Matéria da Veja sobre Erenice Guerra é derrubada no mesmo dia

[atualizado] Dessa vez a Veja extrapolou.

Não, eu não estou dizendo que a revista ainda tivesse alguma credibilidade. Mas a matéria de capa desta semana, atribuindo à ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, a cobrança de propina em contratos do governo federal, é tão frágil que foi desmentida pela principal fonte no mesmo dia em que foi publicada.

O empresário Fabio Baracat, apresentado na matéria como “dono da ViaNet Express, empresa de transporte de carga aérea”, esclareceu em nota que nunca foi ligado à empresa, e desmentiu cabalmente as declarações que revista lhe atribuiu — de que o advogado Israel Guerra, filho da ministra, tivesse lhe cobrado propina para conseguir um contrato com os Correios. O empresário representava na ocasião os interesses de outra empresa aérea citada na matéria, a Master Top Airlines (MTA).

Veja respondeu de forma um tanto enigmática, sem entrar no mérito da negativa de Baracat, e dizendo que a matéria “não foi construída com base em declarações”, mas em documentos que ainda não foram publicados. Só não sei que raio de documento poderia embasar esse trecho:

Os dois levaram o empresário para o apartamento funcional onde Erenice morava até março deste ano. Para entrar, Baracat teve que deixar do lado de fora celulares, relógio, canetas – qualquer aparelho que pudesse gravar o encontro.

Sem falar nas inúmeras declarações em aspas, e a própria chamada de capa:

Empresário conta como obteve contratos de 84 milhões de reais no governo, graças à intermediação do filho de Erenice Guerra, ministra-chefe da Casa Civil, que foi o braço direito de Dilma Rousseff

Se a história supostamente contada pelo empresário é desmentida pelo próprio, então não existe matéria, certo? Veja inventou um fato. Não que eles não tenha feito isso antes, mas nesse caso o desmentido foi cabal.

A história é tão frágil que a TV Globo não a repercutiu. No link acima, sobre a nota de esclarecimento de Baracat, vê-se que a TV tentou confirmar a história, mas como a principal fonte a negou, o assunto não foi ao ar no Jornal Nacional de sábado.

Já os jornalões fizeram o papelão de ignorar o desmentido em suas matérias sobre o caso. O Estadão e o Globo focaram na (previsível) gritaria da oposição, e a Folha na suposta atuação de Israel Guerra como lobista. Todos destacaram a defesa da ministra Erenice Guerra, mas não o desmentido de Baracat. O Estadão chegou a publicar a nota de esclarecimento, mas no final de uma matéria e sem se referir a isso no título ou no lead. A Folha cita Baracat como “consultor” e ignora as informações falsas da Veja.

É fato que a empresa de consultoria de Israel Guerra atuou em defesa dos interesses da MTA, mas, segundo Baracat e o coronel Eduardo Artur Rodrigues Silva, diretor dos Correios (citado na matéria do Globo), o trabalho foi de assessoria jurídica, no trâmite de licitações e na retirada do nome da empresa de um cadastro de inadimplentes. Tudo legal, com contrato assinado e comissão de 6% sobre os contratos que a MTA viesse a conseguir com os Correios — que agora a imprensa insinua que é “propina”.

É até possível que Israel Guerra fizesse lobby e tenha usado o nome de sua mãe para conseguir clientes, mas até o momento não há indícios que indiquem isso. Muito menos que a ministra tenha participação no episódio. É mais um factóide inflado por uma imprensa ávida em atingir a candidatura de Dilma Rousseff.

Atualização: matéria de capa da Folha de hoje (quinta, 16) trouxe indícios de que Israel Guerra praticava sim tráfico de influência e cobrava propinas de empresas interessadas em aprovar projetos no governo. Não há acusações diretas contra a ministra, mas, como ela permitiu a um parente atuar nessa área nebulosa, teve que pedir demissão.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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4 respostas para Matéria da Veja sobre Erenice Guerra é derrubada no mesmo dia

  1. Amanda disse:

    marcus, faça o favor de voltar pro orkut?
    acompanho silenciosamente a OdeC desde 2007, e acompanhar a eleição sem os seus comentários é tão chato :(
    fica o apelo! hehe

  2. Marcus Pessoa disse:

    Obrigado pela lembrança, Amanda, mas provavelmente minha vida no Orkut já se encerrou. Tem muita gente chata monopolizando a OdeC, aliás.

    Você pode acompanhar meus comentários aqui no blog e no Twitter.

  3. Marcelo Brito disse:

    É, meu caro,
    E quem se queimou nessa não foi só a Casa Civil, mas também os blogs pró-Dilma. Depois que não dá mais pra negar que aconteceu, não seria surpreendente que eles começassem agora a procurar escândalos semelhantes em governos do PSDB do passado.
    Vou tampar o nariz e votar na Marina Silva. Tenho muitas ressalvas a ela, mas ainda assim ela seria uma presidente melhor que o Michel Temer.

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