Amador

Veste teus tênis e vai.

Queremos apenas lembrar a você, amador: com esses tênis não será melhor do que ninguém, nem mais do que ninguém. Com esses tênis não subirá em um pódio, nem ouvirá nenhum hino. Não receberá flores, muito menos troféus.

Se você espera ser alguém melhor gastando a sola dos seus tênis, esqueça. Você só vai correr, correr e correr, até sentir que chegou no seu melhor. Chegou ao seu melhor, não ao dos outros.

Se um dia os teus tênis te trouxerem alguma glória, ela não fará com que você viva mais ou melhor. Não ganhará dinheiro com eles. Não terá descontos, nem brindes com eles. Não terá mais mulheres, nem homens, nem novos amigos. Muito menos fãs ou seguidores com eles.

Com esses tênis, não será melhor do que ninguém, nem mais. Só o que esses tênis podem te dizer é que você tem que fazer. Porque você sente. Porque você quer. Porque é isso que te faz acordar de manhã. E viver. E correr.

Queremos que lembre. Por isso, veste teus tênis e vai.

O vídeo tem roteiro de Zé Matarazzo e direção dele e de meu amigo Ricardo Raposo. Foi feito para o concurso Olimpikus.mov

Cliquem no primeiro link, avaliem, comentem lá. Eu, pelo menos, ficaria feliz se eles ganhassem o concurso. Esse seria um comercial da Olimpikus que eu teria prazer em assistir na TV.

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Finados

(republicado) Sem metafísica, por favor: às vezes quero idéias simples que definam perfeitamente as coisas. A singularidade da espécie humana, por exemplo. Para além de seu cérebro avantajado, polegar opositor, “alma imortal” e quetais, eu queria dizer: o homem é isso e pronto.

De “bípede implume” a “bípede inviável”, foram muitas as tentativas. Dizem que o homem é o único animal que ri. Mas uma idéia me fascina: o homem é um animal que lembra. Não é o único, mas eu queria que essa fosse nossa característica definidora.

Penso nisso porque é Dia dos Mortos. Não existe função mais nobre da memória do que lembrar daqueles que já foram. Que não podem mais chamar nossa atenção. Cuja “presença” em nada nos é “útil”.

Milan Kundera escreve em seu romance A Imortalidade que esta pode ser conseguida de duas formas. Os mortos vivem na lembrança dos que os conheceram, o que é a pequena imortalidade. Já uma parte deles transcende, vive na lembrança dos que não os conheceram: é a Grande Imortalidade, privilégio de artistas e homens de Estado. A memória permite uma pequena vitória sobre o inexorável.

Existe no centro de Belém um lindo cemitério, o Soledade. Quando passo em frente aos mausoléus, minha alma fica pequenina. São obras finamente entalhadas e que custaram muito caro. Fico pensando no medo que reside nos corações humanos. Eu tenho medo de não lembrar, então gasto meu suor para construir algo que me afaste do grande perigo, a impersistência da memória.

Se quiser ensinar a meu filho sobre nossa característica definidora, apenas o levarei para passear no Soledade. Vê? Entende como os homens amam tanto seus semelhantes, a ponto de construir grandes obras para nunca esquecê-los?

Meu pai morreu muito cedo, aos 38 anos, de cirrose hepática. Era alcoólatra. Fora isso, um grande homem, uma pessoa rara para quem todos só têm boas palavras.

Eu já sabia, claro, o que era a morte, mas nunca imaginei que ela pudesse chegar para alguém tão jovem. Minha tia chegou comigo e disse que “papai do céu levou seu pai”. Eu achei estúpido da parte dela dizer isso; eu não era nenhum retardado para que precisassem dourar a pílula. Mas fiquei calado; certas coisas dão muito trabalho de explicar.

Eu não chorei, nem mesmo fiquei triste. O que tive foi um transe, uma ânsia de olhar, ver todos ao meu redor, o modo como reagiam a isso, o que diziam dele. Ver minha mãe chegando, muito chorosa, amparada por todos. A vida parecia um filme.

A falta, a enorme falta, a imensamente amarga e triste falta, eu fui sentir uns três dias depois. E nunca deixei de sentir, até hoje.

Estávamos os três, eu e meus irmãos, no velório dele. Lembro dessa cena como se fosse hoje. Chegamos, levados pelos tios, e minha mãe nos recebeu na porta do salão; em seguida nos levou até o caixão, onde papai jazia com o rosto coberto. Mamãe retirou o lenço e disse: “este é seu pai, e ele se foi para sempre”.

Um dia desses, conversando com ela, relatei a história, e percebi o júbilo em seu olhar. Seu objetivo estava cumprido: ela queria que nos lembrássemos, que soubéssemos para o resto da vida o que era, na real, ver papai ir embora e nunca mais voltar.

Temos medo da morte porque a modernidade seqüestrou-a de nós. Hoje todos morrem em hospitais, cujo karma é pesado demais. Mas eu tive sorte. Eu pude, em outro episódio, me reconciliar com a idéia da morte como algo natural, como a passagem de um ciclo.

Eu devia ter uns quinze anos e mamãe nos avisa: minha avó (mãe do meu pai) estava muito doente, nas últimas. Fomos imediatamente para a casa dela, e lá estava a velhinha, sentada mas inconsciente, amparada por um médico. Mamãe sentou-se ao lado dela e pegou sua mão; minha avó teve um espasmo, não sei se involuntário ou porque sentiu a singeleza do toque.

Todos os parentes estavam na casa, chorando e rezando. Eu fiquei com eles, e aos poucos tudo fez sentido: a idade avançada da vovó, sua vida sofrida mas digna, seus filhos criados como pessoas de bem. Ela estava indo, mas tinha junto de si todos os que a amavam, na casa onde viveu décadas. Existe forma mais tranqüila de morrer?

Desde esse dia não tenho mais medo da morte.

Um bom dia de Finados a todos. E leiam esse post antigo, onde Sandman reflete sobre as mesmas coisas.

Publicado originalmente em 2 de novembro de 2005. Vários comentários foram resgatados do HaloScan, entre eles, ao que parece, o primeiro comentário que este blog recebeu da minha querida Cris.

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Raul Thadeu da Ponte Souza

Raul Thadeu da Ponte Souza

Esse tem sido um ano difícil. O destino levou quase em seguida o mui admirado Juca, pai da Lívia, a dona Amparo, e agora o Raul Thadeu, jornalista e poeta (e grande poeta), pai dos meus queridíssimos Andrea e Paulo, a quem amo como se fossem meus irmãos.

Uma característica comum a essas três pessoas brilhantes era o seu amor aos filhos e também a outros jovens que os tinham como uma espécie de pais/mãe postiços. Pois o amor deles sobrava para muito além da prole. Um dos filhos postiços do Thadeu (e isso é uma inferência minha, não sei se ele vai concordar) é o meu amigo, e também poeta e tradutor, Rui Rothe-Neves, que me mandou o texto e o poema abaixo, que eu me apresso a publicar, para lembrar a pessoa extraordinária que era o Thadeu.

O Thadeu se orgulhava de ser poeta inédito. Sempre dizia que queria ser publicado apenas postumamente. O Paulo me avisou ontem que vai começar a organizar as pilhas e pilhas de material para começar a publicar. O Brasil então conhecerá esse gigante a que só nós tínhamos acesso.

Umas poucas palavras e um verso de pé quebrado

Rui Rothe-Neves

Do ponto de vista das decisões humanas, a vida é uma sucessão de escolhas ladeada por dois eventos imprevisíveis, nascer e morrer. Uns mais, outros menos, todos sabemos disso. Sabê-lo, contudo, não nos consola, nunca o bastante, quando sabemos que um amigo partiu.

Foi assim quando soube que Raul Thadeu e eu não nos encontraríamos mais no mesmo quarto atulhado de livros ou numa mesa de boteco ou na praça ou sabe-se lá onde – o lugar nunca importara – pr’aquele papo que nunca acabou, que era feito de parênteses, um assunto emendando, atropelando ou contradizendo o próximo ou o anterior.

Como bom surrealista que era, nunca desdenhava do acaso; aproveitava o que podia de uma situação para, com a perspicácia que lhe era característica, estabelecer logo as conexões com um tópico pertinente (ou impertinente!) na literatura, nas artes ou nas biografias. Por isso, acho que não deixaria de apontar essa última ironia, pela qual a data se tornou inesquecível: desapareceu no dia de N. Sra. Aparecida…

* * * * * * * *

Partiste da vida de madrugada
da mesma cidade calada
que te via sonhar

Não levaste o trocado da barca
pulaste a catraca
e mandaste remar

Vai, amigo, carrega o teu canto
pro lado de lá

* * * * * * * *

Outras notas sobre ele:

Morre o repórter Raul Thadeu
Reportagens corajosas marcaram trajetória
Como fazer uma entrevista duas horas depois da entrevista
“Vamos embora que é chen, companheiro”
O desnacer de Raul Thadeu

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O lírio mimoso

(republicado) Não esperem concisão ou coerência. Não estou falando de coisas à toa, classificáveis, mas de fragmentos do caos original. De sensações, acontecimentos, pessoas, imagens, lembranças, tudo misturado.

Domingo é o Círio de Nazaré. E acredite, se você não mora em Belém, ou não veio aqui pra sentir de verdade, ou ficou só na sacada do hotel vendo as pessoas passarem, você não sabe de nada.

Antes o Jornal Nacional falava da “maior festa religiosa do norte”. Agora não dizem mais o que é. Não sabem, ou não querem admitir. Que essa é a maior festa religiosa do mundo. Fora Ramadã em Meca e coisa e tal. Mas ela se passa nesse enclave em plena selva. Esse lugar que ninguém entende. Nem nós, que moramos aqui.

A gente não chama Nossa Senhora de Nazaré. A gente chama de Nazaré. Ou Naza. Ou Nazica, até. A gente trata como uma tia querida, ou como a mãe mesmo, se a de verdade morreu. Foi achada no rio, você acredita? Mais uma das historinhas de santas caídas no rio, achadas por pescadores. O enredo é o mesmo. Ela voltava sempre. Sei lá, aqui é calor, vai ver ela queria se refrescar.

Belém não é Belém, é Santa Maria de Belém do Grão Pará. E o Vicente Cecim encurta, põe Santa Maria do Grão. Num lugar mítico que não chama Amazônia, chama Andara. Eles têm o Grande Sertão, nós temos Andara. Um lugar onde você se perde e nunca mais é encontrado. Onde você deixa sua alma passear, e ela foge de você, e você nem percebe.

Tem água do rio em nossas veias. A gente não acredita em tanta água. Não é o mar. É um mar correndo no meio da nossa vida. É a selva tragando coisas e pessoas. Vocês tiveram a prova um dia desses.

Rewind. O Valerius Ensemble toca duas peças difíceis de Schubert. Ninguém gosta muito, só eu e uns poucos. As palmas não são entusiasmadas. Mas todo mundo se acha europeu. Esse teatro é europeu. O art noveau do hall é europeu. O neoclássico da fachada é europeu também. Mas a gente sai, e a praça tá cheia de gente acampada no Grito da Terra. Esse pessoal grita e tem razão. E o enclave grita junto com eles. Pois a gente é europeu sim, mas a gente também foi largado no meio do nada pelos canalhas. A Transa Amazônica é um cemitério compriiido.

E a Naza galvaniza essas pessoas tão diferentes, interrompe a luta de classes durante duas semanas. O catolicismo é pelego mesmo, mas quem se importa? Santos são uma coisa legal. O povinho não acredita direito que Deus olha pra cada um eles. Não se acha tão importante assim. Pede ajuda aos embaixadores. Jorge era um soldado, Benedito um cozinheiro, Naza uma menina pobre. O povinho acha que eles vão entender. E pede pra eles. E quando eles estão pedindo pra Naza, todos juntos, dá um nó na garganta. E esse nó nunca vai desatar.
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Saudade dela

Maria Bethânia

Maria Bethânia, cantora soberana, a maior do Brasil, lançou dois discos esta semana. E eu, em processo diuturno de elaboração de luto, lembro que era a cantora favorita da dona Amparo, e seus olhos sempre vinham brilhando quando chegava de um show da diva.

Os discos se chamam Encanteria, com músicas de festa / exaltação, e Tua, com canções de amor. O primeiro me pareceu melhor, e tem esse samba de roda gostoso, onde Betha canta com Caetano e Gil pela primeira vez em sete anos, e cuja letra tem também a ver com os meus sentimentos atuais. Saudade é algo que dá pra celebrar, também. Clique para ouvir.

SAUDADE DELA

Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso
Autores: Roberto Mendes e Nizaldo Costa

Ai ai saudade, saudade dela
Ela se foi, saudade, fiquei sem ela

Fonte de sabedoria, onde tudo podia achar
Todo canto matriz da gente do meu lugar
Quando eu era canarinho ela existia sabiá
Hoje canto sozinho, e dela sempre vou lembrar

Do nosso convívio saiu, já se dizia cansada
Deixou um largo sorriso e um doce canto de paz
Foram tantas alegrias servidas naquele prato
Mistura de amor e poesia em mesa de luxo

Dona da casa, me dá licença
Meu samba na varanda
Com chapéu na cabeça e facão de banda
Dona da casa, me dê licença
Me dê seu salão para vadiar

Eu vim aqui foi pra vadiar
Ladeia, ladeia, ladeia
Ladeia, pomba na areia

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La Negra

Mercedes Sosa, La Negra

E eu estava ouvindo música hoje, e fiquei sabendo que Mercedes Sosa morreu, e fui correndo para o Blip.fm ouvir “Gracias a La Vida”, e “Volver a Los 17”, mas quando fui colocar o meu próprio blip no Twitter para homenageá-la, pensei apenas em “Años”, não sei bem por quê. Talvez porque essa canção, no dueto dela com Fagner, é uma lembrança fortíssima da minha infância. Ou talvez porque os versos “el tiempo pasa y vamos nos poniendo viejos” tenham tudo a ver com o que eu estou sentindo agora, e eu lembro da mamãe e choro duas vezes, uma por La Negra e outra pela dona Amparo. E lembro que essa sensação me persegue, a idéia de um paraíso que perdemos, e lembro do Vampiro Lestat quando perdeu Cláudia, morta à traição, e ele pensou no mundo como um imenso panteão de estátuas quebradas, imagem tão forte que é a segunda vez que eu a uso neste blog. E eu até entendo os reaças, os conservadores renitentes, porque pra eles o mundo começa a morrer assim que nasce.

Mas a música não é nada disso. É uma música pra ficar tranquilo com o passar do tempo. Clique abaixo para ouvir.

AÑOS
Mercedes Sosa

El tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
Y el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación, cada beso, cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón

Vamos viviendo viendo las horas que van pasando
Las viejas discusiones se van perdiendo entre las razones
Porque años atras tomar tu mano, robarte un beso
Sin forzar el momento
Hacía parte de una verdad

A todo dices que si, a nada digo que no
Para poder construir esta tremenda armonia
Que pone viejos los corazones

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Yes, We Créu

Ilustração de Rodrigo Hasimoto

Esse trocadilho idiota, mas divertido, espalhou-se hoje tão rápido no Twitter que chegou ao topo dos trending topics em menos de 20 minutos.

Claro que o vencedor iria aparecer lá. Mas não foi só o nome Brasil, e sim o país Brasil, a cultura Brasil, na forma desse humor infame.

Uma alegria misturada com raiva, com mágoa, talvez? Se o São Paulo vence, o são-paulino não grita “aêê”, e sim “se fudeu corintiano”.

Os gringos nunca vão entender isso. E o Brasil segue revolucionando, com seu jeito meio cretino, os mecanismos frios da internet.

As tags do Twitter a gente não usa pra organizar informação, mas pra desorganizar, pelo sarcasmo. Por isso #yeswecreu e não #rio2016

O Twitter é legal pela resposta rápida, mas também porque é horizontal, sem centros de poder. Você não tem o que tomar posse lá.

Não vai virar um Orkut. Não tem como bagunçar. Cada um tem controle total sobre o que lê. Você não pode obrigar ninguém a ler os seus posts.

Você não precisa ler quem lhe lê. A relação é assíncrona e livre. E os controles de privacidade impedem que vire um lugar chato.

Eu ia escrever sobre a alegria brasileira e acabei falando sobre o Twitter em geral. Mudar o foco é algo que a gente faz lá todos os dias.

Só te digo uma coisa: é lá que está a diversão. E ter apenas 140 caracteres pra te convencer disso é ótimo.

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