Marina Silva e o segundo turno

Marina Silva em entrevista coletiva em São Paulo. Foto de Maurício Lima (AFP)

A candidata do PV conseguiu uma montanha de votos no primeiro turno e tem mostrado um grande apreço pelo capital político que conquistou. Afinal, antes da questão ecológica, o que mais move os eleitores da Marina é a sua mensagem de ética e transparência. E a mensagem ecoou em virtude da campanha limpa que fez, sem demonizar seus adversários, e distribuindo elogios e críticas tanto a Dilma e Serra quanto a Lula e Fernando Henrique.

Não votei nela, mas tenho que reconhecer que ela está dando um show de hombridade e decência neste segundo turno. A lucidez e franqueza que ela demonstrou nessa entrevista ao Estadão são de tirar o chapéu.

Depois de se posicionar duramente contra o fisiologismo do PV, que queria fechar acordo com Serra em troca de cargos, ela mostra que quer fazer o debate sobre apoios no segundo turno em termos programáticos. Por isso, divulgou um programa de 10 pontos, chamado Agenda por um Brasil justo e sustentável, que servirá de base para os encontros que terá com Dilma e Serra e para a decisão na convenção do PV.

O documento é muito bom. Tenho algumas ressalvas, mas no geral é uma proposta bem avançada, embora alguns pontos demandem um apoio no Congresso que acho difícil de conseguir. De qualquer forma, é uma vergonha que Dilma e Serra até hoje não tenham apresentado ao eleitorado um documento semelhante contendo suas propostas, e estejam sendo pautados pela candidata que chegou em terceiro lugar.

Como eleitor de Dilma, acho que ela pode subscrever quase tudo que está lá, e negociar alguns pontos que considero problemáticos. O documento se aproxima mais das bandeiras históricas defendidas pelo PT do que do populismo desenfreado que tomou conta da campanha de Serra, que tem feito propostas mirabolantes (aumentos inviáveis do salário mínimo e das aposentadorias, “décimo terceiro” para o bolsa família) pra tentar tirar votos de Dilma.

Espero que a negociação seja pra valer, ou seja, Marina apresenta o programa e, em caso de concordância de um dos candidatos, presta-lhe apoio para o segundo turno. Senão fica fácil: ela, “linda e loura” (sic), emplaca suas propostas, mas não se compromete em indicar voto a seus eleitores.

Alguns poderão dizer que a simples adesão ao programa apresentado pela Marina já é uma forma de chegar a seus eleitores. O problema é que seu eleitorado não votou nela necessariamente por suas propostas, mas por sua história de vida e sua já citada mensagem de ética e transparência. O aval oficial da candidata é uma forma de dizer que confia que tal candidato honrará os compromissos assumidos.

A imprensa tem afirmado que Marina deve se declarar neutra, mas isso me parece mera especulação. O Alexandre Nodari tem me feito prestar atenção para os movimentos entre os apoiadores dela, alertando que não se deve dar muita importância ao que dizem os principais dirigentes do PV, como José Luiz Penna, Sirkis e Gabeira, e sim ao grupo mais próximo à candidata, que são os ambientalistas que saíram do PT junto com ela. Um deles é Pedro Ivo Batista, que afirmou que o PT saiu na frente na briga pelo apoio de Marina.

Dilma tem feito tudo certinho até agora. Ligou para Marina para parabenizá-la pela votação, e não para pedir apoio. Aguarda respeitosamente o chamado para discutir o segundo turno. E não cometeu a lambança de sair oferecendo ministérios, como fez Serra. Vamos ver no que é que dá.

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Sobre Marcus Pessoa

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5 respostas para Marina Silva e o segundo turno

  1. cris disse:

    Muito bom, Marcus. Também não votei na Marina [mas isso você já sabia, né, rs] e confesso que ela vem me surpreendendo. Não me agrada o apoio que ela tem de lideranças religiosas, mas ela tem se mostrado muito digna nesse aspecto. Ela nunca se apresentou como uma ‘candidata evangélica’ e considero isso um ponto positivo. Vamos ver o desenrolar dos fatos e pelamor, né. O PT tem que começar a pautar esse segundo turno e tirar o foco dessa m* de discussão sobre aborto. Tomara que a Dilma continue fazendo ‘tudo certinho’ e não meta as mãos pelos pés. Eu tenho todo o direito de ficar estressada e nervosinha com segundo turno. Ela não. Tem que virar esse jogo na frieza. Bjs e valeu pelo ótimo texto.

    • Marcus Pessoa disse:

      Dilma sinalizou em duas ocasiões ontem que pretende desinflar essa discussão do aborto, uma na entrevista coletiva, outra no programa, quando ensaiou o início de uma comparação entre as realizações de Lula e Fernando Henrique, que é um assunto que realmente interessa e diz respeito a uma campanha presidencial.

      • cris disse:

        Não vi o programa ontem; ainda estou no meio das minhas comemorações de aniversário, rs. Mas que bom isso, bons ventos! \o/

  2. Silvia Faria disse:

    Eu acho a Marina, como pessoa, uma boa cidadã. Essa igreja dela é o fim! Não é nada discriminatório, todavia ela evita assuntos polêmicos, inclusive o aborto. Por sinal, é um assunto de saúde pública e não um mero factóide eleitoral. Te digo isso pq tem horas que mais parece cumprimento de tabela da parte dela do q efetiva inclinação ao debate. Enfim, se não era para votar no 13, eu curti muito mais o Plínio Sampaio.

    • Marcus Pessoa disse:

      Várias amigas votaram no Plínio, Silvia. Engraçado, não lembro de algum amigo pessoal aqui em Belém que tenha votado na Marina. Espero que os eleitores progressistas da Marina e os do Plínio migrem para a Dilma no segundo turno.

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