeu se orgulhava de ser poeta inédito. Sempre dizia que queria ser publicado apenas postumamente. O Paulo me avisou ontem que vai começar a organizar as pilhas e pilhas de material para começar a publicar. O Brasil então conhecerá esse gigante a que só nós tínhamos acesso.

Umas poucas palavras e um verso de pé quebrado

Rui Rothe-Neves

Do ponto de vista das decisões humanas, a vida é uma sucessão de escolhas ladeada por dois eventos imprevisíveis, nascer e morrer. Uns mais, outros menos, todos sabemos disso. Sabê-lo, contudo, não nos consola, nunca o bastante, quando sabemos que um amigo partiu.

Foi assim quando soube que Raul Thadeu e eu não nos encontraríamos mais no mesmo quarto atulhado de livros ou numa mesa de boteco ou na praça ou sabe-se lá onde – o lugar nunca importara – pr’aquele papo que nunca acabou, que era feito de parênteses, um assunto emendando, atropelando ou contradizendo o próximo ou o anterior.

Como bom surrealista que era, nunca desdenhava do acaso; aproveitava o que podia de uma situação para, com a perspicácia que lhe era característica, estabelecer logo as conexões com um tópico pertinente (ou impertinente!) na literatura, nas artes ou nas biografias. Por isso, acho que não deixaria de apontar essa última ironia, pela qual a data se tornou inesquecível: desapareceu no dia de N. Sra. Aparecida…

* * * * * * * *

Partiste da vida de madrugada
da mesma cidade calada
que te via sonhar

Não levaste o trocado da barca
pulaste a catraca
e mandaste remar

Vai, amigo, carrega o teu canto
pro lado de lá

* * * * * * * *

Outras notas sobre ele:

Morre o repórter Raul Thadeu
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Como fazer uma entrevista duas horas depois da entrevista
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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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