Finados

(republicado) Sem metafísica, por favor: às vezes quero idéias simples que definam perfeitamente as coisas. A singularidade da espécie humana, por exemplo. Para além de seu cérebro avantajado, polegar opositor, “alma imortal” e quetais, eu queria dizer: o homem é isso e pronto.

De “bípede implume” a “bípede inviável”, foram muitas as tentativas. Dizem que o homem é o único animal que ri. Mas uma idéia me fascina: o homem é um animal que lembra. Não é o único, mas eu queria que essa fosse nossa característica definidora.

Penso nisso porque é Dia dos Mortos. Não existe função mais nobre da memória do que lembrar daqueles que já foram. Que não podem mais chamar nossa atenção. Cuja “presença” em nada nos é “útil”.

Milan Kundera escreve em seu romance A Imortalidade que esta pode ser conseguida de duas formas. Os mortos vivem na lembrança dos que os conheceram, o que é a pequena imortalidade. Já uma parte deles transcende, vive na lembrança dos que não os conheceram: é a Grande Imortalidade, privilégio de artistas e homens de Estado. A memória permite uma pequena vitória sobre o inexorável.

Existe no centro de Belém um lindo cemitério, o Soledade. Quando passo em frente aos mausoléus, minha alma fica pequenina. São obras finamente entalhadas e que custaram muito caro. Fico pensando no medo que reside nos corações humanos. Eu tenho medo de não lembrar, então gasto meu suor para construir algo que me afaste do grande perigo, a impersistência da memória.

Se quiser ensinar a meu filho sobre nossa característica definidora, apenas o levarei para passear no Soledade. Vê? Entende como os homens amam tanto seus semelhantes, a ponto de construir grandes obras para nunca esquecê-los?

Meu pai morreu muito cedo, aos 38 anos, de cirrose hepática. Era alcoólatra. Fora isso, um grande homem, uma pessoa rara para quem todos só têm boas palavras.

Eu já sabia, claro, o que era a morte, mas nunca imaginei que ela pudesse chegar para alguém tão jovem. Minha tia chegou comigo e disse que “papai do céu levou seu pai”. Eu achei estúpido da parte dela dizer isso; eu não era nenhum retardado para que precisassem dourar a pílula. Mas fiquei calado; certas coisas dão muito trabalho de explicar.

Eu não chorei, nem mesmo fiquei triste. O que tive foi um transe, uma ânsia de olhar, ver todos ao meu redor, o modo como reagiam a isso, o que diziam dele. Ver minha mãe chegando, muito chorosa, amparada por todos. A vida parecia um filme.

A falta, a enorme falta, a imensamente amarga e triste falta, eu fui sentir uns três dias depois. E nunca deixei de sentir, até hoje.

Estávamos os três, eu e meus irmãos, no velório dele. Lembro dessa cena como se fosse hoje. Chegamos, levados pelos tios, e minha mãe nos recebeu na porta do salão; em seguida nos levou até o caixão, onde papai jazia com o rosto coberto. Mamãe retirou o lenço e disse: “este é seu pai, e ele se foi para sempre”.

Um dia desses, conversando com ela, relatei a história, e percebi o júbilo em seu olhar. Seu objetivo estava cumprido: ela queria que nos lembrássemos, que soubéssemos para o resto da vida o que era, na real, ver papai ir embora e nunca mais voltar.

Temos medo da morte porque a modernidade seqüestrou-a de nós. Hoje todos morrem em hospitais, cujo karma é pesado demais. Mas eu tive sorte. Eu pude, em outro episódio, me reconciliar com a idéia da morte como algo natural, como a passagem de um ciclo.

Eu devia ter uns quinze anos e mamãe nos avisa: minha avó (mãe do meu pai) estava muito doente, nas últimas. Fomos imediatamente para a casa dela, e lá estava a velhinha, sentada mas inconsciente, amparada por um médico. Mamãe sentou-se ao lado dela e pegou sua mão; minha avó teve um espasmo, não sei se involuntário ou porque sentiu a singeleza do toque.

Todos os parentes estavam na casa, chorando e rezando. Eu fiquei com eles, e aos poucos tudo fez sentido: a idade avançada da vovó, sua vida sofrida mas digna, seus filhos criados como pessoas de bem. Ela estava indo, mas tinha junto de si todos os que a amavam, na casa onde viveu décadas. Existe forma mais tranqüila de morrer?

Desde esse dia não tenho mais medo da morte.

Um bom dia de Finados a todos. E leiam esse post antigo, onde Sandman reflete sobre as mesmas coisas.

Publicado originalmente em 2 de novembro de 2005. Vários comentários foram resgatados do HaloScan, entre eles, ao que parece, o primeiro comentário que este blog recebeu da minha querida Cris.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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18 respostas para Finados

  1. Renmero disse:

    feliz dia dos mortos.

  2. Marcinha disse:

    Muito lindo o teu texto, me tocou mesmo, num dia como hoje.
    Te adoro.

  3. Bonitas lembranças, Marcos. Certamente não aparecem apenas hoje, no dia de finados! abs

  4. Edu disse:

    Puxa, realmente lindas lembranças. Espero poder morrer assim também!

  5. Leila disse:

    Marcus, também fiquei tocada com o trecho sobre a morte de seu pai, tão novo. Não consigo nem imaginar o tamanho do sofrimento da família. Um grande abraço.

  6. Luciana disse:

    Sim, também perdi meu pai cedo. Meu irmão tinha nove anos, como vc tinha. E uma das melhores coisas do mundo é poder lembrar dele, do quanto era incrível. Seu texto caiu como uma luva por aqui, no meu peito.

    Feliz dia dos mortos atrasado.

    Um abraço.

  7. Marcus,

    O homem é isso e pronto. Ponto.

    O homem é mortal; mas ri e lembra.
    Pode rir da própria mortalidade. Pode lembrar e imortalizar aqueles que lembra.

    Meu pai foi um pai excepcional, amigo até debaixo d’água, minha maior e melhor lembrança. Mas, ele mesmo, não teve pai: perdeu-o com menos de dois meses. Não importa. Ele criou um modelo de pai amoroso na lembrança.

    Contava que – quando apanhava de algum garoto mais velho, ou, mais tarde, da vida – imaginava que, se o pai fosse vivo, estaria do seu lado para defendê-lo.

    Este modelo de pai (imaginário) criou o pai real que ele foi. Inesquecível para as filhas.

    Então, quem disse que a morte mata?
    Quem sabe, a morte não torna mais vivo aquilo que sempre teve vida?

    Um beijo grande!!!!!

  8. Claudia Cardoso disse:

    Considero-me uma felizarda, porque meus pais estão vivos e bem. Mas lembro de uma ocasião, minha mãe, muito triste, passando por um período difícil da vida, que era uma filha doente (eu), suspirar: “como é triste ser órfã”… Ela não sabe que eu ouvi aquilo até hoje. E quando penso que eles estão velhinhos e partirão, antecipo essa saudade, essa dor e tento ficar pertinho deles o mais que posso.

    É claro que minha vida é uma caixa de surpresas. Enquanto transplantada, com quase 10 anos de cirurgia, alguma coisa pode acontecer comigo antes mesmo que meus pais. Mas como os exames andam muito bem e tenho uma vida tranqüila, a idéia de ser mais jovem impera frente a realidade da velhice que vem acompanhada com a finitude da vida.
    E no mais, achei muito bonito e tocante o teu post!

  9. Luciana disse:

    Um texto sobre a morte, mas tao cheio de vida…

  10. cristiane disse:

    oi, marcos. só agora encontrei o seu blog. que pena pra mim. fiquei um tempão sem ter conhecimento de uma coisa tão boa. cara, você escreve! e bem. adorei esse texto e o outro, sobre o furacão. você disse tudo que merece ser dito e mais alguma coisa sobre aquele verme do odc. aquilo não vale as calças que veste. durante o referendo tive o desprazer de topar com alguns blogs desses de direita, adoradores da figura maldita (não os wunder, outros, que infelizmente isso é igual a praga…) e meu primeiro impulso foi replicar. mas como fazê-lo com gente que usa como argumentos tão sólidos quanto “brasileiro é tudo burro”, “gentinha ignorante” e por aí vai… definitivamente não vale a pena. você está certíssimo. o melhor a fazer é ignorá-los. por fim, mesmo sem te conhecer espero que você se recupere da bad trip. já tive depressão e sei como a barra pesa. vou te linkar. mais gente tem que conhecer isso aqui. um grande abraço!

  11. Michelle disse:

    Querido, texto belo.

  12. Puxa, Marcus, descobri que temos mais em comum do que gostar do Depeche Mode e Radiohead. Meu pai morreu aos 40 anos, apesar de jurar que não era, era alcóolatra. Eu não chorei durante o enterro (no que fui repreendida pela minha mãe, já que as pessoas iam falar com ela que era muito estranho meu comportamento) e estava numa espécie de transe. Na volta pra casa, no comecinho da noite, eu minha mãe e meu irmão foi o momento mais doloroso de toda minha vida. Impossível descrever.

    Agora, morando longe da minha mãe, confesso que tenho medo dela morrer e eu não estar por perto. Ainda não consegui superar o medo da morte (não a minha, mas dos que eu amo), mas espero chegar lá um dia.

    Beijo!

  13. cristiane disse:

    pois eu não consigo lidar com a morte e a finitude humanas de maneira tão tranquila. um dia quem sabe. enquanto isso, o jeito é ignorá-las solenemente, o que, convenhamos, é uma tremenda burrice de minha parte…

  14. cris disse:

    esse texto é lindo demais e merece ser republicado sempre. foi quando eu te conheci, amigo. beijos!!!

  15. Gerson Silva disse:

    Também concordo com você, a melhor definição para o ser humano é a de que “o homem é o animal que lembra”. Nesse e nos outros dia de finados a memória serve para provar que não somos finitos. É bom lembrar, nos faz reviver momentos bons que quem amamos, sempre fao isso e consigo me sentir melhor. Eu que vivo da memória dos outros falando de tempos passados, e como diria um professor: servo de cronos e mnémesis, também uso a minha para imortalizar pessoas amadas que já se foram. Só ainda não consegui, como você, perder o medo da morte, menos da minha do que a das pessoas que eu amo. Obrigado pelo texto dado a nós seus leitores, bom dia de finados já finado!!! E boa semana.
    Abração!!!

  16. Gerson Silva disse:

    Marcus, desculpe os erros de digitação do comentário acima, sou assim mesmo, não reviso o texto, culpa da minha constante preguiça, desatenção e do dedo torto, mas acho que dá pra entender a idéia, se não der! por favor apague que mando outro. Esse eu revisei!!!

  17. Marcus Pessoa disse:

    Não se preocupe com erros de digitação ou ortografia, Gerson. Este blog é Pasquale-free, hehehe.

  18. Tarilonte disse:

    A supervalorização da morte decorre da supervalorização da vida. Nos julgamos mais importantes do que realmente somos. Querer ser lembrado após a morte é quase tão narcisista quanto querer continuar a existir após a morte.

    Talvez o maior motivo que nos leve a lembrar dos mortos é a esperança que a gentileza nos seja retribuída.

    Queria encontrar uma qualidade que apenas o homem possui? Aí está: O homem é o único animal vaidoso.

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